abril 27, 2006

Metamorfoses dos Homens

Um texto inédito da Dra. Isabel Cruz,
membro do Grupo de Trabalho


«A última e mais importante expansão
que a planta efectua no seu crescimento dá-se no fruto.
Ela é muitas vezes, tanto na sua força interior como na sua forma exterior,
muito grande, mesmo imensa.
Dado que habitualmente ela se processa após a fecundação,
a semente aparece daqui para diante melhor determinada,
indo buscar as seivas necessárias para o seu crescimento a toda a planta,
fazendo-as dirigir-se para o fruto,
pelo que os seus vasos se alimentam,
aumentam de volume e, muitas vezes,
se enchem e expandem ao mais alto grau»

Goethe, A Metamorfose das Plantas

Preâmbulo

Ligar-se o nome de Alfredo da Silva à grande indústria química não será mais do que insistir num dado aceite e por demais conhecido. Não obstante, entende-se que a adopção deste facto tem deixado para trás aspectos importantes da relação de Alfredo da Silva com a Química, que existiu, até foi intensa e, além do mais, projectada muito para lá do interesse puramente negocial do patrão da CUF.
E, pensa-se que a prevalência de uma concepção de “self-made-man” associada a Alfredo da Silva, poderá ter contribuído para arredar a possibilidade de outros questionamentos
[1] e inibido uma indagação metódica sobre a qualidade desta relação. Mesmo um rápido visionamento ao currículo de Alfredo da Silva nos anos do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, permite verificar um extenso e variado manancial de conhecimentos adquiridos, que tem necessariamente de ser considerado na génese do “know-how” do industrial.
Em primeiro lugar, os estreitamente relacionados com a actividade comercial como a contabilidade e as operações comerciais e financeiras, mercadorias (classificação geral), os vários “direitos” – comercial, marítimo, internacional, administrativo - a legislação, consular, aduaneira, industrial, e a economia política. Depois, as disciplinas gerais de enquadramento, como a História e a Geografia, e as línguas estrangeiras (Francês, Inglês e Alemão). E, por último, as matérias de formação científico-técnica, Botânica, Zoologia, Mineralogia, Docimásia e Geologia, a Física (e suas aplicações à indústria), a Higiene das indústrias e construções, a Merceologia (incluindo o estudo das matérias primas, e meios práticos de reconhecer formas adulteradas no comércio), a Tecnologia Química e a Química.
Um estudo anterior, apresentado na “4th International Conference on History of Chemistry”, Budapeste, em Setembro de 2003, discute o lugar e a pertinência deste projecto de formação (fundamentalmente o Curso Superior de Comércio da reforma de Emídio Navarro de 1886/1888 mas onde se deverá incluir ainda algumas disciplinas da reforma de João Franco, de 1891) no contexto particular das disciplinas científico-naturais, e tecnológicas, de um “comercialista” com capacidade para intervir na actividade industrial, e estabelece uma linha de continuidade entre as aprendizagens realizadas e o desenvolvimento das indústrias químicas que Alfredo da Silva dirigiu na CUF.
Sob pena de se repetir o que já foi apresentado, deixa-se para o leitor interessado a possibilidade de consulta do referido trabalho, em
http://www.triplov.com, que (julga-se) poderá ter a virtude de, pelo desenho conseguido da conjuntura nacional científica e do ensino correspondente, em torno dos anos de juventude de Alfredo da Silva, enquanto aluno do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, e em especial no respeitante à Química, revelar o primeiro elo de ligação de Alfredo da Silva a esta ciência em Portugal.


1. Novas relações de Alfredo da Silva com a Química

Indigo ou anil, a sua extracção em terrenos de África – António Augusto de Aguiar, Alexandre Bayer e Carlos von Bonhorst, no ensino da química prática.
O que tem este título, de um artigo publicado na “Revista de Química Pura e Aplicada”, em 1919, e escrito por um antigo preparador de Química da Escola Politécnica de Lisboa, Emílio Dias[2], a ver com o tema em epígrafe, é algo que efectivamente não se percepciona de imediato, ainda que se identifiquem desde já referências importantes, que se podem associar ao nome de Alfredo da Silva, como António Augusto de Aguiar, Carlos (Carl) von Bonhorst e química prática.
Nomes e termos que remetem para o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa e seu ensino da Química, ao tempo de Alfredo da Silva e do Curso Superior de Comércio, e que «vêm como um incidente, são um a propósito» como o próprio autor confessa, num artigo cujo objectivo principal é defender a ideia da implantação de uma indústria portuguesa de extracção do indigo em territórios de África (Angola, S. Tomé, Ilha do Príncipe), onde a planta se desenvolvia espontaneamente. Nomes «a propósito» da existência, em Portugal, no início do século XX, de uma “massa crítica” de «práticos com aptidões as mais variadas» (o autor refere em particular agrónomos e engenheiros químicos) que eram particularmente capazes de colocar em andamento projectos deste tipo.
Um evidente progresso em relação ao passado, indicado como directamente resultante da iniciativa de António Augusto de Aguiar de criação dos cursos de Química prática no Laboratório de Química do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa. Estes «práticos» eram assim, segundo Emílio Dias, os frequentadores destes cursos organizados por António Augusto de Aguiar no Laboratório de Química. Em rigor, sabe-se que a continuidade no tempo desde a década de setenta do século XIX até à altura em que o artigo foi publicado, não poderá ser tão linearmente descrita, até porque os cursos dirigidos superiormente por António Augusto de Aguiar deverão cobrir apenas a época de 1872/1873 a 1886/1887, pois este virá a falecer em Setembro de 1887.
Ainda assim admite-se, de momento, que os cursos possam ter funcionado também no ano lectivo de 1887/1888, e apesar da morte do seu primeiro responsável, e catedrático de Química no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, nos moldes que o terão caracterizado, devido à possível permanência
[3] do alemão Carl von Bonhorst, colaborador de Aguiar, no cargo de assistente de Química prática no referido laboratório.
Mas, no ano lectivo seguinte, 1888/1889, já sem von Bonhorst, deverá ter sido Virgílio Machado, o sucessor de António Augusto de Aguiar na responsabilidade da Química que, com o preparador do Laboratório, Miguel Ventura da Silva Pinto, assegurará o andamento de um curso prático da cadeira respectiva, a 9.ª: Química mineral e orgânica; Análise química.
Não se sabe até que ponto os cursos práticos de Aguiar se distinguiram do curso prático de Virgílio Machado, não obstante conhecerem-se alguns aspectos que poderão ser importantes para esse questionamento. Em primeiro lugar, os cursos práticos de Aguiar não eram de carácter obrigatório, ao contrário dos de Virgílio Machado. A relação com a cadeira de Química do Instituto seria pois, naturalmente distinta, num e no outro caso.

1.1. A Química prática segundo António Augusto de Aguiar

Os cursos práticos de Aguiar tinham surgido por uma conjuntura sensível à necessidade e importância do ensino prático da Química aplicada às artes e à indústria. Para tal, Aguiar (o responsável pela 4.ª cadeira: Química aplicada às artes e à indústria, e na altura o director do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa) organizara o Laboratório de Química da referida instituição de ensino «segundo o plano dos melhores laboratórios da Alemanha, e em circunstâncias de poder habilitar nas manipulações da química, não só a mocidade estudiosa de qualquer escola do reino, mas muito principalmente os industriais e artistas que, não carecendo de estudos tão desenvolvidos, quiserem alcançar conhecimentos práticos nas variadíssimas aplicações desta ciência»; sem que se exigisse qualquer tipo de habilitação aos frequentadores interessados, as portas do laboratório abriam-se assim para todos os que quisessem aproveitar deste tipo de ensino por mais humilde ou modesta que fosse a sua condição, conforme justamente se afirma no preâmbulo do documento que oficializa os cursos de Química prática no referido Laboratório: «As portas do laboratório do instituto ficam patentes a todas as classes da sociedade que quiserem frequentá-lo, e contribuir para o progresso da ciência e da indústria» (cf. AGUIAR, 1872, p.3).
Sem carácter obrigatório, o ensino prático no Laboratório de Química abrangia também alunos que frequentassem com aproveitamento a cadeira de Química do Instituto, e nessa altura constituía o complemento ao ensino teórico veiculado na mesma. Segundo os Estatutos do Laboratório de Química Prática, o ensino da Química aplicada às artes (como era designada essa formação) podia dividir-se em várias especialidades, ditadas pelas necessidades dos frequentadores do Laboratório, tendo sempre como fim à vista, habilitar nas manipulações químicas indivíduos que se dedicassem à indústria, tinturaria, metalurgia, farmácia, medicina, comércio das drogas, arte de minas, galvanoplastia, fotografia, química analítica, teórica e tecnológica (AGUIAR, 1872, pp.5 – 6).
O ensino prático era retribuído (pagamento mensal e adiantado), funcionava em duas épocas - semestre de Inverno e semestre de Verão - e estava dividido em lições «de dia inteiro» e «de meio-dia». Os alunos podiam trabalhar na semana por pacotes de seis, três ou dois dias completos ou então, seis, três ou dois dias incompletos. A assiduidade era controlada, havendo um número limite de faltas seguidas ao trabalho do Laboratório, ultrapassado o qual se considerava o facto como uma desistência.
Havia também possibilidade de ensino teórico auxiliar, igualmente pago pelos alunos (200 reis por aluno e por lição de uma hora; o limite mínimo de lições teóricas era seis e o máximo sessenta), e para se iniciar um destes cursos, era necessário um número mínimo de inscritos (5), enquanto que para viabilizar um curso prático bastava um único.
Em contrapartida, o Instituto obrigava-se a fornecer aos alunos:
«1.º Instrução prática e o correspondente ensino teórico para inteligência das manipulações.
2.º Mesa de trabalho com gaveta ou armário fechado.
3.º Água, carvão, banho-maria e banho de areia.
O gás é pago fora parte pelos alunos, no fim do mês.
4.º Reagentes, ou matérias primeiras necessárias à sua preparação; exceptuam-se os seguintes: nitrato de prata, cloreto de platina, óxido de cobre e cromato de chumbo para análise orgânica, molibdato de amónia, papel Berzelius, álcool e éter.
5.º Todos os aparelhos e utensílios de trabalho com exclusão dos seguintes: maçarico, limas, faca, tesoura, pinça, cadinho, fio e lâmina de platina, caixa de pesos.
6.º Duas pequenas cápsulas de porcelana, três pequenos funis, um esguicho de água destilada, três matrazes, seis copos de análise e doze tubos de ensaio. Os objectos desta classe que o aluno precisar, além dos que ficam enumerados, tem de comprá-los à sua custa.
7.º Os grandes aparelhos e os instrumentos caros, como balanças, grandes cápsulas, retortas, funis, frascos e termómetros. Quando se partam será o laboratório indemnizado do prejuízo pelos alunos.» (cf. AGUIAR, 1872, pp.9-10).

A instrução prática prevista para os alunos do Instituto – o curso de Química aplicada às artes - implicava necessariamente a frequência do Laboratório durante seis dias da semana pelo período de um ano, e estava programada segundo a sequência: 1.º Análise qualitativa dos corpos inorgânicos e das substâncias orgânicas mais vulgares; 2.º Análise quantitativa dos corpos inorgânicos pelas pesagens e pelos volumes; 3.º Ensaio dos produtos, drogas e minerais mais conhecidos no comércio, e 4.º Análise orgânica elementar e preparação dos produtos químicos minerais e orgânicos de maior importância.
[1] Outros horizontes entretanto se revelaram com a mais recente biografia de Alfredo da Silva, de Miguel Figueira de Faria et alii, de 2004.
[2] Químico, ex-preparador da cadeira de Química Orgânica na Escola Politécnica de Lisboa, sócio activo da Academia química de Berlim, sócio honorário da Sociedade Farmacêutica Lusitana, sócio efectivo da Sociedade de Geografia de Lisboa, sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa. Em 1872 entrou para a Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás. No início da década de 80 (mais precisamente em 1885) a Companhia em questão tinha em funcionamento dois tipos de manómetros eléctricos, inventados por Emílio Dias, que nela exercia funções como segundo engenheiro. Aguiar relata que Emílio Dias montou, junto com o primeiro engenheiro, o Sr. Ahrends, o laboratório de experiências e ensaios fotométricos dessa Companhia (DIAS, 1885, pp.3 – 13).
[3] Aspecto a merecer maior averiguação, uma vez que existe uma informação numa fonte, que permite supor que Carl von Bonhorst em Janeiro de 1888 já não deveria estar no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, pois esta refere-o como professor de Química na Escola Industrial das Caldas da Rainha (“Jornal de Farmácia e Química”, 2.º Ano, Janeiro de 1888, N.º 13). Certo é porém, que em Outubro de 1888, von Bonhorst está ao serviço na Escola Industrial Marquês de Pombal.
Segundo uma nota obituária, Carl von Bonhorst nasceu em Wiesbaden e terá vindo para Portugal na sequência da guerra franco-prussiana; aqui constituiu família e viveu até morrer, sempre dedicado ao ensino da Química, e tendo dirigido durante muitos anos o Laboratório do Tribunal do Contencioso técnico aduaneiro (Necrologia. “Revista de Química Pura e Aplicada”, 1918, N.º 7 – 8, pp.243 – 244).