maio 25, 2006

“NOVOS” ENG.ºs CUF

Nota introdutória

Ainda que a “época dos engenheiros” na Companhia União Fabril seja temporalmente mais recente do que as datas aqui apresentadas, e coincidente com as vagas de admissões dos anos 50/60 do século XX, verificadas na empresa e decorrentes das suas políticas de expansão, o facto é que desde muito cedo, a CUF recrutou pessoal técnico superior para as suas fábricas no Barreiro, não só estrangeiro (em particular nos primeiros dez anos da instalação), como também nacional - julga-se que especialmente a partir da I Grande Guerra.
A rarefacção de fontes da empresa para a primeira metade do século XX limita, necessariamente, qualquer cenário que se possa traçar sobre o pessoal técnico para esse período histórico da CUF, que se crê enquadrado numa estrutura base muito simples de hierarquia e comando.

Sendo factual e conhecido o elenco dos primeiros directores do Barreiro após Stinville, a saber, Eng.º Eduardo Madaíl (1927 – 1929), Eng.º João de Rocha e Mello (1930 – 1943), Eng.º Faustino de Sousa (1944 – 1952), para essa primeira metade do século, a verdade é que se está longe de saber de forma completa, que técnicos ocuparam os lugares logo abaixo na hierarquia, e que respondiam pelo controle eficaz e bom andamento das fábricas, assim como está por esboçar a estrutura existente, e que antecede a reforma e reorganização profunda que a empresa viverá nos anos posteriores ao pós - II Guerra Mundial (existe uma lista de engenheiros da CUF em 1952, que será oportunamente divulgada).

É pois, no intuito de compilação de dados referentes a esta temática e na mira de possíveis esclarecimentos adicionais, que se abordam, nesta notícia, dois nomes antigos entretanto localizados, de engenheiros “novos” porque pouco ou nada conhecidos, até ao momento, no contexto da história da CUF-Barreiro.

Eng.º Daniel Conceição Torres
Elementos obtidos em BENSAÚDE, Alfredo (1922) - Notas histórico-pedagógicas sobre o Instituto Superior Técnico. Lisboa, Imprensa Nacional, p.155, e no acervo bibliográfico do IICL actualmente na posse do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, ISEL


Nome [completo?]: Daniel Conceição Torres
Data de Nascimento: ?
Formação: Engenheiro Químico-Industrial, Instituto Superior Técnico, curso de 1915/1916
Admissão na CUF [data provável]: 1917 (Barreiro)
Residência:?
Naturalidade:?

Observações: O Eng.º Daniel Conceição Torres poderá ter sido admitido na CUF no enquadramento próprio da I Guerra Mundial, isto é, numa conjuntura de dificuldade de permanência de pessoal técnico estrangeiro nas fábricas do Barreiro, por recrutamentos para a grande deflagração em curso. Há ainda registo de mais dois engenheiros químicos do IST admitidos na Companhia União Fabril, pela mesma altura (BENSAÚDE, 1922, p. 71), mas não se conhece os seus nomes.

Existe um engenheiro Daniel Torres (IST) que assina a sebenta “Trabalhos práticos de Química, conforme as lições dadas no laboratório de Química Geral do Instituto Industrial de Lisboa”, 1941.

Não se encontram, de momento, quaisquer registos deste engenheiro no acervo documental da CUF nos Arquivos da CUF/QUIMIGAL. Coloca-se a hipótese de que possa ter transitado pelos anos 40, da CUF para o Instituto Industrial, para seguir a carreira docente.

Eng.º A. Cabral

Elementos pessoais obtidos a partir da Ficha do Cadastro do Operário

Nome: Armando de Almeida Cabral
Data de Nascimento: 8/09/1917
Formação: Engenheiro Químico-Industrial, Instituto Superior Técnico
Admissão na CUF: 02/08/1943 (Barreiro)
Demissão: 31/12/1946 (saída voluntária)
Residência: Barreiro, Rua Lawes, Nº 24, Bairro da CUF
Naturalidade: Brasil, Rio de Janeiro (nacionalidade portuguesa)

Observações: assina documentação emanada das Fábricas do Barreiro (Serviços de Exploração: Secção Estrangeiro), está em correspondência directa com o consultor Percy Parrish. Deverá ter-lhe sucedido A. Mascarenhas (Eng.º?) e parece ser um dos antecessores do Eng.º António Pessoa Monteiro

