janeiro 06, 2006

MEMÓRIA SOBRE A. L. STINVILLE - 1ª Parte

MEMÓRIA SOBRE A. L. STINVILLE, ENGENHEIRO-CONSTRUTOR FRANCÊS
[1,2]
J. M. Leal da Silva


Uma justificação prévia (dezembro de 2005):
O texto que se segue representa o desenvolvimento e estado da pesquisa conduzida sobre a figura a todos os títulos especial e enigmática de A. L. Stinville, que foi o engenheiro-construtor francês escolhido em 1907 por Alfredo da Silva para a realização das Fábricas de Santa Bárbara, da CUF, no Barreiro, Portugal.
Decorreram vários anos entre a constatação do pouco que se sabia sobre Stinville e a descrição feita neste “texto de posição”. Reporta-se este a Outubro de 2004, por razões de emergência que se explicam, embora com ligeiros ajustes efectuados em Setembro e Novembro de 2005 – a propósito da apresentação de um “poster” sobre este tema na 5ª Conferência Internacional da História da Química, que teve lugar em Lisboa e no Estoril no primeiro daqueles meses.
As diligências efectuadas e a sua difusão pela “net” contribuiram para progressos de relevo no 4º trimestre de 2005, que se espera poder brevente revelar e que vieram confirmar uma grande parte das hipóteses formuladas.
Parece importante apresentar este trabalho no seu estado praticamente original, como exemplo das possibilidades duma “investigação teleguiada”, ou seja, quase totalmente desenvolvida à distância.
Este texto tem, além da versão original em Português, uma versão em Francês, igualmente disponível.

Pequeno comentário a abrir
(Outubro, 2004) :
Circunstâncias recentes, não desejáveis nem desejadas, vieram-nos demonstrar como pode mostrar-se contraditória uma acumulação de pesquisa sem qualquer divulgação intermédia, correndo o risco de — por inesperado impedimento — se poder perder ou dispersar o que entretanto foi recolhido. Preferimos, assim, divulgar imediatamente o que já existe, ou seja, o que obtivemos até aqui sobre a personagem “cerrada” que foi A. L. Stinville, engenheiro construtor francês contratado por Alfredo da Silva, em 1907, para realizar física e tecnologicamente [em Portugal} as Fábricas de Santa Bárbara, ou Fábricas do Barreiro, da Companhia União Fabril. Mostra este texto que há certamente muitos caminhos ainda a percorrer: seja por nós, seja por outros, alguns ficam aqui sugeridos. Todos ganharemos com isso.

