abril 07, 2006

1.4. Alfredo da Silva na Química

Conforme já se discutiu em outro lugar,
[1] o aparecimento no Instituto Industrial, no final da década de sessenta do século XIX, da formação de condutores[2] e da formação de comerciantes (desenvolvida posteriormente, em particular, pelo Curso Superior de Comércio, criado em 1884, por António Augusto de Aguiar) desenhou a conjuntura que permitiu uma aproximação ao que se pode designar como “modelo alemão” de ensino científico e tecnológico: um ensino pragmático, muito apoiado na prática e centrado no aluno e sua relação directa com as aprendizagens e com o formador. Para além disto, a formação de condutores e de comerciantes chamou a este estabelecimento de ensino um tipo de alunos melhor posicionado socialmente e com outras aspirações profissionais e culturais. E, não é de excluir um novo estímulo ao interesse dos alunos pelos cursos de Química prática, situado agora mais no campo intelectual e cultural, emanado do modelo oitocentista de desenvolvimento e progresso, no qual a indústria – nomeadamente a Química – tinha um forte protagonismo e visibilidade.
Este modelo fez sucesso entre a população estudantil do Instituto e teve vários adeptos entre os professores, nomeadamente Virgílio Machado, e Alfredo Bensaúde, que a ele sempre lhe ficou fortemente associado, até porque o implementou depois no recém-criado Instituto Superior Técnico, de quem foi o primeiro director e, sem dúvida, o seu grande organizador.
Mas ainda se deve incluir outros nomes igualmente importantes, neste processo “renovador” que actuou transversalmente no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, muito antes das perturbações republicanas, nomeadamente o de António Augusto de Aguiar e seus colaboradores estrangeiros
[3] no Laboratório de Química do estabelecimento em causa,
presenças estas no país que se pensa terem resultado de contactos desenvolvidos a partir da influência de Agostinho Vicente Lourenço. Conforme facto sobejamente conhecido, este químico natural de Goa esteve ausente no estrangeiro durante cerca de dez anos, a estudar e trabalhar em laboratórios de químicos famosos, como Bunsen, Hofmann e Wurtz, até que estabilizou, em Portugal no princípio da década de sessenta, para assumir a responsabilidade da cadeira de Química Orgânica na Escola Politécnica de Lisboa
[4], e assim se tornar colega de Aguiar que, na altura, regia como substituto a 6.ª cadeira (Química mineral, fundamentalmente) na mesma instituição.
Também Alfredo da Silva terá sido, necessariamente, sensível ao apelo do conceito de progresso social e aperfeiçoamento do indivíduo, e o seu interesse pela cultura alemã poderá ser inferida pelo facto de ser leitor de Goethe: «Quem era esse outro Alfredo, amante de teatro e amigo de Chaby Pinheiro, de que corre ainda na memória familiar que teria ambicionado ser actor? Alfredo, igualmente leitor de Goethe, de quem oferecia à futura mulher o emblemático Werther, militante em causas culturais e sociais como as desenvolvidas na Associação Camoneana Victorino Damásio em auxílio dos alunos sem posses» (cf. FARIA, 2004, pp.83-84).
A atracção pela Química industrial desde os primeiros tempos do Instituto é facto publicamente reconhecido (BASTO, 1952, p.17). Outros testemunhos deste gosto particular poderão ser obtidos pelas suas intervenções nas sessões dos Conselhos de Administração e Fiscal da Companhia União Fabril onde, nos primeiros anos do século XX, se discutiam as primeiras fábricas, do que viria a ser o complexo químico-metalúrgico desta companhia no Barreiro. E é nas actas das sessões referidas que se torna novamente claro o seu grande interesse pela Química, assim como os conhecimentos que detinha sobre aspectos bastante específicos das indústrias químicas, e onde (à boa maneira dos químicos) se evidencia em Alfredo da Silva aquilo que se pode designar como uma verdadeira “paixão” por um elemento químico, neste caso o cobre - e não fosse ele também um contemporâneo dos triunfos “fin-de-siècle”, nomeadamente os da electrificação crescente e desenvolvimento das telecomunicações.
Está ainda por indagar qual foi o curso prático que Alfredo da Silva efectivamente frequentou, se o de Aguiar (conforme o parece testemunhar Emílio Dias), se o de Virgílio Machado. Na verdade, essa consistirá numa questão de menor importância, até porque já aqui foi aflorado certo grau de proximidade entre os dois chamados “formatos”
[5]. Relevante é, porém, o facto de ter sido justamente colocado entre o grupo dos «práticos» (talvez na maioria, discípulos directos de António Augusto de Aguiar) que se tornaram «cientistas consumados». E, deste modo, Alfredo da Silva está, pela primeira vez, no lugar que sempre lhe terá sido reconhecido: entre os químicos, em Portugal.

