janeiro 31, 2006

“História da Informática em Portugal: o Subsistema de Informação da CUF/QUIMIGAL”, por J. M. Fernandes de Almeida

Dentro do espírito deste “blog” cabe dar conta deste interessante artigo, integrado no volume de que os Profs. Eduardo Beira e Manuel Heitor foram editores e que, publicado em Dezembro de 2004 sob o título “Memórias das Tecnologias e dos Sistemas de Informação em Portugal” pela Associação Industrial do Minho, se liga ao homónimo projecto “memTSI” (www.memtsi.dsi.uminho.pt).

Na abertura do livro, sob a epígrafe “Introdução: Projecto memTSI e História Oral”, o Prof. Eduardo Beira – que defende um objectivo muito próximo ao deste “blog” e que louvavelmente esbate, de forma realista, a arriba que, por vezes, artificialmente se insinua entre tecnologias e ciências sociais [1] – refere-se ao aludido artigo do seguinte modo: “Um trabalho de José Fernandes de Almeida traça a história da informática num dos mais importantes grupos económicos portugueses até à década de 80: a Cuf / Quimigal. Espera-se que este contributo incentive uma exploração mais completa da história da informática em empresas portuguesas, numa perspectiva de história empresarial.” [2]. Bom conhecedor dessa realidade é o Prof. Fernandes de Almeida, que foi chefe de serviços de 1973 a 1979 e director em 1980 e 1981 da Direcção de Informática da CUF/Quimigal e que, por saber de experiências feito, dessa prática exprime claramente as suas memórias, louvavelmente não esquecendo os nomes de muitos dos que então foram seus colegas e colaboradores [3].
O artigo referido está acessível na “net” através do “link”

http://www3.dsi.uminho.pt/memtsi/livros/mesa8.pdf [4]
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[1] Vd. POIRIER, Jean (dir.) « Ethnologie Générale », Paris, ed. Gallimard, encyclopédie de la Pléiade, 1968 e o primeiro volume (« L’Évolution des Techniques») da obra de LEROI-GOURHAN, André, « L’Homme et la Matiére », Paris, ed. Albin Michel, 1992 [1943/1971]
[2] Poderá constituir interessante tema, para abordar num futuro próximo, a aplicação do método CPM/PERT à planificação da construção do “Contacto 5”, nas Fábricas do Barreiro, entre 1964 e 1966.
[3] E que assim ficam referidos, para a história da Empresa nesta importante área.
[4] No caso de dificuldades a abrir este “link”, proceder do seguinte modo: (a) abrir a hiperligação www.memtsi.dsi.uminho.pt (b) procurar a obra referida de entre as que estão expostas à direita na folha (é a segunda, de cima para baixo) (c) clicando nesta, abre-se um índice onde se encontrará o artigo referido (sem número, mas logo a seguir ao 7, como antepenúltimo item) (d) clicar no indicativo “Adobe Acrobat” deste, para abrir.
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janeiro 06, 2006

Foto atribuída a A. L. Stinville, data desconhecida [CUF,1958].

MEMÓRIA SOBRE A. L. STINVILLE - 1ª Parte

MEMÓRIA SOBRE A. L. STINVILLE, ENGENHEIRO-CONSTRUTOR FRANCÊS
[1,2]
J. M. Leal da Silva


Uma justificação prévia (dezembro de 2005):
O texto que se segue representa o desenvolvimento e estado da pesquisa conduzida sobre a figura a todos os títulos especial e enigmática de A. L. Stinville, que foi o engenheiro-construtor francês escolhido em 1907 por Alfredo da Silva para a realização das Fábricas de Santa Bárbara, da CUF, no Barreiro, Portugal.
Decorreram vários anos entre a constatação do pouco que se sabia sobre Stinville e a descrição feita neste “texto de posição”. Reporta-se este a Outubro de 2004, por razões de emergência que se explicam, embora com ligeiros ajustes efectuados em Setembro e Novembro de 2005 – a propósito da apresentação de um “poster” sobre este tema na 5ª Conferência Internacional da História da Química, que teve lugar em Lisboa e no Estoril no primeiro daqueles meses.
As diligências efectuadas e a sua difusão pela “net” contribuiram para progressos de relevo no 4º trimestre de 2005, que se espera poder brevente revelar e que vieram confirmar uma grande parte das hipóteses formuladas.
Parece importante apresentar este trabalho no seu estado praticamente original, como exemplo das possibilidades duma “investigação teleguiada”, ou seja, quase totalmente desenvolvida à distância.
Este texto tem, além da versão original em Português, uma versão em Francês, igualmente disponível.