1. STINVILLE E O BARREIRO
a) Quando, no início do sec. XX, o grande industrial português Alfredo da Silva (1871-1942) [3], fundador do « Grupo CUF », quis desenvolver em Portugal um centro industrial moderno para a produção de adubos fosfatados, extracção de óleos vegetais e produção de produtos químicos inorgânicos, capaz de concorrer com outros grandes complexos industriais europeus, viu-se perante a imperiosa necessidade de proceder a várias opções essenciais para o sucesso do projecto:
Destas opções, sublinharemos as três seguintes:
i) a escolha de um terreno livre e amplo, geograficamente bem localizado, com água disponível, servido por caminho de ferro e com possibilidade de realização de um porto de águas profundas — requisitos que, não integralmente satisfeitos noutras localizações possíveis, foi encontrar no Barreiro, concelho situado em frente a Lisboa, na margem esquerda do estuário do Tejo;
ii) o possível emprego e valorização de recursos naturais do país (como a pirite complexa, fonte de enxofre e de cobre, e o sal, no que pudessem contribuir para os fabricos considerados) e o acesso a outros essenciais factores de produção (mão de obra, financiamento); e
iii) a aquisição de uma engenharia (incluindo tecnologia) fiável, procurando um engenheiro construtor com domínio de conhecimentos químicos, capaz de levar a cabo a aplicação desses recursos e de gerir (ou de fazer gerir) a construção de um complexo industrial, que incluísse as unidades industriais directamente ligadas aos processos produtivos e ainda todos os serviços exigidos por uma lógica integrada, num país em que a tradição industrial era evidentemente escassa. É assim que A. L. Stinville entra na história da CUF e das suas “Fábricas do Barreiro” e, por estas, na história da indústria química em Portugal.
b) Uma incursão nas actas do Conselho de Administração da Companhia União Fabril, rapidamente celebrizada sob a designação abreviada de CUF, localiza no tempo e caracteriza o início e desenvolvimento dessas relações. Como veremos, a primeira referência a Stinville nesses textos data de 1907, a última de 1925. Quando Alfredo da Silva, adquiridos os terrenos no Barreiro e decidida a montagem de uma instalação de extracção de óleo, convence finalmente os seus colegas da administração quanto às inevitáveis vantagens de — também aí — concretizar uma produção nacional de adubos fosfatados com dimensão europeia [4], integrando o fabrico de ácido sulfúrico e outras produções e serviços num complexo industrial exemplar, tem já sob o braço, muito ao seu estilo, uma proposta do engenheiro construtor francês.
c) Nas actas desse período, as menções a Stinville e ao pessoal por este seleccionado e delegado para o empreendimento do Barreiro passam de uma frequência assinalável, na época heróica da construção e nas circunstâncias subsequentes, a uma sucessiva rarefacção. Embora mantendo em Paris a sede das suas actividades profissionais, Stinville ganha a confiança de Alfredo da Silva [5] e mantém na CUF, de 1907 a 1927, o cargo de “director técnico das Fábricas do Barreiro” [CUF,1958], fábricas em que se incluíam as já referidas instalações-âncoras (ácido sulfúrico, pelo processo de câmaras de chumbo, a partir da ustulação de pirites portuguesas, e adubos fosfatados — superfosfatos — com fosforite importada do Norte de África), sucessivamente acrescidas com unidades produtoras de ácido clorídrico e sulfatos alcalinos, de lexiviação de cinzas de pirite e de extracção do cobre das cinzas de pirite para produção de sulfato de cobre, além de outras (incluindo serviços auxiliares) que igualmente terá projectado ou especificado [6]. Estas importantes funções terão sido desempenhadas ao abrigo de contrato(s) de consultadoria. As instruções, planos, desenhos e restantes informações técnicas eram executadas em Paris e remetidas à CUF e revestiam a forma de relatórios regulares. Desde o período de concepção inicial, de construção e de arranque, Stinville visitou algumas vezes o Barreiro, geralmente com estadias pouco prolongadas. Coube-lhe igualmente a selecção e colocação de pessoal expatriado em Portugal, desde engenheiros (de que se recordam os nomes de Maire e Pelet, na fase de construção, e de Castera no prosseguimento das operações, este ultimo de especial apreço por parte de Alfredo da Silva, ao ponto de procurar o seu licenciamento do exército francês e o seu regresso rápido ao Barreiro, logo na semana subsequente ao termo da I Grande Guerra), a encarregados e mestres franceses para apoiar as instalações na sua marcha regular. Ainda nos anos 60 subsistiam evidentes “galicismos” no calão industrial do Barreiro.
d) Em 1925 a colaboração com Alfredo da Silva adquire uma nova dimensão. O industrial português, então voluntariamente exilado como consequência da insegurança política que agitava Portugal ao ponto de ter milagrosamente escapado a diversos atentados, formaliza — em associação com Stinville, o seu genro D. Manuel de Mello e a empresa que havia estabelecido como “holding” do seu Grupo industrial (a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lda, abreviadamente a “Sociedade Geral” ou “SG”) — a constituição, em Paris, de uma sociedade industrial de lei francesa, sob a denominação de Société des Industries Chimiques CUF, S.A. [por vezes também abreviada como SIC-CUF] [7]. Segundo uma das biografias de Alfredo da Silva [MIGUEL, 1971], essa sociedade, que sob o ponto de vista patrimonial adquire terrenos em Balaruc-les-Bains, Hérault, mas não ultrapassa a fase de projecto, destinava-se à produção de alumínio, utilizando a energia eléctrica produzida a baixo custo nos vizinhos Pirinéus. De facto, o seu objecto social era mais vasto e curioso: “Exploração de minas e pedreiras. Compra e venda de corpos simples e compostos” [ADP,2004]. Numa carta à Gerência da Casa Totta, a vertente bancária do seu Grupo, escrita de Paris a 22 de Março de 1925, Alfredo da Silva explica o objectivo estratégico da criação dessa sociedade [FARIA,2004] — que o registo comercial francês vai dar como “liquidada” em 1933. [ADP,2004].
e) De acordo com o álbum “Os 50 Anos da CUF no Barreiro”, editado pela empresa em 1958 [CUF,1958], Stinville, cessando as suas funções como director técnico do Barreiro em 1927, é substituído, nesse cargo, pelo primeiro director técnico português, Eng. Eduardo Bravo Madaíl [8] . A data exacta dessa substituição não é ainda conhecida e, surpreendentemente, não se encontrou qualquer referência ao assunto nas actas do conselho de administração da sociedade referentes àquele ano. No entanto, a 30 de Julho de 1927, numa carta um tanto ríspida dirigida a um jovem engenheiro da Secção Técnica da CUF [9] que levantara reservas a uma concepção técnica de pormenor proveniente de Stinville, Alfredo da Silva — já definitivamente regressado a Portugal — confirma que este continua a ser o “engenheiro construtor” da CUF [PEREIRA,2002].
f) Em 1931, Stinville recebe, no seu escritório de Paris, a visita do médico português Dr. Manuel de Vasconcelos, inspector chefe dos Serviços de Higiene da Trabalho e das Indústrias, enviado em missão oficial à Holanda e à Suíça para tratar os casos mais sensíveis de emissões industriais, nomeadamente no Barreiro. Este médico redigiu um relatório de viagem, divulgado em Portugal em 1934, em que referia as conversas tidas com o “Engenheiro Stinville”, “consultor da CUF” e “um dos concessionários da patente Cottrell – Möller” para instalações de despoeiramento electrostático, que o próprio Stinville teria montado nas instalações industriais belgas de Hoboken [VASCONCELOS, 1934].
g) Em Novembro de 1937, Stinville dá ainda provas da sua actividade como consultor, em Paris, embora provavelmente já não mantivesse o seu escritório no 14, rue Chauveau Lagarde. Em duas cartas, datadas de 9 e 17 de Novembro daquele ano [das quais só conhecemos as respectivas transcrições dactilografadas], responde a perguntas de Alfredo da Silva sobre o “Processo Basset” para redução directa de minérios de ferro em fornos rotativos da indústria cimenteira, mostrando-se bastante crítico quanto ao referido processo e demonstrando um razoável conhecimento de alguns aspectos sensíveis dos negócios siderúrgicos em França. Procurando dissuadir Alfredo da Silva de uma atracção siderúrgica, mormente por aquele processo, acrescenta, na primeira dessas cartas, que está “em muito boas relações com M. Metayer, (professor de Metalurgia na École Centrale des Arts et Manufactures e administrador de três grandes empreendimentos metalúrgicos: Aciéries du Nord, Denain-A et Trignac)”, que também teria estudado, em pormenor, o referido “processo Basset”. [PEREIRA, 2002] .

h) Se, felizmente, o conhecimento sobre Alfredo da Silva cresce, o que continuamos a saber sobre A. L. Stinville não está certamente proporcionado à sua contribuição para a realização do complexo industrial da CUF no Barreiro. Uma porção significativa dos arquivos históricos da CUF está dispersa e permanece desaparecida, parte da qual se admite perdida não apenas pelos actos dos homens mas também por efeito de causas naturais como o ciclone de 1941 e as inundações de 1967, na região de Lisboa. Não obstante, uma amostra razoável dos seus planos técnicos e desenhos, ainda que aqui e além modificados e recopiados várias vezes, permanece no Barreiro e dá uma ideia clara e suficiente da capacidade daquele engenheiro-construtor para estabelecer — em 1907 — uma disposição (“lay-out”) exemplar do complexo, para utilizar de forma adequada os materiais então mais aptos para a indústrias químicas que instalou e para demonstrar a sua presença no melhor “estado da arte” dos processos químicos requeridos. No Barreiro igualmente se encontra o único retrato conhecido de Stinville, que demos acima e que o álbum dos “50 Anos da CUF” publicou [10].

i) Nos nossos dias, o nome de Stinville permanece na memória e na toponímica da cidade do Barreiro. No velho bairro operário de Santa Bárbara, de que subsiste uma parte muito representativa, uma “rua Stinville” junta-se às ruas que homenageiam os grandes responsáveis pelo desenvolvimento da indústria químico-adubeira nos secs. XIX / XX (Berthelot, Liebig, Dalton, Gay-Lussac, Lavoisier e Lawes). Por isso, qualquer pesquisa que hoje se faça na “net”, sobre o conceito “Stinville”, para além de referências personalizadas diversas, trará sempre menções ao Barreiro (Portugal) tal como — por outras razões toponímicas — a Paris ou a Charenton-le-Pont. Ainda que pouco subsista das instalações projectadas por Stinville para o que foram as Fábricas da CUF no Barreiro, salvo as peças desenhadas, a memória fotográfica [CABRITA, 1999], alguns edifícios em tijolo na parte oriental da designada “zona sul do actual “parque empresarial” da Quimiparque [10A] e talvez o remorso histórico de não terem sido poupados alguns “testemunhos” significativos [11] , a cidade do Barreiro mantém, em Portugal, um importante papel no que toca à indústria química.

2. UM “mistério Stinville” ?
a) Data possivelmente da segunda metade de 1999, ao ordenarem-se conhecimentos sobre Alfredo da Silva, a constatação de um facto surpreendente, mas real: eram deveras escassos os elementos disponíveis sobre A.L. Stinville [12] . Nem o seu nome completo, escondido por detrás das iniciais A. L. era conhecido. Sabia-se do papel importante que tivera na concretização das ideias de Alfredo da Silva, citava-se o contributo tecnológico que trouxera para as Fábricas do Barreiro — mas, fora disso, pouco mais se conhecia [CUF,1956; MIGUEL, 1971].
b) Essa primeira constatação foi encarada com ingenuidade e optimismo. Dada a capacidade técnica do “procurado”, que esperávamos ver reflectida em fontes francesas do seu tempo, e porque Stinville é um patronímico relativamente pouco frequente, em França, como havíamos ficado cientes após uma visita efectuada à Alliance Française, em Lisboa, prévia ao início das investigações [13], não seria difícil encontrar em França - mesmo que numa busca conduzida à distância e com meios e tempo assaz limitados - uma via de pesquisa que conduzisse fácil e rapidamente às “respostas” que sobre A. L. Stinville queríamos obter.
c) E o que queríamos saber sobre A. L. Stinville? Desde início organizamos uma pequena listagem de quesitos que nos pareciam essenciais, uns, ou importantes, outros, Não é difícil adivinhar essa lista, conhecendo o relativo “deserto” de que partíamos:
· Nome completo;
· Local e data de nascimento;
· Domiciliação;
· Formação académica / profissional e experiência industrial ;
· Bibliografia publicada;
· Quando e como travou conhecimento com Alfredo da Silva e como iniciou a sua colaboração com a CUF; Data e local da sua morte.
· Eventual existência de um fundo ou acervo documental e, caso afirmativo, como lhe aceder.
d) Ao listar estes interesses não estávamos longe, para um caso singular e preciso, do exercício que ROBERT MACKIE e GERRYLYNN ROBERTS iriam mais tarde descrever numa interessante comunicação sobre um extenso projecto de recolha biográfica e estabelecimento de uma verdadeira « base de dados » acessível a estudiosos, por recolha das biografias de químicos britânicos que activamente trabalharam no seu país e/ou que, mercê de contratos de projecto ou de consultadoria, contribuiram para o desenvolvimento da indústria química noutros países [MACKIE e ROBERTS, 2002]. Rapidamente iríamos concluir como a “nossa listagem” se mostrava ambiciosa.

2. AS PRIMEIRAS TENTATIVAS E AS “CONSULTAS GENERALIZADAS”
a) Com os escassos elementos que dispúnhamos e depois de uma extensa pesquisa na “net”, que se revelou limitada em conclusões, elaboramos, em 2000, um primeiro memorando em francês sobre A. L. Stinville. A finalidade desse primeiro texto (e das suas posteriores revisões) era a realização de consultas, que prevíamos fazer em três planos escalonados no tempo:
· colocando o memorando na “net”, nos circuitos de genealogia franceses;
· efectuando uma consulta postal a portadores identificados do patronímico Stinville;
· remetendo uma primeira consulta sobre A. L. Stinville a escolas superiores de engenharia química francesas e a associações ou instituições francesas com potencial interesse quanto ao tema.
b) Dentro do primeiro destes objectivos, contactos personalizados com canais de genealogia (e com genealogistas) franceses presentes na “net” não nos iriam levar a quaisquer resultados concretos, para além de diversas demonstrações de interesse, de apoio e de incentivo amavelmente transmitidos e de informações e sugestões de ordem geral que se mostrariam efectivamente úteis para as fases subsequentes da investigação [14]. Citemos, entre estas, a distribuição geográfica do patronímico e a frequência de nascimentos de Stinvilles em França, por departamentos e comunas, em períodos com potencial interesse.
c) Como fundamento da segunda acção, admitimos que um primeiro inquérito por carta dirigida aos portadores do patronímico Stinville nas “páginas brancas” das listas telefónicas de França poderia rapidamente fornecer pistas significativas. Em Janeiro de 2000 enviamos seis cartas, com a seguinte distribuição geográfica de destinatários : Gers (1), Marne (1), Tarn (2), Tarn-et-Garonne (1) e Hauts-de-Seine (1). Tínhamos ainda 4 outros endereços, com a seguinte distribuição: Haute-Garonne (2), Gers (1) e Paris (1) que, por razões diversas, foram mantidos sob reserva para uma segunda fase, após avaliarmos os resultados positivos ou negativos da primeira — acabando por não ser enviados. Sabíamos, ainda, que um número desconhecido de assinantes Stinville do serviço telefónico mantinha os seus dados sob confidencialidade e ficariam, pois, fora desta acção. A mensagem remetida era bastante simples e algo ingénua: depois de uma breve descrição biográfica sobre A. L. Stinville e uma referência sumária dos objectivos do estudo, perguntava-se ao destinatário se era familiar ou se, sob qualquer forma, tinha conhecimento directo ou indirecto do A. L. Stinville que buscávamos. Sem que houvesse qualquer “devolução ao remetente”, o que permite admitir 100% de entregas, esta diligência — talvez vista pelos destinatários como uma intromissão não desejada ou uma acção publicitária escondida — saldou-se por um completo fiasco, com 0 % de respostas recebidas. Contudo, o trabalho de preparação deste « mailing » revelou-se útil, ao permitir (pelo menos transitoriamente) afastar a Bélgica, a Suíça e o Luxemburgo do domínio das pesquisas, em termos de patronímico – e isto porque nenhuma referência a esse patronímico foi encontrada nas “páginas brancas” das listas telefónicas desses países.

d) Numa perspectiva bem mais específica que a primeira consulta postal a particulares e com base num memorando sucessivamente actualizado [15], dirigimos, em Junho / Julho de 2002, um novo inquérito postal às 26 entidades seguintes:
· CAMT – Centre des Archives du Monde du Travail, Roubaix;
· CCIP – Chambre de Commerce et d’Industrie de Paris;
· 22 Escolas Superiores de Química, de França;
· “Maire” de Balaruc-les-Bains; e a
· Societe Française de Chimie.
e) Quando lançamos esta consulta às 22 escolas que actualmente atribuem o título de engenheiro, não conhecíamos a sua sucessão histórica, nem tampouco a respectiva antiguidade na formação de engenheiros químicos, pelo que usamos como critério simples de selecção a formação actual de engenheiros químicos. Certo é que a lista assim construída e os contactos realizados foram coincidir, numa extensão razoável, com a lista de Escolas Superiores de Química em França de 1822 a 1908 que, entretanto, nos foi facultada [ENSCM, 2002]. Das 22 Escolas contactadas recebemos apenas as 8 respostas seguidamente indicadas, que nos esclareceram que A. L. Stinville não figurava nos respectivos ficheiros de alunos, ou de associações de antigos alunos (por ordem alfabética de localização)
[i]:
· École Supérieure de Chimie Organique et Minérale (E.S.C.O.M.) – de Cergy Pontoise [ESCOM, 2002] ;
· Association des Anciens Elèves de C.P.E. Lyon (fusão da E.S.C.I.L.e da I.C.P.I.) – de Lyon [AAECPE, 2002];
· Ecole Nationale Supérieure de Synthèse, de Procédés et d’Ingénierie Chimiques d’Aix (E.N.S.S.P.I.C.A.M.) – de Marselha [ENSSPICAM,2002] ;
· Ecole Nationale Supérieure de Chimie de Montpellier – de Montpellier [ENSCM ;2002] ;
· Société Amicale des Anciens Élèves de l’Ecole Polytechnique (AX) – de Paris (75005) [SAAEEP,2002] ;
· École Supérieure de Physique et de Chimie Industrielle de la Ville de Paris (E.S.P.C.I.) – de Paris (75231) [ESPCI,2002]
[ii] ;
· Ecole Nationale Supérieure du Pétrole et des Moteurs (E.N.S.P.M.) – de Rueil Malmaison [ENSPM, 2002] ; e
· Ecole Nationale Supérieure des Ingénieurs en Arts Chimiques et Technologiques (E.N.S.I.A.C.E.T.) (reagrupando a E.N.S.C.T. e a E.N.S.I.G.C.) – de Toulouse [ENSIACET, 2002].
Esta consulta trar-nos-ia, não obstante, alguns esclarecimentos interessantes e de ter em conta para o prosseguimento das investigações. Fomos assim informados que o título de engenheiro, em França, só ficara reconhecido e protegido por lei de 10 de Julho de 1934 que criou a “comissão do título de engenheiro” — o que significa que, até essa data, o título profissional de “engenheiro” poderia ser utilizado por qualquer químico que na indústria química exercesse a sua profissão. Como consequência, numa interpretação lata, a preparação académica de A. L. Stinville poderia ter decorrido numa Faculdade de Ciências e não necessariamente numa Escola Superior de Química [ENSCM,2002]. Em contraponto, numa interpretação restrita, a capacidade atribuída a A. L. Stinville de produzir projectos técnicos de instalações e equipamentos, incluindo a execução de desenhos e planos, poderia corresponder efectivamente a uma formação em engenharia química, o que indiciaria as escolas de Nancy e Toulouse, pioneiras nessa qualificação académica [ENSCM,2002].
f) Nesta ronda de contactos, incluímos igualmente entidades não-universitárias. Recebemos respostas encorajadoras da Chambre de Commerce et Industries de Paris [CCIP, 2002] e da Assessora Delegada para os Assuntos Culturais do Maire de Balaruc-les-Bains, que incluímos na lista em atenção à já referida Société des Industries Chimiques CUF, e que nos surpreendeu, desenvolvendo uma prestimosa investigação autónoma em torno do nosso pedido, avançando até aos Arquivos Departamentais do Héraut e abrindo pistas que se revelaram utilíssimas [MBLB,2002]. O Club d’ Histoire de la Société Française de Chimie igualmente nos respondeu [CHC/SFC, 2002] e —não tendo obtido qualquer resultado na pesquisa que efectuou nos seus arquivos e publicações— manifestou interesse em conhecer mais sobre A. L: Stinville, informação que certamente iremos transmitir com base na versão em Francês deste documento [17A]. Diga-se ainda que da série de contactos não-universitários estabelecidos, não recebemos qualquer resposta do CAMT – Centre des Archives du Monde du Travail, de Roubaix.
g) No ano subsequente a estas consultas — 2003 — dando andamento útil a algumas sugestões recebidas, fizemos mais dois contactos genéricos: dirigimos assim cartas ao Service des Archives et Musée de la Préfecture de Police de Paris [PPPARIS,2003] — que nos referiram como entidade detentora de um ficheiro importante sobre as actividades económicas parisienses — e ao CNISF – Conseil National de Ingénieurs et Scientifiques de France [CNISF,2003]. Ambos os contactos foram negativos, em termos de obtenção de qualquer referência a A. L. Stinville, sendo de sublinhar que o CNISF nos facultou uma lista cronológica da criação de escolas de química no período 1875 – 1905, permitindo-nos “afinar” futuras buscas. Quanto a diligências mais específicas e frutuosas (Archives Départamentales de la Marne e Archives de Paris) referir-nos-emos oportunamente [17B].
h) Com base nos dados da presente informação e dos elementos entretanto recolhidos, bem como do nome completo de A. L. Stinville, propomo-nos rever a lista de escolas e renovar contactos. Guardando a lição das 8 escassas respostas recebidas de 22 escolas contactadas, procuraremos, nesses contactos futuros, restringir a consulta a escolas efectivamente existentes no período da presumível formação escolar de Stinville e salientar a decisiva diferença que para nós resulta entre uma informação negativa e uma ausência de resposta [17C].

4. A QUESTÃO DO NOME
a) Uma das dificuldades encontradas relacionou-se com o conhecimento, que pretendamos, do nome completo de A. L. Stinville, sistematicamente encoberto por detrás das iniciais A. L.. Na legenda da fotografia existente no Barreiro, nas notícias das listas telefónicas e das incrições no Bottin, no cartão de visita deixado nos “Ponts et Chaussés” de Montpellier, na designação de “director científico” da única obra que, a nosso conhecimento, publicou, Stinville mantém-se, teimosamente e apenas, A. L. Stinville.
b) É assim que até ao mês de Maio de 2004 se manteve o desconhecimento inicial quanto ao que as iniciais A. L. poderiam significar. Havia quem no Barreiro defendesse que poderiam significar “André Louis”, mas nenhuma razão objectiva, nem mesmo a memória ou a tradição oral, suportava, em nosso entender, essa hipótese [18].
c) Com base em sugestões levantadas pela “pista Balaruc-les-Bains” [MBLB,2002] abrimos então duas novas acções. Quanto à primeira, tínhamos já registado da consulta aos locais genealógicos da “net” que, entre 1891 et 1915, dez Stinville tinham nascido em França, nos departamentos do Marne (6), Paris (3) et Val de Marne (1). Ainda neste período, as comunas em que estes nascimentos se verificaram era a seguinte, por ordem decrescente: para o Marne: Vertus, Toges et Oger ; para o Sena / Paris : Paris 5e, Paris 14e. et Paris 17e ; e para o Vale do Marne : Vincennes. Estas indicações foram confirmadas pela seguinte informação prestada pela Mairie de Ballaruc-les-Bains [MBLB,2002]: « Na brochura Noms de Famille de France et Leur Localisation [Nomes de Família de França e a sua Localização] editada por Laurent FordantT (A.D. Héraut U.A.1178-2) : o nome de Stinville está presente de 1891 a 1990 nos departamentos 51 (Marne) e 94 (Vale do Marne) e particularmente em Vertus (Marne) onde se podem encontrar mais Stinville”. Quanto à segunda diligência, procurar-se-ia saber se a Société des Industries Chimiques CUF, que admitíamos ter sido constituída em Paris, figurava no registo comercial dessa cidade — isto como primeiro passo para o conhecimento da sua constituição e, portanto, da identidade dos seus accionistas-fundadores.
d) Para atingir o primeiro objectivo, abrimos uma nova via de diálogo, agora com os Archives Départamentales de la Marne [ADMARNE,2003], de Châlons-en-Champagne, procurando conhecer os Stinville nascidos em Vertus numa janela temporal compatível com a presumível idade de A. L. Stinville, com a presença das iniciais e dirigida sobre a comunidade de Vertus. Uma primeira conclusão negativa levou-nos a solicitar àquela entidade uma nova investigação dos registos de nascimento mas agora dirigida para a comuna de Oger. A resposta recebida mostrou-se promissora e trouxe-nos 6 certificados de nascimento dentro da janela temporal seleccionada mas, destes, apenas um tinha nomes próprios que permitiam hipotreticamente “construir” as iniciais A. L Tratava-se de Louis, Clément, Abraham Stinville, nascido em Oger a 16 de Março de 1870, filho de Narcisse Joseph Stinville e de Elisabeth Alexandrine Husson, registo de nascimento nº 2 E 483/11, acto nº 1, dos nascimentos de 1870, infelizmente sem qualquer averbamento posterior [19]. Durante meses, à falta de melhor, este seria — como hipótese — o “nosso Stinville”.
e) O segundo objectivo veio a mostrar-se decisivo, demolindo a hipótese anterior! A tentativa de conhecer, junto dos Archives de Paris se existiria alguma inscrição no registo comercial da Société des Industries Chimiques CUF teve uma resposta positiva [ADP,2004]. E, de facto, para além da indicação referente à data/ordem de inscrição, designação comercial, objecto social, sede social (14, Rue Chauveau Lagarde, Paris 8éme), capital social, tipo de sociedade (S.A.), marcas de fábrica e
observações (incluindo a indicação da posterior dissolução), mencionava — na coluna “identificação dos comerciantes” — dados importantes sobre a identidade de A. L. Stinville, identificando-o finalmente como AUGUSTE LUCIEN Stinville. Tínhamos, pela primeira vez e sem via conjectural, chegado a um nome completo do engenheiro francês.