O Grupo de Trabalho

GRUPO DE TRABALHO DO ARQUIVO DA CUF/QUIMIGAL
«FICHEIROS TEMÁTICOS E IDEOGRÁFICOS DA CUF/QUIMIGAL»


Com o objectivo de recolher um conjunto de dados referentes à história da CUF e da QUIMIGAL, passível de se constituir em ferramenta útil também para uma melhor e mais eficaz organização dos seus arquivos, o grupo actualmente procede à compilação sistemática de informação sobre estas empresas, em temas representativos como PRODUÇÃO, SERVIÇOS/ESTRUTURAS, PESSOAL, C.I.E. E ÓRGÃOS REPRESENTATIVOS DOS TRABALHADORES, para o período de 1963 a 1990, utilizando como corpus o Boletim da empresa ”Informação Interna CUF” e publicações suas seguidoras.

Foram entretanto ultimados os seguintes volumes dentro desta linha de trabalho:

I: Colecção ÍNDICES TEMÁTICOS (1963 a 1990)

caderno “PRODUÇÃO” (1.ª, e 2.ª edição, corrigida e ampliada);
caderno “SERVIÇOS/ESTRUTURAS” (1.ª, e 2.ª edição, idem)
♦ caderno “PESSOAL” (Tomos I, II e III, 1.ª edição)

II: Em preparação: caderno complementar “C.I.E. E ÓRGÃOS REPRESENTATIVOS DOS TRABALHADORES”, e um aditamento ao caderno do “PESSOAL”.


Foram ainda aproveitados os índices gerais existentes (Índices remissivos) das publicações em causa, e desenvolvida uma nova colecção, ÍNDICES REMISSIVOS, na continuidade do volume elaborado pelo eng.º J. M. Leal da Silva, Índices Remissivos do Boletim “Informação Interna CUF” e seus sucessores para o período de 1963 a 1979. Assim, realizou-se:

caderno Índices Remissivos do Boletim “Informação Interna CUF” e seus sucessores para o período de 1979 a 1990 : “QUIMIGAL noticiário”;

caderno Actas da C.I.E., Comissão Interna da Empresa: Índice remissivo geral, 1963 – 1974;

Em elaboração: caderno Ao Serviço da Empresa, compilação do pessoal que, no Boletim “Informação Interna CUF” e publicações suas seguidoras, eram notícia por completarem 25, 35 e 40 anos de serviço.


Dada a grande dimensão do conjunto dos cadernos, revelou-se impraticável postar os volumes referidos no “fabricasol”. Porém, todos os volumes elaborados e em preparação existem em versão papel, e em ficheiro Word – exceptuando-se, por enquanto, o caderno Índices Remissivos do Boletim “Informação Interna CUF” e seus sucessores para o período de 1963 a 1979 , do qual existe uma versão em papel, e se ultima actualmente uma versão em ficheiro Word.
Qualquer solicitação para consulta poderá ser solicitada através do correio electrónico do “blog”, deixando indicação dos conceitos a pesquisar (ou do objecto em geral da consulta) e forma de contacto para seguimento. Pela mesma via daremos resposta à solicitação recebida e sugeriremos forma eficaz para consulta destes auxiliares e/ou do Boletim.

O Grupo de Trabalho

Notícia Sobre os Engenheiros da CUF em 1956

1. A abrir

2. O porquê das coisas

3. O “produto final”

4. Um comentário relativo ao Barreiro

5. O “Anexo Madaíl”

6. Diversos

7. A fechar

Anexos:
Os presentes anexos, pelo seu peso informático não são reproduzidos.



Lisboa / Barreiro, 21 de Março de 2005

José Miguel Leal da Silva

1. A abrir

Se é discutível a diferença entre “descoberta” e “achamento” há que concordar
que, pelo menos quanto ao Brasil, já fez gastar muita tinta. Num dos dicionários mais
correntemente usados, o primeiro vocábulo está definido como “acto ou efeito de
descobrir o que já existia, mas não era conhecido”, mas já para o segundo, o mesmo
léxico acrescenta, como acepção técnico-jurídica, a “forma de constituição de
propriedade de coisas móveis perdidas por parte de quem as encontrou.” Em qualquer
dos casos, subjaz ao facto a surpresa do encontro. E a apropriação pode justificar-se
quando houver qualquer coisa de útil a retirar da coisa achada, nem que seja num
entreabrir de portas para desenvolvimentos futuros.