BIBLIOGRAFIA

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PARA AS IMAGENS

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Planta Geral, 1.º Pavimento, e plantas dos Laboratórios de Química e de Indústrias Químicas do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa (Biblioteca e Arquivo do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Telecomunicações) adaptadas de SIMÕES, Cristina et alii – trabalho realizado no âmbito da cadeira de História das Ciências, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 1993, e posteriomente publicadas em CRUZ, Isabel (1998) – The chemistry laboratory at the Lisbon Industrial and Commercial Institute: laboratory work in chemistry from 1864 to 1892. In Ana Luísa Janeira; Maria Estela Guedes; Raquel Gonçalves (ed.) – Divórcio entre cabeça e mãos? Laboratórios de Química em Portugal (1772 – 1955). Lisboa, Livraria Escolar Editora;

Gravuras do Laboratório de Química e da Aula de Química, primeiramente publicadas em: COSTA, Francisco Felisberto Dias da (1900) – Instruction Publique en Portugal; Institut Industriel et Commercial de Lisbonne: Histoire – Organisation – Enseignement. Lisbonne, Exposition Universel de 1900, Section Portugaise.
[1] CRUZ (2005) e CRUZ (2006?).

[2] Os condutores foram primeiramente colocados, na hierarquia dos cargos do Ministério das Obras Públicas como corpo auxiliar dos engenheiros para o serviço específico das Obras Públicas (Decreto de 5 de Dezembro de 1860, do Regulamento provisório do serviço das obras públicas e organização do pessoal nele empregue), e a sua função consistia em fazer, nesse domínio, a ponte entre a elite que dirigia (os engenheiros) e o elo final da cadeia, isto é, os operários. Posteriormente, em 1864, o conceito estendeu-se a todo o serviço técnico do mesmo ministério (Decreto de 3 de Outubro de 1864, do Plano de organização do corpo de engenharia civil e dos seus auxiliares).
Alguma complexidade crescente na formação base dos condutores que a aproximaram à das engenharias, e a confusão que no terreno muitas vezes se estabelecia no exercício das funções inerentes ao serviço técnico, fará não só com que em certas alturas seja mais evidente a concorrência dos condutores relativamente aos engenheiros, como alimentará o motor das ambições do próprio Instituto Industrial e Comercial de Lisboa a um lugar mais preponderante no quadro das instituições de ensino técnico em Portugal.

[3] Elementos inéditos sobre a identidade dos colaboradores que se lhe associaram, no Laboratório de Química do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa e/ou no Laboratório de Química da Escola Politécnica, podem ser apreciados na nota biográfica sobre António Augusto de Aguiar, on-line no portal da Sociedade Portuguesa de Química, da autoria de Bernardo J. Herold & Ana Carneiro.

[4] Sobre o papel de Agostinho Vicente Lourenço no desenvolvimento da Química Orgânica veja-se o estudo de HEROLD (1986). Para a questão mais ampla, do desenvolvimento da Química Orgânica em Portugal, consulte-se também HEROLD; CARNEIRO (2005).

[5] Não obstante o primeiro se reportar a um contexto de “Química industrial” e o segundo a um conceito de Química geral ou “Química pura”, parece evidente que em ambos se faz uma fuga para a “Análise Química”. Um estudo, de DONNELLY (1997), permite constatar até que ponto foi problemático estabelecer o campo académico da Química Tecnológica na Grã-Bretanha do século XIX, tanto ao nível da selecção das matérias e utilização dos recursos mais apropriados, como ao nível da sua demarcação em relação à “Química pura”. Segundo este autor, muitos dos cursos de Química Tecnológica resolveram estas questões adoptando um modelo que combinava extensas descrições de processos industriais com versões especializadas de análise quantitativa e qualitativa, que eram afinal, a componente laboratorial dos cursos de “Química pura”.