5. A DATA E O LOCAL DO NASCIMENTO
a) No mesmo registo comercial da Société des Industries Chimiques CUF e na mesma coluna “identificação de comerciantes” indicava-se a data de 19 de Julho de 1864 e Paris como local e data de nascimento de Auguste Lucien Stinville, da mesma forma que se identificavam as datas e locais de nascimento de Alfredo da Silva (esta infelizmente errada quanto ao ano, indicando 1872) e D. Manuel de Mello. Seguidamente à indicação de Paris, parece haver – de forma dificilmente legível – um caracter isolado que, parecendo-nos um “f”, admitimos tratar-se fa indicação abreviada da nacionalidade ( f = francês, diferindo da indicação de nacionalidade portuguesa feita para os restantes fundadores).
b) Em 2004, a estudante barreirense Ana Salvador, aluna da Sorbonne, investigou, nos Archives de Paris, os actos de nascimento do período 1860-1872 para os 20 “arrondissements” parisienses, não detectando qualquer acto de nascimento referente a Auguste Lucien Stinville [SALVADOR,2004].
c) Assim, o desconhecimento exacto do “arrondissement” e o conhecimento das vicissitudes do registo civil parisiense anterior aos acontecimentos da Comuna (1871) [20], fizeram-nos recorrer ao Bureau des Mairies, indicado para estas situações, ao qual dirigimos uma consulta que ainda não teve resposta. Certo é que o erro na indicação na data do nascimento de Alfredo da Silva no registo comercial da SIC-CUF não é tranquilizador, pelo que estamos igualmente a procurar obter, onde possível, uma reprodução da escritura de constituição dessa sociedade.

6. O(S) DOMICÍLIO(S) DE A. L. STINVILLE
a) A “ronda” de consultas de 2002 informou-nos que A. L. Stinville figurava como «engenheiro-construtor» nas edições de 1920, 1925 e 1930 do Bottin du Commerce de Paris, em que mantinha o endereço 14, rue Chauveau-Lagarde, Paris [CCIP,2002]. Mas o seu nome não constava do caderno eleitoral parisiense (1920-1939), nem dos recenceamentos da população de 1926 e 1930 [ADP/CCIP,2002]. Assim, o 14 rue Chauveau Lagarde deverá ser considerado como o seu domicílio profissional em Paris, mas não a sua residência — tornando inviável uma identificação mais precisa por esta via [CCIP, 2002] [21].. Esta conclusão está confirmada pela fotocópia de um cartão de visita de « A. L. Stinville », de 1926, em que este endereço está indicado como “escritório” [«bureaux»], com o telefone « Central 87-96 ». Infelizmente, ao não nos dar mais que o apelido e as já conhecidas iniciais A. L., este cartão de visita pouco viria acrescentar a não ser o referido significado e a já referida prática de não esclarecer os nomes próprios [MBLB,2002] [22]. Outras buscas, como as então empreendidas pela Chambre de Commerce et Industrie de Paris nos seus arquivos, em que se inclui a lista de eleitores consulares de 1919 — a única que, nesse arquivo, se poderia referir ao período de provável actividade profissional de Stinville — nada produziram [CCIP, 2002].
b) As pesquisas conduzidas por Ana Salvador [SALVADOR,2004] nos Arquivos de Paris, cobriram as menções a A. L. Stinville no já referido anuário Bottin du Commerce e delimitaram, no tempo, essas menções (indicam-se os anos em que surgiram alterações, mantendo-se inalteradas as menções nos períodos intermédios) :
Ano do Bottin
Menção
Endereço
Telefone
Endereço Telegráfico:
--------
≤1906
Não vem mencionado no Bottin
---
---
--------
1907
STINVILLE, A.L. ingénieur
Square Pétrelle, Paris IX ème
287 96
--------
1908
Idem
Rue de Londres, 56 Paris VIII ème
287 96
Austinvlle - Paris
--------
1916-17
STINVILLE, A.L., ingénieur constructeur
14, rue Chauveau Lagarde Paris VIII ème
AL 87 96
AuSTINVILLE – Paris
--------
En 1931 :
STINVILLE, A.L., ingénieur constructeur
14, rue Chauveau Lagarde Paris VIII ème
Centr 87 96
AuSTINVILLE – Paris
--------
En 1933 :

STINVILLE, A.L., ingénieur constructeur
14, rue Chauveau Lagarde Paris VIII ème
Anjou 3696
AuSTINVILLE – Paris
--------
En 1934 :
STINVILLE, A.L., ingénieur constructeur
14, rue Chauveau Lagarde Paris VIII ème
Centrale 3696
AuSTINVILLE – Paris
--------
No Bottin 1935 já não vem mencionado [22A]
--------
Foi igualmente confirmada a ausência de A. L. Stinville nas listas eleitorais de Paris, de 1906 e 1908 [SALVADOR, 2004]. Uma interessante conclusão desta pesquisa é que, ao tempo do seu trabalho inicial para a CUF ainda não tinha o seu escritório no 14, rue Chauveau Lagarde, onde, anos depois, localizaria grande parte da sua vida profissional (pelo menos de 1916 a 1934) [23, 23A]
c) O facto de ainda desconhecermos qual a sua residência — e de, aparentemente, esta não se situar dentro de qualquer “arrondissement” de Paris e possivelmente na “banlieue” — dificulta-nos, certamente, a pesquisa de elementos com base na sua vida civil e política [23B].

7.Formação académica / profissional e experiÊncia industrial
a) A consulta generalizada que dirigimos a escolas e entidades — e que estamos dispostos a reiniciar noutros moldes, como referido no ponto 3 c) e seguintes deste texto — destinava-se exactamente ao conhecimento da formação académica / industrial de Stinville. Para além da já assinalada possibilidade dessa formação poder resultar da frequência de uma Faculdade de Ciências, prosseguida por uma actividade química na indústria, e da hipótese algo remota, mas não de excluir, de poder ter sido adquirida fora de França, a verdade é que, até ao momento, essa busca se revelou estéril — bem como estéril se revelou a procura de uma eventual participação de Stinville em associações ou sociedades profissionais ou científicas contactadas. Há aqui, certamente, um longo caminho ainda a percorrer.
b) Abordaremos, a devido tempo, o que existe sobre o estabelecimento da relação cliente / fornecedor entre Alfredo da Silva e A. L. Stinville. Avisado e conhecedor como era, Alfredo da Silva não teria designado o engenheiro construtor para as Fábricas do Barreiro sem que tivesse conhecimento de uma experiência industrial anterior suficientemente rica para determinar essa escolha. As actas do conselho de administração da Companhia União Fabril nada nos esclarecem quanto a esse precedente, salvo num pequeno pormenor: a deliberação final e definitiva sobre a produção de superfosfatos no Barreiro e a contratação de A. L. Stinville não é tomada antes de ter sido recebida uma carta de um Sr. Jorge Lefebvre, em resposta à que Alfredo da Silva lhe escreveu (acta de 6 de Junho de 1907; vide ANEXO). Quem era Jorge Lefebvre? E a sua carta, certamente abonatória, era-o do negócio ou do engenheiro-construtor?
c) Facto é que, pelos conhecimentos que fomos agrupando, Stinville demonstra uma “bagagem tecnológica” muito diversificada, de que destacamos os seguintes conhecimentos específicos [os 5 primeiros e o 7º usados nas fábricas do Barreiro, em instalações que ele próprio projectou ou que foram construídas de acordo com as suas especificações]::
· o processo de fabrico de ácido sulfúrico por câmaras de chumbo, com câmaras clássicas (“box chambers”);
· o fabrico de superfosfatos (“malaxage”) [23C]
· o fabrico de ácido clorídrico e de sulfato de sódio por reacção do ácido sulfúrico com sal;
· a “lessivage” [23C] i.e. lexiviação das cinzas de pirite, para recuperação do cobre;
· a produção de sulfato de cobre;
· o despoeiramento electrostático de gases (processos Cotrell e Cotrell-Möhler) (1918);
· a “frittage” [23C] i.e. sinterização de cinzas de pirite após cloruração, para lhes conferir valor siderúrgico (1925);
· a produção de alumínio (1925); e
· a redução de minérios de ferro em fornos rotativos da indústria cimenteira (processo BASSET), relativamente ao qual assume uma posição crítica (1937).
Acresce que, em estreira ligação com Alfredo da Silva e os seus colaboradores portugueses e franceses , estes destacados da fábrica de Alferrarede, Stinville estabelece, em 1907, os arranjos essenciais dos serviços e utilidades de um complexo fabril como o Barreiro. Directa ou indirectamente, acompanha a construção, o arranque das instalações industriais e providencia a delegação de engenheiros e de técnicos expatriados. Estas provas de uma capacidade de realisar e de uma organização estável demonstram que o “atelier” de Stinville estará por detrás de outros grandes projectos — longe certamente de se limitar ao cliente português, por importante que este tenha sido. A afirmação de que teria participado na instalação de electrofiltros em Hoboken [VASCONCELOS,1934] é disso confirmação, para já isolada. Resta-nos procurar outras realizações industriais em que o engenheiro-construtor Stinville tenha necessariamente estado ocupado durante a sua longa vida profissional [24].

8. BIBLIOGRAFIA PUBLICADA
a) Ao que sabe/mos, a única obra que Stinville publicou foi impressa em Paris, em 1918. Trata-se de uma monografia de 42 páginas intitulada Procédés Cottrell. Précipitation électrique des particules en suspensions dans les fluides [Processos Cottrell: Precipitação eléctrica de partículas em suspensão em fluidos], em que, significativamente, A. L. Stinville (sempre A.L.!) figura como «editor científico» e não como «autor». Esta monografia está referenciada nos catálogos actuais de duas das mais representativas bibliotecas de Paris: a BNF e a Biblioteca Sainte Geneviéve [25] [TUDELA, 2002].
b) O exame desta brochura surpreende. Trata-se de um excelente documento de divulgação e de propaganda, com o “estado da arte” da precipitação electrostática de partículas em suspensão nos gases (processos Cottrell), com exposição do princípio e ilustração e documentação de numerosos exemplos de aplicações norte-americanas, essencialmente nos ramos cimenteiro, metalúrgico, siderúrgico, químico e de outras indústrias, embora com referências a exemplos japoneses e europeus (estes em menor extensão — o que se entende, pela referência quase exclusiva a unidades construídas na Europa antes da I Grande Guerra). As finalidades de protecção ambiental, de recuperação e de purificação em instalações industriais são devidamente demonstradas e sublinhadas. Mencionando o êxito dos desenvolvimentos e patentes do Prof. F. G. Cottrell e a constituição, por este, de três sociedades nos Estados Unidos, para a comercialização, desenvolvimento e aplicação da tecnologia [26] — Research Corporation, New York, Western Precipitation Co, Los Angeles e Philadelphia, e International Precipitation Co, Los Angeles — o texto ou assume um sujeito impessoal (“on mesure…”, “on a trouvé par exemple que…”) ou usa a primeira pessoa do plural (“nous avons obtenu, aux États Unis, l’autorisation de faire des essais…” , “nous allons, maintenant, examiner les résultats obtenus dans nos installations industrielles…”). Concluímos assim que, tendo Stinville por alguma forma obtido representação ou exclusivo em França das sociedades americanas Cottrell, esta monografia, provavelmente, não passará de uma tradução francesa de um excelente texto de divulgação de origem norte-americana ou de uma compilação de elementos e dados técnicos provenientes dos Estados Unidos e destinada a ser difundida pela indústria francesa. Daí a designação de “editor científico” e não de “autor” que Stinville terá escolhido para a apresentação da obra. Daí também a permanência de Stinville neste ramo em 1934, como um dos concessionários das patentes Cottrell-Möhler e a referência a realizações em Hoboken (Bélgica), como então mencionado pelo próprio Stinville [VASCONCELOS,1934] [26A].
c) Com base na referida monografia, de que recentemente obtivemos uma reprodução, consideramos útil esclarecer — junto das sociedades americanas e das instituições a que deram origem — qual a verdadeira natureza do texto e quais os contactos que, em arquivo, possam dispor sobre A. L. Stinville. É uma outra via que fica para explorar. [26B]