É um pouco o que sucede agora, ao editar esta notícia. Em 1996 procurava-se
obter informações sobre o Eng. Eduardo Cândido Bravo Madaíl, com destino a uma
pequena nota biográfica solicitada sobre o mesmo por investigadores externos à
Quimigal (Drs. Elsa Sertório e António Louçã). O que se obteve sobre o Eng. Eduardo
Madaíl, figura a todos os títulos importante na hierarquia da Companhia União Fabril,
S.A.R.L. [que seguidamente se designará pelo consabida sigla CUF] nos períodos de
Alfredo da Silva e de D.Manuel de Mello, foi recolhido numa pasta facultada pelo Dr.
Ernesto Papa, então director da DCRH – Direcção Central de Recursos Humanos da
Quimigal S.A. e hoje infelizmente já falecido, dando lugar à notícia que se junta como
“Anexo Madaíl”.

Mas, surpreendente acaso, nesse mesmo dossier estava inserida — e
manifestamente fora da sistemática que seria de esperar — muita informação que se
não referia exclusivamente ao Eng. Eduardo Madaíl. Com conhecimento do Dr.
Ernesto Papa, a pasta foi cuidadosamente guardada para que tão interessante
material pudesse ser devidamente tratado numa primeira oportunidade. E tão bem
guardada ficou que alterações do percurso do narrador e várias mudanças, quer de
instituições, quer de instalações, a tornaram temporariamente encoberta. Reapareceu
agora, oportunamente a tempo de, mercê de técnicas informáticas mais avançadas,
permitir editá-la de forma mais fiel aos originais que, passados quase 10 anos, se
remeterão finalmente para tratamento, preservação e descanso no “Arquivo CUF
Quimigal”, entretanto instalado no Barreiro. Fica porém a notícia, para os vindouros.
Entendendo-se ter já decorrido tempo demasiado, em pleno eclipse, mais uma vez se
preferiu elaborá-la com o que se verificou existir, acompanhado duma sucinta análise
e dando a oportunidade de completação e melhoria por quem um dia reabra o
processo. E, por isso, a informação aí vai, saindo da puridade mas com pressa, tal
como poderia ter saído há cerca de 10 anos e contendo em si, como se tem agora
defendido para diversas actuações similares, um arrepio actualista ao perfeccionismo
que o signatário defendia anos atrás.

2. O porquê das coisas
Ora sucede que, a 19 de Julho de 1956, a Ordem dos Engenheiros
(seguidamente a designar como “Ordem” ou O.E.) pretendeu conhecer o elenco de
engenheiros ao serviço da CUF e dirigiu “ao Administrador” [sic] daquela empresa,
então ainda com sede na Rua do Comércio 49, em Lisboa, o ofício nº 2837, processo
B-5, que se reproduz como primeira peça do “Anexo Documental”.

Pedido interessante este e feito “A bem da Nação”, como então se encerrava a
correspondência oficial, em que se solicitava uma relação de engenheiros,
portugueses e estrangeiros, que estivessem ao serviço da empresa destinatária e de
suas associadas, donde constasse o nome, especialidade e residência.

A pedido do ora escrevente procurou-se já, nos arquivos da referida Ordem o
processo correspondente a esta diligência, o que permitiria esclarecer, entre outros
aspectos, se essa solicitação foi generalizada, podendo motivar um estudo mais
alargado, ou se foi iniciativa singular e, neste último caso, procurar averiguar o
“porquê” do seu surgimento e remessa à CUF. Encontrou-se cópia do ofício referido,
mas não houve novas do correspondente processo, pelo que o citado intuito,
incluindo — como se verá — um aprofundamento da resposta então dada pela CUF,
fica adiado para nova e melhor oportunidade.

Recebida a citada solicitação e dirigida logo a 21 de Julho ao “Pessoal” [i.e.
“Serviços de Pessoal”, de acordo com a estrutura funcional do momento], iria esta ter
um tratamento relativamente rápido. Mas não tão rápido que não tivesse motivado,
uma mensagem anónima e atímica (quer em remetente, quer em destinatário, quer
em data), em que se faz a transmissão da tarefa por impossibilidade de a ter realizado
(antes de férias?). Curiosas são, nesta mensagem (também patente no ANEXO
DOCUMENTAL), a recomendação quanto ao Barreiro, referida ao “Barroso”, bem
como a menção ao “Parreira Alves” e a dúvida existente quanto aos “agrónomos”.