Pequeno comentário a abrir
(Outubro, 2004) :
Circunstâncias recentes, não desejáveis nem desejadas, vieram-nos demonstrar como pode mostrar-se contraditória uma acumulação de pesquisa sem qualquer divulgação intermédia, correndo o risco de — por inesperado impedimento — se poder perder ou dispersar o que entretanto foi recolhido. Preferimos, assim, divulgar imediatamente o que já existe, ou seja, o que obtivemos até aqui sobre a personagem “cerrada” que foi A. L. Stinville, engenheiro construtor francês contratado por Alfredo da Silva, em 1907, para realizar física e tecnologicamente [em Portugal} as Fábricas de Santa Bárbara, ou Fábricas do Barreiro, da Companhia União Fabril. Mostra este texto que há certamente muitos caminhos ainda a percorrer: seja por nós, seja por outros, alguns ficam aqui sugeridos. Todos ganharemos com isso.

1. STINVILLE E O BARREIRO
a) Quando, no início do sec. XX, o grande industrial português Alfredo da Silva (1871-1942) [3], fundador do « Grupo CUF », quis desenvolver em Portugal um centro industrial moderno para a produção de adubos fosfatados, extracção de óleos vegetais e produção de produtos químicos inorgânicos, capaz de concorrer com outros grandes complexos industriais europeus, viu-se perante a imperiosa necessidade de proceder a várias opções essenciais para o sucesso do projecto:
Destas opções, sublinharemos as três seguintes:
i) a escolha de um terreno livre e amplo, geograficamente bem localizado, com água disponível, servido por caminho de ferro e com possibilidade de realização de um porto de águas profundas — requisitos que, não integralmente satisfeitos noutras localizações possíveis, foi encontrar no Barreiro, concelho situado em frente a Lisboa, na margem esquerda do estuário do Tejo;
ii) o possível emprego e valorização de recursos naturais do país (como a pirite complexa, fonte de enxofre e de cobre, e o sal, no que pudessem contribuir para os fabricos considerados) e o acesso a outros essenciais factores de produção (mão de obra, financiamento); e
iii) a aquisição de uma engenharia (incluindo tecnologia) fiável, procurando um engenheiro construtor com domínio de conhecimentos químicos, capaz de levar a cabo a aplicação desses recursos e de gerir (ou de fazer gerir) a construção de um complexo industrial, que incluísse as unidades industriais directamente ligadas aos processos produtivos e ainda todos os serviços exigidos por uma lógica integrada, num país em que a tradição industrial era evidentemente escassa. É assim que A. L. Stinville entra na história da CUF e das suas “Fábricas do Barreiro” e, por estas, na história da indústria química em Portugal.
b) Uma incursão nas actas do Conselho de Administração da Companhia União Fabril, rapidamente celebrizada sob a designação abreviada de CUF, localiza no tempo e caracteriza o início e desenvolvimento dessas relações. Como veremos, a primeira referência a Stinville nesses textos data de 1907, a última de 1925. Quando Alfredo da Silva, adquiridos os terrenos no Barreiro e decidida a montagem de uma instalação de extracção de óleo, convence finalmente os seus colegas da administração quanto às inevitáveis vantagens de — também aí — concretizar uma produção nacional de adubos fosfatados com dimensão europeia [4], integrando o fabrico de ácido sulfúrico e outras produções e serviços num complexo industrial exemplar, tem já sob o braço, muito ao seu estilo, uma proposta do engenheiro construtor francês.
c) Nas actas desse período, as menções a Stinville e ao pessoal por este seleccionado e delegado para o empreendimento do Barreiro passam de uma frequência assinalável, na época heróica da construção e nas circunstâncias subsequentes, a uma sucessiva rarefacção. Embora mantendo em Paris a sede das suas actividades profissionais, Stinville ganha a confiança de Alfredo da Silva [5] e mantém na CUF, de 1907 a 1927, o cargo de “director técnico das Fábricas do Barreiro” [CUF,1958], fábricas em que se incluíam as já referidas instalações-âncoras (ácido sulfúrico, pelo processo de câmaras de chumbo, a partir da ustulação de pirites portuguesas, e adubos fosfatados — superfosfatos — com fosforite importada do Norte de África), sucessivamente acrescidas com unidades produtoras de ácido clorídrico e sulfatos alcalinos, de lexiviação de cinzas de pirite e de extracção do cobre das cinzas de pirite para produção de sulfato de cobre, além de outras (incluindo serviços auxiliares) que igualmente terá projectado ou especificado [6]. Estas importantes funções terão sido desempenhadas ao abrigo de contrato(s) de consultadoria. As instruções, planos, desenhos e restantes informações técnicas eram executadas em Paris e remetidas à CUF e revestiam a forma de relatórios regulares. Desde o período de concepção inicial, de construção e de arranque, Stinville visitou algumas vezes o Barreiro, geralmente com estadias pouco prolongadas. Coube-lhe igualmente a selecção e colocação de pessoal expatriado em Portugal, desde engenheiros (de que se recordam os nomes de Maire e Pelet, na fase de construção, e de Castera no prosseguimento das operações, este ultimo de especial apreço por parte de Alfredo da Silva, ao ponto de procurar o seu licenciamento do exército francês e o seu regresso rápido ao Barreiro, logo na semana subsequente ao termo da I Grande Guerra), a encarregados e mestres franceses para apoiar as instalações na sua marcha regular. Ainda nos anos 60 subsistiam evidentes “galicismos” no calão industrial do Barreiro.
d) Em 1925 a colaboração com Alfredo da Silva adquire uma nova dimensão. O industrial português, então voluntariamente exilado como consequência da insegurança política que agitava Portugal ao ponto de ter milagrosamente escapado a diversos atentados, formaliza — em associação com Stinville, o seu genro D. Manuel de Mello e a empresa que havia estabelecido como “holding” do seu Grupo industrial (a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lda, abreviadamente a “Sociedade Geral” ou “SG”) — a constituição, em Paris, de uma sociedade industrial de lei francesa, sob a denominação de Société des Industries Chimiques CUF, S.A. [por vezes também abreviada como SIC-CUF] [7]. Segundo uma das biografias de Alfredo da Silva [MIGUEL, 1971], essa sociedade, que sob o ponto de vista patrimonial adquire terrenos em Balaruc-les-Bains, Hérault, mas não ultrapassa a fase de projecto, destinava-se à produção de alumínio, utilizando a energia eléctrica produzida a baixo custo nos vizinhos Pirinéus. De facto, o seu objecto social era mais vasto e curioso: “Exploração de minas e pedreiras. Compra e venda de corpos simples e compostos” [ADP,2004]. Numa carta à Gerência da Casa Totta, a vertente bancária do seu Grupo, escrita de Paris a 22 de Março de 1925, Alfredo da Silva explica o objectivo estratégico da criação dessa sociedade [FARIA,2004] — que o registo comercial francês vai dar como “liquidada” em 1933. [ADP,2004].
e) De acordo com o álbum “Os 50 Anos da CUF no Barreiro”, editado pela empresa em 1958 [CUF,1958], Stinville, cessando as suas funções como director técnico do Barreiro em 1927, é substituído, nesse cargo, pelo primeiro director técnico português, Eng. Eduardo Bravo Madaíl [8] . A data exacta dessa substituição não é ainda conhecida e, surpreendentemente, não se encontrou qualquer referência ao assunto nas actas do conselho de administração da sociedade referentes àquele ano. No entanto, a 30 de Julho de 1927, numa carta um tanto ríspida dirigida a um jovem engenheiro da Secção Técnica da CUF [9] que levantara reservas a uma concepção técnica de pormenor proveniente de Stinville, Alfredo da Silva — já definitivamente regressado a Portugal — confirma que este continua a ser o “engenheiro construtor” da CUF [PEREIRA,2002].
f) Em 1931, Stinville recebe, no seu escritório de Paris, a visita do médico português Dr. Manuel de Vasconcelos, inspector chefe dos Serviços de Higiene da Trabalho e das Indústrias, enviado em missão oficial à Holanda e à Suíça para tratar os casos mais sensíveis de emissões industriais, nomeadamente no Barreiro. Este médico redigiu um relatório de viagem, divulgado em Portugal em 1934, em que referia as conversas tidas com o “Engenheiro Stinville”, “consultor da CUF” e “um dos concessionários da patente Cottrell – Möller” para instalações de despoeiramento electrostático, que o próprio Stinville teria montado nas instalações industriais belgas de Hoboken [VASCONCELOS, 1934].
g) Em Novembro de 1937, Stinville dá ainda provas da sua actividade como consultor, em Paris, embora provavelmente já não mantivesse o seu escritório no 14, rue Chauveau Lagarde. Em duas cartas, datadas de 9 e 17 de Novembro daquele ano [das quais só conhecemos as respectivas transcrições dactilografadas], responde a perguntas de Alfredo da Silva sobre o “Processo Basset” para redução directa de minérios de ferro em fornos rotativos da indústria cimenteira, mostrando-se bastante crítico quanto ao referido processo e demonstrando um razoável conhecimento de alguns aspectos sensíveis dos negócios siderúrgicos em França. Procurando dissuadir Alfredo da Silva de uma atracção siderúrgica, mormente por aquele processo, acrescenta, na primeira dessas cartas, que está “em muito boas relações com M. Metayer, (professor de Metalurgia na École Centrale des Arts et Manufactures e administrador de três grandes empreendimentos metalúrgicos: Aciéries du Nord, Denain-A et Trignac)”, que também teria estudado, em pormenor, o referido “processo Basset”. [PEREIRA, 2002] .

h) Se, felizmente, o conhecimento sobre Alfredo da Silva cresce, o que continuamos a saber sobre A. L. Stinville não está certamente proporcionado à sua contribuição para a realização do complexo industrial da CUF no Barreiro. Uma porção significativa dos arquivos históricos da CUF está dispersa e permanece desaparecida, parte da qual se admite perdida não apenas pelos actos dos homens mas também por efeito de causas naturais como o ciclone de 1941 e as inundações de 1967, na região de Lisboa. Não obstante, uma amostra razoável dos seus planos técnicos e desenhos, ainda que aqui e além modificados e recopiados várias vezes, permanece no Barreiro e dá uma ideia clara e suficiente da capacidade daquele engenheiro-construtor para estabelecer — em 1907 — uma disposição (“lay-out”) exemplar do complexo, para utilizar de forma adequada os materiais então mais aptos para a indústrias químicas que instalou e para demonstrar a sua presença no melhor “estado da arte” dos processos químicos requeridos. No Barreiro igualmente se encontra o único retrato conhecido de Stinville, que demos acima e que o álbum dos “50 Anos da CUF” publicou [10].

i) Nos nossos dias, o nome de Stinville permanece na memória e na toponímica da cidade do Barreiro. No velho bairro operário de Santa Bárbara, de que subsiste uma parte muito representativa, uma “rua Stinville” junta-se às ruas que homenageiam os grandes responsáveis pelo desenvolvimento da indústria químico-adubeira nos secs. XIX / XX (Berthelot, Liebig, Dalton, Gay-Lussac, Lavoisier e Lawes). Por isso, qualquer pesquisa que hoje se faça na “net”, sobre o conceito “Stinville”, para além de referências personalizadas diversas, trará sempre menções ao Barreiro (Portugal) tal como — por outras razões toponímicas — a Paris ou a Charenton-le-Pont. Ainda que pouco subsista das instalações projectadas por Stinville para o que foram as Fábricas da CUF no Barreiro, salvo as peças desenhadas, a memória fotográfica [CABRITA, 1999], alguns edifícios em tijolo na parte oriental da designada “zona sul do actual “parque empresarial” da Quimiparque [10A] e talvez o remorso histórico de não terem sido poupados alguns “testemunhos” significativos [11] , a cidade do Barreiro mantém, em Portugal, um importante papel no que toca à indústria química.

2. UM “mistério Stinville” ?
a) Data possivelmente da segunda metade de 1999, ao ordenarem-se conhecimentos sobre Alfredo da Silva, a constatação de um facto surpreendente, mas real: eram deveras escassos os elementos disponíveis sobre A.L. Stinville [12] . Nem o seu nome completo, escondido por detrás das iniciais A. L. era conhecido. Sabia-se do papel importante que tivera na concretização das ideias de Alfredo da Silva, citava-se o contributo tecnológico que trouxera para as Fábricas do Barreiro — mas, fora disso, pouco mais se conhecia [CUF,1956; MIGUEL, 1971].
b) Essa primeira constatação foi encarada com ingenuidade e optimismo. Dada a capacidade técnica do “procurado”, que esperávamos ver reflectida em fontes francesas do seu tempo, e porque Stinville é um patronímico relativamente pouco frequente, em França, como havíamos ficado cientes após uma visita efectuada à Alliance Française, em Lisboa, prévia ao início das investigações [13], não seria difícil encontrar em França - mesmo que numa busca conduzida à distância e com meios e tempo assaz limitados - uma via de pesquisa que conduzisse fácil e rapidamente às “respostas” que sobre A. L. Stinville queríamos obter.
c) E o que queríamos saber sobre A. L. Stinville? Desde início organizamos uma pequena listagem de quesitos que nos pareciam essenciais, uns, ou importantes, outros, Não é difícil adivinhar essa lista, conhecendo o relativo “deserto” de que partíamos:
· Nome completo;
· Local e data de nascimento;
· Domiciliação;
· Formação académica / profissional e experiência industrial ;
· Bibliografia publicada;
· Quando e como travou conhecimento com Alfredo da Silva e como iniciou a sua colaboração com a CUF; Data e local da sua morte.
· Eventual existência de um fundo ou acervo documental e, caso afirmativo, como lhe aceder.
d) Ao listar estes interesses não estávamos longe, para um caso singular e preciso, do exercício que ROBERT MACKIE e GERRYLYNN ROBERTS iriam mais tarde descrever numa interessante comunicação sobre um extenso projecto de recolha biográfica e estabelecimento de uma verdadeira « base de dados » acessível a estudiosos, por recolha das biografias de químicos britânicos que activamente trabalharam no seu país e/ou que, mercê de contratos de projecto ou de consultadoria, contribuiram para o desenvolvimento da indústria química noutros países [MACKIE e ROBERTS, 2002]. Rapidamente iríamos concluir como a “nossa listagem” se mostrava ambiciosa.

2. AS PRIMEIRAS TENTATIVAS E AS “CONSULTAS GENERALIZADAS”
a) Com os escassos elementos que dispúnhamos e depois de uma extensa pesquisa na “net”, que se revelou limitada em conclusões, elaboramos, em 2000, um primeiro memorando em francês sobre A. L. Stinville. A finalidade desse primeiro texto (e das suas posteriores revisões) era a realização de consultas, que prevíamos fazer em três planos escalonados no tempo:
· colocando o memorando na “net”, nos circuitos de genealogia franceses;
· efectuando uma consulta postal a portadores identificados do patronímico Stinville;
· remetendo uma primeira consulta sobre A. L. Stinville a escolas superiores de engenharia química francesas e a associações ou instituições francesas com potencial interesse quanto ao tema.
b) Dentro do primeiro destes objectivos, contactos personalizados com canais de genealogia (e com genealogistas) franceses presentes na “net” não nos iriam levar a quaisquer resultados concretos, para além de diversas demonstrações de interesse, de apoio e de incentivo amavelmente transmitidos e de informações e sugestões de ordem geral que se mostrariam efectivamente úteis para as fases subsequentes da investigação [14]. Citemos, entre estas, a distribuição geográfica do patronímico e a frequência de nascimentos de Stinvilles em França, por departamentos e comunas, em períodos com potencial interesse.
c) Como fundamento da segunda acção, admitimos que um primeiro inquérito por carta dirigida aos portadores do patronímico Stinville nas “páginas brancas” das listas telefónicas de França poderia rapidamente fornecer pistas significativas. Em Janeiro de 2000 enviamos seis cartas, com a seguinte distribuição geográfica de destinatários : Gers (1), Marne (1), Tarn (2), Tarn-et-Garonne (1) e Hauts-de-Seine (1). Tínhamos ainda 4 outros endereços, com a seguinte distribuição: Haute-Garonne (2), Gers (1) e Paris (1) que, por razões diversas, foram mantidos sob reserva para uma segunda fase, após avaliarmos os resultados positivos ou negativos da primeira — acabando por não ser enviados. Sabíamos, ainda, que um número desconhecido de assinantes Stinville do serviço telefónico mantinha os seus dados sob confidencialidade e ficariam, pois, fora desta acção. A mensagem remetida era bastante simples e algo ingénua: depois de uma breve descrição biográfica sobre A. L. Stinville e uma referência sumária dos objectivos do estudo, perguntava-se ao destinatário se era familiar ou se, sob qualquer forma, tinha conhecimento directo ou indirecto do A. L. Stinville que buscávamos. Sem que houvesse qualquer “devolução ao remetente”, o que permite admitir 100% de entregas, esta diligência — talvez vista pelos destinatários como uma intromissão não desejada ou uma acção publicitária escondida — saldou-se por um completo fiasco, com 0 % de respostas recebidas. Contudo, o trabalho de preparação deste « mailing » revelou-se útil, ao permitir (pelo menos transitoriamente) afastar a Bélgica, a Suíça e o Luxemburgo do domínio das pesquisas, em termos de patronímico – e isto porque nenhuma referência a esse patronímico foi encontrada nas “páginas brancas” das listas telefónicas desses países.

d) Numa perspectiva bem mais específica que a primeira consulta postal a particulares e com base num memorando sucessivamente actualizado [15], dirigimos, em Junho / Julho de 2002, um novo inquérito postal às 26 entidades seguintes:
· CAMT – Centre des Archives du Monde du Travail, Roubaix;
· CCIP – Chambre de Commerce et d’Industrie de Paris;
· 22 Escolas Superiores de Química, de França;
· “Maire” de Balaruc-les-Bains; e a
· Societe Française de Chimie.
e) Quando lançamos esta consulta às 22 escolas que actualmente atribuem o título de engenheiro, não conhecíamos a sua sucessão histórica, nem tampouco a respectiva antiguidade na formação de engenheiros químicos, pelo que usamos como critério simples de selecção a formação actual de engenheiros químicos. Certo é que a lista assim construída e os contactos realizados foram coincidir, numa extensão razoável, com a lista de Escolas Superiores de Química em França de 1822 a 1908 que, entretanto, nos foi facultada [ENSCM, 2002]. Das 22 Escolas contactadas recebemos apenas as 8 respostas seguidamente indicadas, que nos esclareceram que A. L. Stinville não figurava nos respectivos ficheiros de alunos, ou de associações de antigos alunos (por ordem alfabética de localização)
[i]:
· École Supérieure de Chimie Organique et Minérale (E.S.C.O.M.) – de Cergy Pontoise [ESCOM, 2002] ;
· Association des Anciens Elèves de C.P.E. Lyon (fusão da E.S.C.I.L.e da I.C.P.I.) – de Lyon [AAECPE, 2002];
· Ecole Nationale Supérieure de Synthèse, de Procédés et d’Ingénierie Chimiques d’Aix (E.N.S.S.P.I.C.A.M.) – de Marselha [ENSSPICAM,2002] ;
· Ecole Nationale Supérieure de Chimie de Montpellier – de Montpellier [ENSCM ;2002] ;
· Société Amicale des Anciens Élèves de l’Ecole Polytechnique (AX) – de Paris (75005) [SAAEEP,2002] ;
· École Supérieure de Physique et de Chimie Industrielle de la Ville de Paris (E.S.P.C.I.) – de Paris (75231) [ESPCI,2002]
[ii] ;
· Ecole Nationale Supérieure du Pétrole et des Moteurs (E.N.S.P.M.) – de Rueil Malmaison [ENSPM, 2002] ; e
· Ecole Nationale Supérieure des Ingénieurs en Arts Chimiques et Technologiques (E.N.S.I.A.C.E.T.) (reagrupando a E.N.S.C.T. e a E.N.S.I.G.C.) – de Toulouse [ENSIACET, 2002].
Esta consulta trar-nos-ia, não obstante, alguns esclarecimentos interessantes e de ter em conta para o prosseguimento das investigações. Fomos assim informados que o título de engenheiro, em França, só ficara reconhecido e protegido por lei de 10 de Julho de 1934 que criou a “comissão do título de engenheiro” — o que significa que, até essa data, o título profissional de “engenheiro” poderia ser utilizado por qualquer químico que na indústria química exercesse a sua profissão. Como consequência, numa interpretação lata, a preparação académica de A. L. Stinville poderia ter decorrido numa Faculdade de Ciências e não necessariamente numa Escola Superior de Química [ENSCM,2002]. Em contraponto, numa interpretação restrita, a capacidade atribuída a A. L. Stinville de produzir projectos técnicos de instalações e equipamentos, incluindo a execução de desenhos e planos, poderia corresponder efectivamente a uma formação em engenharia química, o que indiciaria as escolas de Nancy e Toulouse, pioneiras nessa qualificação académica [ENSCM,2002].