9. O conhecimento DE Alfredo da Silva e a colaboração com a CUF
a) Os antecedentes e pormenores do encontro de vontades entre o investidor português e o engenheiro construtor francês constituem certamente um tema muito interessante para investigação futura. Há muitas questões em aberto e os índices e hipóteses já levantados sobre este tópico [CRUZ, 2002-3 ; SILVA et al, 2003] não passam de um ligeiro intróito. Para uma lista preliminar de pontos-chaves a reter para um tratamento futuro, não deixaremos de referir o singular curriculum académico de Alfredo da Silva, com uma conteúdo técnico-científico que surpreende num Curso Superior de Comércio, bem como a sua clara noção do papel da indústria para acrescentar valor num País ainda agarrado a uma vocação essencialmente agrícola, as suas frequentes viagens e contactos na Europa Central, o seu excelente conhecimento da indústria química, dos mercados e das finanças europeias. Interessante é saber qual a posição de Stinville na permuta científica, tecnológica e cultural entre Portugal e a França no fim do sec XIX / início do sec. XX, como a nota de fim de texto nº 17 deixa também antever.
b) Já levantamos por diversas vezes esta questão e, até ao momento, os dados são escassos sobre o assunto. Pareceu-nos útil transcrever, como ANEXO, os fragmentos de actas do conselho de administração da Companhia União Fabril que, directa ou indirectamente, se referem a Stinville e/ou aos engenheiros, técnicos e operadores franceses por este delegados ou com sua intervenção escolhidos para as Fábricas do Barreiro. São, até ao momento, os elementos mais elucidativos de que dispomos embora — como já notamos — seja muito desigual, no tempo, o seu desenvolvimento, ao ponto de serem totalmente omissos quanto à cessação, em 1927, do cargo de Director Técnico das Fábricas do Barreiro, como designação, para tal cargo, do Eng. Eduardo Bravo Madaíl [CUF,1958].
c) Independentemente de tudo o resto, a consulta de Alfredo da Silva a Stinville sobre o “processo Basset” [que se pensava então montar nos Cimentos Tejo] e a detalhada resposta deste, em Novembro de 1937 [PEREIRA, 2002], demonstram a manutenção de uma relação de confiança e manifesta cordialidade.

10. MORTE: DATA E LOCAL
a) Robert MacKie e Gerrylynn Roberts, em comunicação já citada [MACKIE e ROBERTS, 2002], referem o interesse biográfico das notícias necrológicas, citando alguns exemplos. Destacaremos, de entre estes, o caso concreto de Percy Parrish, homem a quem o Barreiro também deve um contributo tecnológico a registar e que, ainda que temporalmente breve, se pensa ter sido prosseguido nos anos subsequentes por seu(s) sucessor(es) [27].
b) Para delimitar a “linha de partida” para a busca de uma notícia necrológica sobre A. L. Stinville, procuramos conhecer a última menção a este no Bottin du Commerce, como referido no ponto 6 b) da presente memória. Esperávamos fosse posterior à última notícia em nosso poder, que corresponde às já referidas cartas de Novembro de 1937 [PEREIRA, 2002]. Infelizmente não foi assim, pelo que uma “linha de partida” tem que ser localizada nesta última data e de considerar que o falecimento de A. L. Stinville tenha ocorrido numa data posterior ainda desconhecida mas depois (ou mesmo muito depois) de Novembro de 1937.
c) Só muito recentemente, e de forma meramente tentativa, iniciamos alguns contactos nesta linha de pesquisa. De facto, sem o conhecimento mais completo da identidade de A. L. Stinville, como recentemente obtido, seria praticamente impensável uma busca deste tipo.
Subsistem, porém certas limitações e receios:
· o desconhecimento da filiação de A. L. Stinville em qualquer associação profissional ou de outro tipo, afasta a possibilidade de menções como as exemplificadas pelos supra referidos autores britânicos;
· a possibilidade de A. L. Stinville ter residido (e falecido) fora de Paris, mesmo que na “banlieue”, dificulta sensivelmente qualquer busca;
· a eventualidade de ter falecido já durante a II Grande Guerra (1939-1945) pode constituir uma dificuldade adicional.

11. EVENTUAL EXISTÊNCIA DE UM FUNDO OU ACERVO DOCUMENTAL DE A. L. STINVILLE
Do anteriormente exposto, resulta natural a resposta a este quesito — que se mantém “pró memoria” na sistemática do presente texto e está ainda totalmente em aberto. Sugere-se, do lado português, o início do seu estabelecimento no Barreiro, no quadro das pesquisas sobre o destino dos arquivos históricos CUF-QUIMIGAL. Que esta memória possa servir para isso.

12. CONCLUINDO
Fez-se um resumo do que até ao momento se conseguiu, tendo partido do “quase nada”. Recebemos diversas e variadas colaborações e ajudas, que procuramos deixar registadas nas referências deste texto.
Quanto aos objectivos da presente memória, retomaremos uma frase da carta-resposta recebida do Clube d’ Histoire de la Chimie da Société Française de Chimie: “Este químico [Stinville] parece de facto apresentar um grande interesse e o aprofundamento do seu itinerário científico seria de grande utilidade”. [CHC/SFC,2002]

Barreiro / Lisboa, Outubro de 2004
(Revista em Setembro e Novembro de 2005)

- - - « « « «» » » » - - -