maio 25, 2006

1. A abrir

Se é discutível a diferença entre “descoberta” e “achamento” há que concordar
que, pelo menos quanto ao Brasil, já fez gastar muita tinta. Num dos dicionários mais
correntemente usados, o primeiro vocábulo está definido como “acto ou efeito de
descobrir o que já existia, mas não era conhecido”, mas já para o segundo, o mesmo
léxico acrescenta, como acepção técnico-jurídica, a “forma de constituição de
propriedade de coisas móveis perdidas por parte de quem as encontrou.” Em qualquer
dos casos, subjaz ao facto a surpresa do encontro. E a apropriação pode justificar-se
quando houver qualquer coisa de útil a retirar da coisa achada, nem que seja num
entreabrir de portas para desenvolvimentos futuros.

É um pouco o que sucede agora, ao editar esta notícia. Em 1996 procurava-se
obter informações sobre o Eng. Eduardo Cândido Bravo Madaíl, com destino a uma
pequena nota biográfica solicitada sobre o mesmo por investigadores externos à
Quimigal (Drs. Elsa Sertório e António Louçã). O que se obteve sobre o Eng. Eduardo
Madaíl, figura a todos os títulos importante na hierarquia da Companhia União Fabril,
S.A.R.L. [que seguidamente se designará pelo consabida sigla CUF] nos períodos de
Alfredo da Silva e de D.Manuel de Mello, foi recolhido numa pasta facultada pelo Dr.
Ernesto Papa, então director da DCRH – Direcção Central de Recursos Humanos da
Quimigal S.A. e hoje infelizmente já falecido, dando lugar à notícia que se junta como
“Anexo Madaíl”.

Mas, surpreendente acaso, nesse mesmo dossier estava inserida — e
manifestamente fora da sistemática que seria de esperar — muita informação que se
não referia exclusivamente ao Eng. Eduardo Madaíl. Com conhecimento do Dr.
Ernesto Papa, a pasta foi cuidadosamente guardada para que tão interessante
material pudesse ser devidamente tratado numa primeira oportunidade. E tão bem
guardada ficou que alterações do percurso do narrador e várias mudanças, quer de
instituições, quer de instalações, a tornaram temporariamente encoberta. Reapareceu
agora, oportunamente a tempo de, mercê de técnicas informáticas mais avançadas,
permitir editá-la de forma mais fiel aos originais que, passados quase 10 anos, se
remeterão finalmente para tratamento, preservação e descanso no “Arquivo CUF
Quimigal”, entretanto instalado no Barreiro. Fica porém a notícia, para os vindouros.
Entendendo-se ter já decorrido tempo demasiado, em pleno eclipse, mais uma vez se
preferiu elaborá-la com o que se verificou existir, acompanhado duma sucinta análise
e dando a oportunidade de completação e melhoria por quem um dia reabra o
processo. E, por isso, a informação aí vai, saindo da puridade mas com pressa, tal
como poderia ter saído há cerca de 10 anos e contendo em si, como se tem agora
defendido para diversas actuações similares, um arrepio actualista ao perfeccionismo
que o signatário defendia anos atrás.

2. O porquê das coisas
Ora sucede que, a 19 de Julho de 1956, a Ordem dos Engenheiros
(seguidamente a designar como “Ordem” ou O.E.) pretendeu conhecer o elenco de
engenheiros ao serviço da CUF e dirigiu “ao Administrador” [sic] daquela empresa,
então ainda com sede na Rua do Comércio 49, em Lisboa, o ofício nº 2837, processo
B-5, que se reproduz como primeira peça do “Anexo Documental”.

Pedido interessante este e feito “A bem da Nação”, como então se encerrava a
correspondência oficial, em que se solicitava uma relação de engenheiros,
portugueses e estrangeiros, que estivessem ao serviço da empresa destinatária e de
suas associadas, donde constasse o nome, especialidade e residência.