f) Nesta ronda de contactos, incluímos igualmente entidades não-universitárias. Recebemos respostas encorajadoras da Chambre de Commerce et Industries de Paris [CCIP, 2002] e da Assessora Delegada para os Assuntos Culturais do Maire de Balaruc-les-Bains, que incluímos na lista em atenção à já referida Société des Industries Chimiques CUF, e que nos surpreendeu, desenvolvendo uma prestimosa investigação autónoma em torno do nosso pedido, avançando até aos Arquivos Departamentais do Héraut e abrindo pistas que se revelaram utilíssimas [MBLB,2002]. O Club d’ Histoire de la Société Française de Chimie igualmente nos respondeu [CHC/SFC, 2002] e —não tendo obtido qualquer resultado na pesquisa que efectuou nos seus arquivos e publicações— manifestou interesse em conhecer mais sobre A. L: Stinville, informação que certamente iremos transmitir com base na versão em Francês deste documento [17A]. Diga-se ainda que da série de contactos não-universitários estabelecidos, não recebemos qualquer resposta do CAMT – Centre des Archives du Monde du Travail, de Roubaix.
g) No ano subsequente a estas consultas — 2003 — dando andamento útil a algumas sugestões recebidas, fizemos mais dois contactos genéricos: dirigimos assim cartas ao Service des Archives et Musée de la Préfecture de Police de Paris [PPPARIS,2003] — que nos referiram como entidade detentora de um ficheiro importante sobre as actividades económicas parisienses — e ao CNISF – Conseil National de Ingénieurs et Scientifiques de France [CNISF,2003]. Ambos os contactos foram negativos, em termos de obtenção de qualquer referência a A. L. Stinville, sendo de sublinhar que o CNISF nos facultou uma lista cronológica da criação de escolas de química no período 1875 – 1905, permitindo-nos “afinar” futuras buscas. Quanto a diligências mais específicas e frutuosas (Archives Départamentales de la Marne e Archives de Paris) referir-nos-emos oportunamente [17B].
h) Com base nos dados da presente informação e dos elementos entretanto recolhidos, bem como do nome completo de A. L. Stinville, propomo-nos rever a lista de escolas e renovar contactos. Guardando a lição das 8 escassas respostas recebidas de 22 escolas contactadas, procuraremos, nesses contactos futuros, restringir a consulta a escolas efectivamente existentes no período da presumível formação escolar de Stinville e salientar a decisiva diferença que para nós resulta entre uma informação negativa e uma ausência de resposta [17C].