É assim que, já em pleno período de férias, saem do Escritório Central / Serviços
de Pessoal da CUF sete mensagens para os diferentes serviços, reproduzindo o
pedido. Todas iguais, todas com a referência 56/051 e as iniciais JCO/MI e todas a 22
de Agosto de 1956. São estas:

• Nº 5771 a A Tabaqueira / Fábrica
• Nº 5772 à Sociedade Geral / Secção Técnica
• Nº 5773 à CUF. / Fábrica União
• Nº 5774 à CUF / Agência do Porto
• Nº 5775 à CUF / Serviços de Pessoal / Barreiro
• nº 5776 à CUF / Estaleiro Naval
• nº 5777 à Secção Técnica
lista esta que permite compreender o seguimento, ao tempo, de um pedido genérico
deste tipo, em termos de destinatários e de ordenação. Dada a similitude das
comunicações, reproduz-se no Anexo Documental apenas a primeira, de acordo com
a cópia-carbono (aliás de deficiente legibilidade) que está no arquivo.

As respostas não tardariam a chegar (todas presentes no já referido Anexo).

A 23 de Agosto a Secção Técnica / Serviços Administrativos remete a sua resposta,
com listagem anexa.

A 24 de Agosto é a vez tanto da Sociedade Geral / Secção Técnica / Serviços
Administrativos como dos Serviços Administrativos / C. U. F. – Fábrica União:

A 27 de Agosto é “A Tabaqueira” que, no desconhecimento da exacta situação do Sr.
René Vermeulen solicita esperar pelo regresso desse senhor de licença, “na próxima
2ª feira” (aliás 27 de Agosto de 1956 é uma 2ªfeira) para que possa responder com
segurança. De facto, a 4 de Setembro, um novo ofício de A Tabaqueira identificava as
licenciaturas estrangeiras do Dr. René Vermeulen (licenciado em Ciências Químicas
do Institut Superieur de Chimie Albert Meurice, agregado ao Institut Solvay) e do Eng.
Sebastião Martins Mourão (signatário do ofício, titular do “curso de Engenheiro
mecânico pelo Institut Industriel du Nord de la France, que trabalha em ligação com a
Faculdade de Ciências da Universidade de Lille”, mais assinalando que “a Ordem dos
Engenheiros Portugueses não reconhece os diplomas desse instituto”). Como se
verá, o assunto fica implicitamente resolvido pela não inclusão da informação de “A
Tabaqueira”, tal como da produzida pela “Sociedade Geral”, na listagem global
fornecida pela CUF à Ordem — o que se pode entender pela relativa autonomia
estrututal, ao tempo, daquelas duas sociedades.

Também nesta data (27 de Agosto) respondem os Serviços de Pessoal / CUF –
Delegação do Barreiro, em ofício assinado pelo Dr. Raul Caldeira, que anuncia “junto
enviar uma relação dos engenheiros que prestam serviço efectivo nesta Dependência”
e acrescenta “nesta relação não vão incluídos os engenheiros do Serviço de
Organização que, prestando por vezes serviço nesta Dependência, não são todavia
abonados pela mesma”. Sucede porém que nenhuma lista está anexa ao ofício, pelo
que temos de averiguar o conteúdo da resposta do Barreiro pela listagem final que foi
elaborada e por um outro elemento assaz interessante, exclusivamente referente ao
Barreiro e que será referido a devido tempo.

A 28 de Agosto é produzida a resposta da Agência do Porto da CUF, que inclui dois
engenheiros colocados em participadas locais e que, dada a presumível inexistência
duma relação directa de trabalho com a CUF, não serão incluídos na listagem global.

A 29 de Agosto é, finalmente, remetida a resposta da CUF / Estaleiro Naval / Serviço
de Pessoal, com listagem anexa.

Contém ainda o dossier três documentos desirmanados, sem data nem autoria, e de
desigual interesse:

O primeiro documento ocupa apenas a parte superior duma folha A4, limita-se a
repetir os nomes dos engenheiros indicados pela Sociedade Geral, acrescentando a
lápis a especialidade e a morada, também de acordo com essa comunicação. No
mesmo documento, mais abaixo, sob o título A Tabaqueira figura o nome do Eng.
Sebastião Martins Mourão, aliás riscado, que já se referiu como signatário dos ofícios
emitidos por aquela sociedade. Como já referido, estes nomes não irão constar da
listagem final, pelo que se admite ser esta relação provisória um elemento de trabalho
para apreciação da exclusão desses casos particulares.

O segundo documento, também discreto, é um apontamento a lápis de engenheiros
agrónomos, sem menção de autor ou proveniência. Também aqui se admite constituir
um elemento de trabalho em sentido contrário do anterior, ou seja para a inclusão na
lista final desses engenheiros, relativamente aos quais teria havido dúvidas.

O terceiro documento, de mais relevante interesse, contém, em duas folhas de formato
próximo de A4 e sob a epígrafe “Fábricas do Barreiro”, uma relação de quadros
superiores do Barreiro, repartidos por Zonas, Departamentos e Serviços, engenheiros,
licenciados não-engenheiros e não licenciados, mas não apresentando as
qualificações curriculares de cada um, nem o emissor, nem a data de emissão. Tal
geral abrangência curricular, não limitada a engenheiros,. bem como a indicação dos
nomes da “Organização Administrativa” que o ofício da Delegação do Barreiro dizia
excluir, leva a inferir que não seria esta a listagem omissa do processo, que se dizia
acompanhar o ofício subscrito pelo Dr. Raul Caldeira. E, com isto, surge uma dúvida:
qual a data deste documento? Será ou não compatível com a data da inquirição da
O.E.? Só o confronto desta lista com a lista final de engenheiros, presumivelmente
remetida à O.E., permite admitir tal posicionamento relativo. Pode aliás dizer-se ser
esta “lista Barreiro” posterior a Maio de 1956, mês da designação como director das
Fábricas do Barreiro do Eng. Rui Motta Guedes, facto que reforça a hipótese duma tal
coerência. Pelo seu interesse e significado, esta “lista Barreiro” será revisitada mais
adiante.


3. O “produto final”
A pasta de arquivo não tem qualquer cópia da carta finalmente remetida pela CUF à
O. E. com a informação global solicitada. Também, como já referido, não se conseguiu
essa carta daquela Ordem. Contém, porém, uma relação em seis folhas A4 (ou
formato próximo, dactilografadas de um só lado) que começa pela indicação “Relação
a que se refere a n/ carta nº … [?]” (o que não nos adianta muito quanto à carta,
começando pelo seu número e data) e que indica e reparte, por especialidades da
licenciatura em Engenharia (mas sem indicação de Escola), os 85 engenheiros
referidos pela CUF.

Merece essa relação, necessariamente incluída no Anexo Documental, alguns
comentários:


O primeiro ponto a notar é o elevado número de engenheiros ao serviço da CUF (85),
traduzindo uma efectiva preocupação de criação de capacidade técnica. Considerando
a repartição destes 85 engenheiros por local de residência e por local de trabalho ter-se-á o seguinte quadro:
Ou seja: com excepção dos 3 engenheiros que residiam e exerciam a sua actividade
no Porto e arredores, em ligação com a Agência do Porto (Engs. Manuel D. dos
Santos, civil, e João B. e Cunha, civil) e actividades industriais locais da CUF (Eng.
Carlos M. Caldeira, químico), os restantes 82 engenheiros da CUF repartiam-se
igualmente por locais de residência por Lisboa e arredores (a Norte do Tejo) e Barreiro
e Lavradio (a Sul do Tejo). Porém, quanto a locais de trabalho, Lisboa e arredores,
com 43 engenheiros, superava em 4 unidades o Barreiro e Lavradio, com 39 — e isto
porque 2 engenheiros eram dados como residentes em Lisboa mas trabalhando no
Barreiro (Engs. Mário S. Pimenta, electrotécnico, e Emanuel Q. e Lopes, mecânico)
e 4 eram dados como residentes a Sul do Tejo (3 no Barreiro e 1 no Lavradio) mas
sem constarem da relação de engenheiros que trabalhavam no Barreiro / Lavradio, i.e.
a já referida “lista do Barreiro”, pelo que se presumiu trabalharem em Lisboa
(respectivamente Engs. Manuel A. Lopes, civil, Manuel P. Serra, Manuel G. Ribeiro e
Armando V. Guimarães, todos os três mecânicos). Considerando a orientação
rigorosa vigente na altura quanto à residência no Barreiro ou Lavradio dos que nas
Fábricas do Barreiro trabalhavam, os dois casos referidos devem considerar-se
excepcionais, admitindo-se que pelo menos um deles correspondesse a uma situação
de mudança (Eng. Mário S. Pimenta); igualmente deveriam traduzir situações
transitórias os casos de residência no Barreiro sem aí trabalhar, sobretudo quando a
residência tinha lugar em instalações ligadas à empresa (Engs. Armando V.
Guimarães, no “Bairro Novo”, e Manuel A. Lopes e Manuel P. Serra, em “Hotéis”).