A pedido do ora escrevente procurou-se já, nos arquivos da referida Ordem o
processo correspondente a esta diligência, o que permitiria esclarecer, entre outros
aspectos, se essa solicitação foi generalizada, podendo motivar um estudo mais
alargado, ou se foi iniciativa singular e, neste último caso, procurar averiguar o
“porquê” do seu surgimento e remessa à CUF. Encontrou-se cópia do ofício referido,
mas não houve novas do correspondente processo, pelo que o citado intuito,
incluindo — como se verá — um aprofundamento da resposta então dada pela CUF,
fica adiado para nova e melhor oportunidade.

Recebida a citada solicitação e dirigida logo a 21 de Julho ao “Pessoal” [i.e.
“Serviços de Pessoal”, de acordo com a estrutura funcional do momento], iria esta ter
um tratamento relativamente rápido. Mas não tão rápido que não tivesse motivado,
uma mensagem anónima e atímica (quer em remetente, quer em destinatário, quer
em data), em que se faz a transmissão da tarefa por impossibilidade de a ter realizado
(antes de férias?). Curiosas são, nesta mensagem (também patente no ANEXO
DOCUMENTAL), a recomendação quanto ao Barreiro, referida ao “Barroso”, bem
como a menção ao “Parreira Alves” e a dúvida existente quanto aos “agrónomos”.

É assim que, já em pleno período de férias, saem do Escritório Central / Serviços
de Pessoal da CUF sete mensagens para os diferentes serviços, reproduzindo o
pedido. Todas iguais, todas com a referência 56/051 e as iniciais JCO/MI e todas a 22
de Agosto de 1956. São estas:

• Nº 5771 a A Tabaqueira / Fábrica
• Nº 5772 à Sociedade Geral / Secção Técnica
• Nº 5773 à CUF. / Fábrica União
• Nº 5774 à CUF / Agência do Porto
• Nº 5775 à CUF / Serviços de Pessoal / Barreiro
• nº 5776 à CUF / Estaleiro Naval
• nº 5777 à Secção Técnica
lista esta que permite compreender o seguimento, ao tempo, de um pedido genérico
deste tipo, em termos de destinatários e de ordenação. Dada a similitude das
comunicações, reproduz-se no Anexo Documental apenas a primeira, de acordo com
a cópia-carbono (aliás de deficiente legibilidade) que está no arquivo.

As respostas não tardariam a chegar (todas presentes no já referido Anexo).

A 23 de Agosto a Secção Técnica / Serviços Administrativos remete a sua resposta,
com listagem anexa.

A 24 de Agosto é a vez tanto da Sociedade Geral / Secção Técnica / Serviços
Administrativos como dos Serviços Administrativos / C. U. F. – Fábrica União:

A 27 de Agosto é “A Tabaqueira” que, no desconhecimento da exacta situação do Sr.
René Vermeulen solicita esperar pelo regresso desse senhor de licença, “na próxima
2ª feira” (aliás 27 de Agosto de 1956 é uma 2ªfeira) para que possa responder com
segurança. De facto, a 4 de Setembro, um novo ofício de A Tabaqueira identificava as
licenciaturas estrangeiras do Dr. René Vermeulen (licenciado em Ciências Químicas
do Institut Superieur de Chimie Albert Meurice, agregado ao Institut Solvay) e do Eng.
Sebastião Martins Mourão (signatário do ofício, titular do “curso de Engenheiro
mecânico pelo Institut Industriel du Nord de la France, que trabalha em ligação com a
Faculdade de Ciências da Universidade de Lille”, mais assinalando que “a Ordem dos
Engenheiros Portugueses não reconhece os diplomas desse instituto”). Como se
verá, o assunto fica implicitamente resolvido pela não inclusão da informação de “A
Tabaqueira”, tal como da produzida pela “Sociedade Geral”, na listagem global
fornecida pela CUF à Ordem — o que se pode entender pela relativa autonomia
estrututal, ao tempo, daquelas duas sociedades.

