abril 07, 2006

1.2. O ensino prático de Química ao tempo de Virgílio Machado

Comparando este com o programa do ensino prático para a cadeira de Química, que alguns anos mais tarde era apresentado pelo director do Instituto Industrial e Comercial para o ano lectivo 1889/1890 (ver Anexo I), cadeira já sob a responsabilidade de Virgílio Machado, facilmente se reconhece em ambos uma estrutura base algo semelhante. Isto leva a supor que se desenhou um certo tipo de continuidade à iniciativa de desenvolvimento da instrução em Química prática para alunos do Instituto, não obstante a morte precoce do seu patrono, e outras alterações menores, mas ainda importantes, realizadas a nível da organização e estrutura do Laboratório.
Contudo, a situação da instrução prática em Química no seu global no Laboratório de Aguiar e no de Machado está ainda por estabelecer, com contornos precisos, em ambos. O novo compromisso entre a cadeira de Química e o seu ensino no Laboratório, que surgiu em Agosto de 1889 com a obrigatoriedade do ensino prático para várias cadeiras do Instituto poderá ter levado a que, pelos encargos envolvidos e apesar da vantagem nas receitas, no “sistema Machado” já não houvesse lugar para outras versões significativas do trabalho no Laboratório de Química, como o eram os «praticantes» - frequentadores regulares dos cursos do Laboratório e que não eram alunos do Instituto - e outras modalidades ainda, contempladas no “sistema Aguiar”, como se pode verificar através novamente dos seus Estatutos: «Artigo 11.º Os engenheiros, fabricantes, industriais, farmacêuticos, etc., que desejarem fazer algum trabalho químico pouco demorado, podem ser admitidos no laboratório, segundo as condições que se estipularem de acordo com o director do laboratório» (cf. AGUIAR, 1872, p.11).
Porém, um opúsculo de 1873, elaborado por Fradesso da Silveira, revela que os cursos práticos no Laboratório de Química do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa já eram gratuitos nessa altura, para alunos desta instituição (SILVEIRA, 1873, p.146), e um facto idêntico é confirmado em Exposition Universelle de Paris en 1878, p. 7, o que permite supor que de alguma forma o problema de orçamento e financiamento já se colocava ao tempo de Aguiar, se bem que com razoáveis diferenças, como se pode apreciar pelo testemunho do director do Instituto, Luís Porfírio da Mota Pegado, ao comparar ambas as situações, sob o ponto de vista dos encargos: «os reagentes que se consumiam e o material que se deteriorava ou inutilizava, quando a prática do laboratório não era obrigatória e a sua duração era relativamente restrita, não têm decerto comparação com o consumo e dispêndio de hoje que os alunos não podem deixar de seguir trabalhos, a que não estão habituados, permanecendo neles seis horas por semana. A dotação do laboratório não pode, portanto, ser a mesma que foi, para que os exercícios dos alunos tenham a importância que convém a eles e à instrução pública em geral.
Quando no Instituto, por iniciativa de um dos seus mais ilustres directores, e meu colega no magistério, se fizeram cursos práticos de Química, o laboratório tinha, segundo creio, uma dotação bastante superior à que tem agora, e não me parece justo que no momento em que se pretende restabelecer esse curso, embora sob outra forma, a dotação seja inferior ao que então foi» (cf. PEGADO, 1890, p.15).