Outras quatro características a reter são as seguintes:

• Predominância, quase exclusiva, de uma população masculina. Em 1956, com
excepção da engenharia químico-industrial, era rara a frequência feminina dos
cursos de engenharia. Assinala-se que as duas únicas mulheres nesta
população (Engª Maria de Lurdes R. Pintasilgo e Engª Maria Odete S. de
Oliveira) estavam no Barreiro, eram ambas engenheiras químicas e ligadas à
área da documentação dos “Estudos e Projectos”.

• Ausência de engenheiros estrangeiros. Não se conhece bem a motivação do
inquérito da Ordem dos Engenheiros, mas facto é que destacava a referência a
engenheiros estrangeiros na informação a produzir. Ora, do inquérito realizado,
só surgiu um estrangeiro, aliás licenciado em ciências químicas (e não
engenheiro), que inclusive não constou de qualquer informação a produzir,
como seria de esperar (Dr. René Vermeulen, em “A Tabaqueira”).

• Valorização técnica produzida pela dotação qualificada de órgãos “staff” como,
no Barreiro, com os “Estudos e Projectos” e as próprias Zonas, facultando
perspectivas e actividades de desenvolvimento dentro de uma estrutura até
recentemente dedicada ao “business as usual”12.

• Omissão, porque aliás não solicitado pela OE, de indicações quanto à idade,
antiguidade de casa, escola e outros elementos curriculares.


É também interessante apreciar a distribuição geográfica do exercício profissional por
especialidades de Engenharia, como mostra o quadro seguinte:

[a] O Eng. João Farrajota Rocheta, licenciado em Engenharia da Construção Naval e Engenharia
Mecânica foi apenas contado em Engenharia da Construção Naval..

[b] O Eng. Fernando Máximo Pinto, licenciado em Engenharia Química e Engenharia de Minas,
foi apenas contado em Engenharia Química.

Como seria de esperar, o quadro acima traduz o predomínio dos Engenheiros
Químicos na zona do Barreiro / Lavradio, mas com Agronomia, Construção Naval,
Civil, Electrotecnia e inclusive Mecânica predominantes em Lisboa e arredores
[influência clara do Estaleiro Naval e dos órgãos centrais].


Tal situação ressalta igualmente dum quadro de confronto das informações parcelares
recebidas das consultas realizadas e que clarifica alguns critérios usados na
construção da informação final:
(a) os números entre parêntesis rectos correspondem aqui (como no quadro seguinte) aos casos
de dupla licenciatura já referidos, mas só considerados uma vez – como então também indicado
(b) Ver texto subsequente sobre a “desmantagem da lista do Barreiro”


No desconhecimento da informação proveniente da Delegação do Barreiro dos
Serviços de Pessoal, por não vir apensa ao correspondente memorando, efectuou-se
uma decomposição da “lista do Barreiro” por especialidades, como segue:

Ou seja: por acumulação das informações recebidas dos Serviços ter-se-iam apenas
73 (e não 85) engenheiros, sendo útil esclarecer por que razões há uma divergência
de 12 entre ambos os cômputos.


Construiu-se, para isso, o seguinte quadro:

Apreciando agora, especialidade a especialidade, este quadro, temos:

Engenheiros Agrónomos (-1) : Relativamente às informações dos Serviços, não foi tida
em consideração, na informação dada á O.E., a referência pela Agência do Porto do
Eng. Artur S. Castilho. Os restantes nomes coincidem em ambas as informações.
Engenheiros Civis (+2) : Relativamente às informações dos Serviços, a informação
final à OE acrescenta os Engs. Daniel M. Barbosa e Manuel A. Lopes, este último
residente no Barreiro mas com exercício profissional atribuído a Lisboa, ligados a
órgãos centrais da Empresa. Os restantes nomes coincidem em ambas as
informações.

Engenheiros Construtores Navais (0) : Os nomes coincidem em ambas as
informações.

Engenheiros Electrotécnicos (+4) : A informação à O.E. acrescenta às informações
dos Serviços os Engs. Duarte L. Pimentel, José M. Arez, Raul S. Fontoura, Manuel M.
e Sousa e Carlos A. Azevedo, todos residentes em Lisboa e ligados a órgãos centrais,
mas exclui, no Porto, o Eng. Almir Martins, essencialmente ligado a outras empresas
industriais da área, em que o Grupo tinha uma participação minoritária (vg. CPC). Os
restantes nomes coincidem em ambas as informações.

Engenheiros Mecânicos (+2) : A informação à O.E. acrescenta às informações dos
Serviços, em Lisboa, os Engs. António G. Portela, Fernando J. Nogueira, Manuel P.
Serra, José N. Branco e Armando V.Guimarães (este residente no Lavradio), inseridos
em órgãos centrais, mas não inclui, porque não abrangidos no elenco CUF, as
informações provenientes de A Tabaqueira (Eng. Sebastião M. Mourão) e Sociedade
Geral (Engs. Artur J. Lobo e Jorge M. Monteiro) Os restantes nomes coincidem em
ambas as informações.

Engenheiro de Minas (0) : O único caso, aliás de dupla licenciatura (mas só contado
uma vez no cômputo global), coincide em ambas as informações.

Engenheiros Químico Industriais (+5) : A informação à O.E. acrescenta às informações
dos Serviços, em Lisboa, os Engs. Eduardo C. Madaíl, João O. e Melo, Luís A. Alves,
Faustino A. de Sousa e António A. Monteiro, inseridos em órgãos centrais. Os
restantes nomes coincidem em ambas as informações.

Engenheiro Têxtil (0) : O único caso coincide em ambas as informações.

Fica assim devidamente esclarecida, essencialmente por consideração adicional de
engenheiros participando em órgãos centrais e cargos de alta direcção, em Lisboa, a
divergência verificada entre a acumulação de valores das informações provenientes
dos Serviços e a lista global produzida pela CUF.

4. Um comentário relativo ao Barreiro

A já referida imposição de domicílio no Barreiro aos chefes de serviço e secção que aí
prestavam serviço (que constituiriam os designados “chapas brancas” — “com ou
sem o diálogo dos dois leões no Largo das Obras” — e que, como chefes de serviço,
abrangia necessariamente os engenheiros) está na origem da criação no Barreiro
duma verdadeira “comunidade do saber” que tinha características bem próprias. Esta
situação só viria a atenuar-se no tempo com a abertura de algumas excepções aceites
para transporte diário no “ferry” da CP, neste caso com “carrinha” Hanomag à porta da
estação, ou nas lanchas que partiam do Cais das Colunas, as famosas “Oleiros” e
“Valha-nos Deus” dos anos 60 ou suas antecessoras, e, mais amplamente, com a
inauguração da então designada “Ponte Salazar”, em 1966. Mas em 1956,
aproximando-se o cinquentenário da operação fabril da CUF no Barreiro (1908/1958),
a situação era ainda caracterizadamente rígida e as excepções contadas. E como já
se referiu, ao nível dos engenheiros eram mesmo evidente raridade.

Mencionou-se já que, para além dos 39 licenciados em engenharia, a “lista do
Barreiro” contém, nos seus 48 nomes, outros 9 chefes de serviço, licenciados e não
licenciados. Eram estes, na altura, de acordo com os nomes patentes na referida
“lista”:

António José Rebelo Bustorff (Dr.) – Estudos e Projectos / Laboratório de
Ensaios
Ernesto Correia (Eng. Tecn.?) – Zona Metalomecânica
Luís de Almeida Guerreiro – Zona Conservação
• Carlos Maria Félix da Costa (Eng. Tecn.?)– Zona Conservação
• António Manuel Rodrigues Celeste (Dr.) – Organização Administrativa
• Vasco Manuel Soares Vieira (Dr.) – Organização Administrativa, mas já
transferido para Lisboa
• Artur Gomes Freire Quinta (Dr.) – Serviços de Contabilidade
• Francisco de Paula Sant’Anna Júnior (Dr.) – Serviços de Pessoal
• Raul Júlio de Almeida Pimenta Marques Caldeira (Dr.) – Serviços de Pessoal

Numa outra perspectiva dedutível dos elementos em análise, é interessante verificar
como a listagem transmitida à O. E., por indicar residências, permite identificar a
situação de alojamento relativa aos engenheiros residentes no Barreiro. Estes, como
os outros chefes de serviço e os chefes de secção, tinham três alternativas:

Sendo casados, alojamento propiciado pela empresa em condições de
arrendamento simbólico muito favoráveis no Bairro Velho da CUF (Bairro de
Santa Bárbara) ou nas 10 “moradias para pessoal superior” do então recém
inaugurado (1955) Bairro Novo (Bairro da Quinta da Fonte), no Lavradio, a
norte da via férrea, localizações geralmente preenchidas por opção hierárquica
ou dimensão familiar, ou ainda recurso ao mercado de arrendamento que
começava a desenvolver-se na “Vila”, ainda que incipiente, com um apoio para
as respectivas rendas;