Também nesta data (27 de Agosto) respondem os Serviços de Pessoal / CUF –
Delegação do Barreiro, em ofício assinado pelo Dr. Raul Caldeira, que anuncia “junto
enviar uma relação dos engenheiros que prestam serviço efectivo nesta Dependência”
e acrescenta “nesta relação não vão incluídos os engenheiros do Serviço de
Organização que, prestando por vezes serviço nesta Dependência, não são todavia
abonados pela mesma”. Sucede porém que nenhuma lista está anexa ao ofício, pelo
que temos de averiguar o conteúdo da resposta do Barreiro pela listagem final que foi
elaborada e por um outro elemento assaz interessante, exclusivamente referente ao
Barreiro e que será referido a devido tempo.

A 28 de Agosto é produzida a resposta da Agência do Porto da CUF, que inclui dois
engenheiros colocados em participadas locais e que, dada a presumível inexistência
duma relação directa de trabalho com a CUF, não serão incluídos na listagem global.

A 29 de Agosto é, finalmente, remetida a resposta da CUF / Estaleiro Naval / Serviço
de Pessoal, com listagem anexa.

Contém ainda o dossier três documentos desirmanados, sem data nem autoria, e de
desigual interesse:

O primeiro documento ocupa apenas a parte superior duma folha A4, limita-se a
repetir os nomes dos engenheiros indicados pela Sociedade Geral, acrescentando a
lápis a especialidade e a morada, também de acordo com essa comunicação. No
mesmo documento, mais abaixo, sob o título A Tabaqueira figura o nome do Eng.
Sebastião Martins Mourão, aliás riscado, que já se referiu como signatário dos ofícios
emitidos por aquela sociedade. Como já referido, estes nomes não irão constar da
listagem final, pelo que se admite ser esta relação provisória um elemento de trabalho
para apreciação da exclusão desses casos particulares.

O segundo documento, também discreto, é um apontamento a lápis de engenheiros
agrónomos, sem menção de autor ou proveniência. Também aqui se admite constituir
um elemento de trabalho em sentido contrário do anterior, ou seja para a inclusão na
lista final desses engenheiros, relativamente aos quais teria havido dúvidas.

O terceiro documento, de mais relevante interesse, contém, em duas folhas de formato
próximo de A4 e sob a epígrafe “Fábricas do Barreiro”, uma relação de quadros
superiores do Barreiro, repartidos por Zonas, Departamentos e Serviços, engenheiros,
licenciados não-engenheiros e não licenciados, mas não apresentando as
qualificações curriculares de cada um, nem o emissor, nem a data de emissão. Tal
geral abrangência curricular, não limitada a engenheiros,. bem como a indicação dos
nomes da “Organização Administrativa” que o ofício da Delegação do Barreiro dizia
excluir, leva a inferir que não seria esta a listagem omissa do processo, que se dizia
acompanhar o ofício subscrito pelo Dr. Raul Caldeira. E, com isto, surge uma dúvida:
qual a data deste documento? Será ou não compatível com a data da inquirição da
O.E.? Só o confronto desta lista com a lista final de engenheiros, presumivelmente
remetida à O.E., permite admitir tal posicionamento relativo. Pode aliás dizer-se ser
esta “lista Barreiro” posterior a Maio de 1956, mês da designação como director das
Fábricas do Barreiro do Eng. Rui Motta Guedes, facto que reforça a hipótese duma tal
coerência. Pelo seu interesse e significado, esta “lista Barreiro” será revisitada mais
adiante.


3. O “produto final”
A pasta de arquivo não tem qualquer cópia da carta finalmente remetida pela CUF à
O. E. com a informação global solicitada. Também, como já referido, não se conseguiu
essa carta daquela Ordem. Contém, porém, uma relação em seis folhas A4 (ou
formato próximo, dactilografadas de um só lado) que começa pela indicação “Relação
a que se refere a n/ carta nº … [?]” (o que não nos adianta muito quanto à carta,
começando pelo seu número e data) e que indica e reparte, por especialidades da
licenciatura em Engenharia (mas sem indicação de Escola), os 85 engenheiros
referidos pela CUF.

Merece essa relação, necessariamente incluída no Anexo Documental, alguns
comentários: