abril 07, 2006

1.3. Os «práticos» do Laboratório de Química do Instituto

Parece claro que o facto do ensino prático se ter tornado obrigatório trouxe ao Instituto problemas adicionais para a manutenção do Laboratório de Química, e outras exigências ao nível do seu funcionamento. A avaliar pelo que Mota Pegado afirmava, o Laboratório de Machado era mais frequentado, e mais pobre, que o de Aguiar. Pode-se talvez acrescentar, que também o seu projecto de formação era menos diversificado (centrado essencialmente na figura do aluno da 9.ª cadeira do Instituto, “Química mineral e orgânica; Análise química”), e por esse mesmo facto, menos rico de experiências pessoais, muitas delas as «de saber feito» que tanto influenciaram o desenvolvimento da Química, em particular na sua vertente prática e industrial. Diferenças à parte, entende-se especialmente pertinente que ambos os “formatos”, Aguiar – Machado, se confrontem, e se compreendam, nas interligações que viabilizaram a continuidade de uma formação prática em Química, durante várias décadas (de 1872 a 1911) no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa.
Talvez por isso, a aparente displicência com que Emílio Dias cruza, sem temor, os anos de Aguiar e os de Machado no Laboratório de Química do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, para se concentrar na importância deste estabelecimento prático e seu projecto de ensino na preparação dos «cientistas consumados», homens de ciência com provas dadas, à data da escrita do seu artigo, e que enumera, exemplificando para: António Xavier Correia Barreto, autor da pólvora portuguesa, sem fumo; Emílio Estácio, fundador da Companhia Portuguesa de Higiene e autor de uma série numerosa de produtos farmacêuticos, alguns deles absolutamente novos; Emílio Fragoso, director e fundador do jornal “A Gazeta de Farmácia” e Alfredo da Silva, «que nos dá a página talvez de maior brilho nos anais da nossa indústria moderna com a remodelação, novas instalações e novos preparados, que através da muita vicissitude, fez na Companhia União Fabril, de que é director» (cf. DIAS, 1919, p.49).
A explanação do tema dos «práticos» ou frequentadores dos «cursos de química prática e análise e indústrias químicas» continua ainda pela pena de Emílio Dias, constatando-se por fim, que a ideia defendida não é original – a de que a Química prática, no laboratório, era a essência da formação de um químico
[1].
Já o percurso histórico de outros químicos (portugueses) revelara isso mesmo, como o de Júlio Máximo de Oliveira Pimentel (lente proprietário sucessivamente das cadeiras 6.ª, e de Química Orgânica da Escola Politécnica de Lisboa, e durante algum tempo, o professor da 7.ª cadeira: Química aplicada às artes, do Instituto Industrial de Lisboa), de Sebastião Betâmio de Almeida (professor da 7.ª cadeira: Química aplicada às artes, Escola Industrial do Porto e Instituto Industrial de Lisboa; uma experiência prévia no projecto de ensino industrial da Associação Industrial Portuense), Roberto Duarte Silva (chefe dos trabalhos de Análise Química e depois também professor, da École Centrale des Arts et Manufactures; professor de Química da École Municipale de Physique et de Chimie Industrielles de la Ville de Paris), Agostinho Vicente Lourenço (lente proprietário da cadeira de Química Orgânica, Escola Politécnica de Lisboa), que a terão adquirido no seu contacto directo com o estrangeiro.
Para além do mais, ao ensino da Química prática, pela sua inevitável relação com a experimentação, e comprometimento directo com o treino e desenvolvimento de capacidades de observação e de rotinas psico-motoras, era-lhe reconhecido um papel formador que ultrapassava a própria questão dos conteúdos que integravam o “pacote”, e um potencial motivador e de eficácia a não desprezar no contexto das aprendizagens em Química. A isso mesmo Emílio Dias se refere na seguinte passagem do seu artigo: «Pode afirmar-se, sabemo-lo por experiência própria, que mais se esquece teoricamente o que estudou nas aulas, do que aquilo que praticamente nelas se fez ou demonstrou com os adequados exercícios.
Adquire-se também com esses exercícios a arte de manusear com facilidade reagentes e aparelhos os mais variados e complicados; dão por vezes esses exercícios em resultado criarem-se aptidões, e, com frequência, as mais extraordinárias, e até especialistas dos mais eminentes» (cf. DIAS, 1919, p.52).
Estes argumentos poderão assim justificar, o facto de ao chamamento do primeiro curso prático de António Augusto Aguiar em 1872/1873, terem acorrido principalmente alunos da Escola Politécnica, a saber: João Rodrigues dos Santos, Sabino Maria Coelho, Guilherme de Oliveira Martins, José da Paixão Castanheira das Neves, Alfredo Luís Lopes, entre outros (DIAS, 1919, p.49), um sector estudantil com currículo pouco ou nada chegado às “lides” industriais, mas sensibilizado q.b. para o triunfo da Química oitocentista. Surpreendentemente (ou não) Emílio Dias seria o único industrial a matricular-se no curso nesse ano lectivo (DIAS, 1919, p.49).
Uma listagem publicada no “Diário do Governo”, fornece entretanto os nomes dos alunos do Instituto Industrial e Comercial que ao abrigo do artigo 12.º dos Estatutos do Laboratório de Química Prática - alunos “bolseiros” que com anterior aproveitamento na cadeira de Química do Instituto, podiam ser admitidos no curso de Química Prática – eram chamados a frequentar o curso nesse mesmo ano lectivo
[2]: Guilherme Augusto de Oliveira Martins; Gregório Rafael da Silva Almeida; Alfredo Luís Lopes; José da Fonseca Teixeira; António Augusto Felix Ferreira; Pedro Castro de Aguiar Craveira Lopes; José da Paixão Castanheira das Neves; Francisco António de Sequeira; Clemente Augusto de Assunção; Manuel Cardoso dos Santos Vasques; Pedro Maria Alves da Silva; José Francisco da Costa Ramos.
Como há vários nomes coincidentes nas duas instituições de ensino, e ainda que não seja a única forma possível de articulação entre alunos da Escola Politécnica e o curso de Química Prática de A. A. Aguiar, é viável supor-se que vários alunos da Politécnica de Lisboa se matriculavam na 4.ª cadeira do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, a “Química aplicada às artes e à indústria”, regida por António Augusto de Aguiar, que realizavam com aproveitamento, e seguidamente se candidatavam à frequência no curso de Química Prática.
Entende-se que a presença deste tipo de alunos – alunos oriundos do ensino superior - não só revela o entusiasmo da juventude que estudava em Lisboa nas escolas superiores, pela Química ensinada, com ingredientes práticos e industriais
[3] e com outro tipo de protagonismo dos alunos, uma vez que lhes era facultado um sistema quotidiano de manipulações variadas, como também comprova o quanto se deveria afastar desse conceito, o ensino da Química nas suas instituições de origem. E, não obstante a falta de elementos referentes às frequências deste curso nos anos lectivos seguintes, julga-se muito aceitável que uma procura deste tipo se tenha mantido, pelo menos até nessas instituições se desenvolverem cursos de índole semelhante, conforme registo que é dado novamente por Emílio Dias: «Os cursos práticos da iniciativa de António Augusto de Aguiar foram coroados do melhor êxito. Colegas seus se apressaram a imitá-lo, inaugurando também nos seus cursos, e em outras ciências, o ensino da sua aplicação prática» (cf. DIAS, 1919, p.52).[4]
O curso de Química Prática de António Augusto de Aguiar funcionou ainda com outros colaboradores, nomeadamente Alexandre Bayer (francês?) e o já referido Carl von Bonhorst, alemão, de Wiesbaden, ex-assistente de Fresenius[5] e que foi assistente de Química prática no Laboratório de Química do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, que muito deverão ter contribuído, mediante a sua pragmática experiência no terreno, para a ligação entre a Ciência e a Indústria no campo do ensino. Outros nomes aparecem também ligados ao laboratório em questão ao tempo de Aguiar: António Augusto Félix Ferreira (farmacêutico e vice-director da botica do Hospital de S. José), que nele deverá ter continuado a exercer algum tipo de actividade, mesmo depois da frequência do curso prático, em 1872 – 1873, ao que parece até 1881, ano em que faleceu[6]; Miguel Sertório dos Santos Sousa, praticante no Laboratório, conforme informação do “Almanaque Comercial de Lisboa” para o ano de 1888.