Sendo solteiros, alojamento num dos diversos “hotéis” mantidos pela empresa
ou, em certos casos, recurso - mas raro - ao mercado local de arrendamento
(situação que se viria a deslocar nos anos 60, com o aumento da oferta,
levando à extinção gradual dos “hotéis”);

Assim, com base na “lista global”, é possível construir o quadro constante da página
seguinte:

Conclui-se desse quadro o predomínio, nesta data, do “domicílio CUF”, quer em
instalações propriedade CUF, quer ainda nos designados “hotéis”, que vêm
demonstrar um certo rejuvenescimento de estruturas, pois albergam 12 engenheiros
previsivelmente correspondentes a recrutamentos recentes.


Locais de residência de engenheiros da CUF no Barreiro /Lavradio:

(a) Residindo no Barreiro / Lavradio, mas não trabalhando no Barreiro
(b) A indicação do nº 11 (e a omissão do nº 2) quando de facto só foram construídas e inauguradas 10 moradias em 1955 leva
a pensar ou em lapso, ou numa admitida ampliação do número de vivendas construídas pela CUF no referido bairro
(ampliação que, a realizar-se, só viria a ter lugar por iniciativa dos interessados, em terrenos aí cedidos pela CUF em
condições favoráveis).
(c) Arruamento mais rigorosamente designado como “Rua do Industrial Alfredo da Silva”, que partia do Largo das Obras (Largo
Alexandre Herculano) e que seguia para o Lavradio, correspondendo à então EN 13. Com o fecho desta, após a remoção do
cemitério municipal, confunde-se geralmente com a Rua da CUF. Agradece-se à Dra. Vanessa de Almeida, da CMB, o apoio
na localização deste arruamento.
(d) Actual Av. Alfredo da Silva.
(e) Actual Av. Henrique Galvão

Quanto à alternativa “arrendamento” é de atender a que todos os referidos casos
(menos um, situado na Av. Afonso Henriques, ou seja a sul, “para lá das
cancelas”) correspondem a localizações centrais, em arruamentos próximos do
Parque e onde se desenvolvia, aliás com bom ritmo de construção, a “urbanização
moderna” do centro da então Vila.

5. O “Anexo Madaíl”
Pelo seu interesse e, acessoriamente, pelo papel que assumiu na (originalmente
imprevista) génese deste trabalho, reproduz-se, no referido anexo, a
documentação referente ao Eng. Eduardo Madail contida na referida pasta –
incluindo a súmula preparada em Fevereiro de 1996 para investigadores externos
à então Quimigal. O relevante papel do Eng. Eduardo Madaí na história da CUF é
já tido em conta em diversos textos16. Para além de render A. L. Stinville na
Direcção das Fábricas do Barreiro, em 1927 e de outras intervenções essenciais
na vida da Empresa, que constam da informação de 1996, é ainda de referir a sua
possível intervenção, no após-guerra, na breve, mas marcante, consultadoria
Percy Parrish (oportunamente a desenvolver, em notícia própria) e no
estabelecimento de uma potente tecno-estrutura na CUF, pelo recrutamento
maciço de licenciados nacionais.


6. Diversos
Como documento também presente no referido “dossier”, mas aparentemente
“órfão” de toda a lógica anterior, digitaliza-se como “Um Fundo de Pasta” um
“apelo” da direcção da Associação Industrial Portuense, dirigido por carta-circular
aos consócios da mesma aos 4 de Dezembro de 1961 para que, facilitando aos
engenheiros ao seu serviço o exercício de funções docentes, possam ser supridas
as necessidades de assistentes da Faculdade de Engenharia do Porto.

7. A fechar
Contem esta informação três anexos:

• O “ANEXO DOCUMENTAL”, contando de 20 folhas, impressas de um só
lado, sendo a primeira de rosto. Dele constam, na íntegra, a “lista Barreiro”
e a “lista global” de engenheiros CUF, em 1956, para remessa à O.E.;

• O “ANEXO MADAÍL”, constando de 19 folhas; e

• UM “FUNDO DE PASTA”, em 2 folhas.




Lisboa / Barreiro, 21 de Março de 2005
José Miguel Leal da Silva
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