[1] Para uma discussão alargada sobre como vários “laboratório-escola” proliferaram na França oitocentista (Paris, precisamente) e contribuíram para o fenómeno da difusão da Ciência e da profissionalização dos químicos, veja-se CARNEIRO, Ana (2001) – As Escolas de Investigação em Química, em Paris, na segunda metade do século XIX. “QUÍMICA”, Outubro/Dezembro, N.º 83.
[2] Segundo os termos do aviso publicado no “Diário do Governo”, N.º 200, de 6 de Setembro de 1872, pp.1330 – 1331, estes alunos foram seleccionados de vários anos lectivos anteriores, com a qualificação de distintos nos exames finais da cadeira de Química.

[3] A este propósito pode-se admitir que a forte personalidade de António Augusto de Aguiar e sua influência sobre os alunos tenha contribuído para os motivar mais, uma vez que Aguiar era também lente da 6.ª cadeira (Química) da Escola Politécnica de Lisboa.

[4] Isto é verdade, pelo menos no que diz respeito à Escola Politécnica de Lisboa, onde em 1889/1890, José Júlio Bettencourt Rodrigues (nessa altura já como lente proprietário da 6.ª cadeira, por morte de Aguiar) conseguiu por em funcionamento um «Curso prático da 6.ª cadeira» [Em documento anterior, de 1885, Bettencourt Rodrigues chamou-lhe Curso de Química Experimental] complementar do ensino teórico, ainda que sem carácter obrigatório. Sobre este curso, veja-se ALVES, 1996.

[5] Remigius Fresenius (1818 – 1897) nasceu em Frankfurt, cursou a Universidade de Bonn, e terminou os seus estudos em Química em Giessen, onde foi discípulo de Liebig, e depois “privat-dozent”. Em 1845 foi nomeado professor de Física, química e tecnologia em Wiesbaden, e ali fundou em 1848, o seu afamado laboratório, destinado a fornecer uma séria instrução química experimental, não só na química geral, como nas suas aplicações à indústria, ao comércio, à farmácia, à agronomia e à enologia. Como secções especiais destes cursos existiam (pelo menos até 1911) a Análise química aplicada à tecnologia, e a Análise química bromatológica. Fresenius era considerado um exímio analista e um profundo conhecedor da matéria (SILVA, 1911, p. 347).

[6] Esboço Biográfico de A. A. Félix Ferreira. “Jornal da Sociedade Farmacêutica Lusitana”, Setembro e Outubro, 1882, 3.º Tomo, N.ºs 9 e 10, p.181.