4. A QUESTÃO DO NOME
a) Uma das dificuldades encontradas relacionou-se com o conhecimento, que pretendamos, do nome completo de A. L. Stinville, sistematicamente encoberto por detrás das iniciais A. L.. Na legenda da fotografia existente no Barreiro, nas notícias das listas telefónicas e das incrições no Bottin, no cartão de visita deixado nos “Ponts et Chaussés” de Montpellier, na designação de “director científico” da única obra que, a nosso conhecimento, publicou, Stinville mantém-se, teimosamente e apenas, A. L. Stinville.
b) É assim que até ao mês de Maio de 2004 se manteve o desconhecimento inicial quanto ao que as iniciais A. L. poderiam significar. Havia quem no Barreiro defendesse que poderiam significar “André Louis”, mas nenhuma razão objectiva, nem mesmo a memória ou a tradição oral, suportava, em nosso entender, essa hipótese [18].
c) Com base em sugestões levantadas pela “pista Balaruc-les-Bains” [MBLB,2002] abrimos então duas novas acções. Quanto à primeira, tínhamos já registado da consulta aos locais genealógicos da “net” que, entre 1891 et 1915, dez Stinville tinham nascido em França, nos departamentos do Marne (6), Paris (3) et Val de Marne (1). Ainda neste período, as comunas em que estes nascimentos se verificaram era a seguinte, por ordem decrescente: para o Marne: Vertus, Toges et Oger ; para o Sena / Paris : Paris 5e, Paris 14e. et Paris 17e ; e para o Vale do Marne : Vincennes. Estas indicações foram confirmadas pela seguinte informação prestada pela Mairie de Ballaruc-les-Bains [MBLB,2002]: « Na brochura Noms de Famille de France et Leur Localisation [Nomes de Família de França e a sua Localização] editada por Laurent FordantT (A.D. Héraut U.A.1178-2) : o nome de Stinville está presente de 1891 a 1990 nos departamentos 51 (Marne) e 94 (Vale do Marne) e particularmente em Vertus (Marne) onde se podem encontrar mais Stinville”. Quanto à segunda diligência, procurar-se-ia saber se a Société des Industries Chimiques CUF, que admitíamos ter sido constituída em Paris, figurava no registo comercial dessa cidade — isto como primeiro passo para o conhecimento da sua constituição e, portanto, da identidade dos seus accionistas-fundadores.
d) Para atingir o primeiro objectivo, abrimos uma nova via de diálogo, agora com os Archives Départamentales de la Marne [ADMARNE,2003], de Châlons-en-Champagne, procurando conhecer os Stinville nascidos em Vertus numa janela temporal compatível com a presumível idade de A. L. Stinville, com a presença das iniciais e dirigida sobre a comunidade de Vertus. Uma primeira conclusão negativa levou-nos a solicitar àquela entidade uma nova investigação dos registos de nascimento mas agora dirigida para a comuna de Oger. A resposta recebida mostrou-se promissora e trouxe-nos 6 certificados de nascimento dentro da janela temporal seleccionada mas, destes, apenas um tinha nomes próprios que permitiam hipotreticamente “construir” as iniciais A. L Tratava-se de Louis, Clément, Abraham Stinville, nascido em Oger a 16 de Março de 1870, filho de Narcisse Joseph Stinville e de Elisabeth Alexandrine Husson, registo de nascimento nº 2 E 483/11, acto nº 1, dos nascimentos de 1870, infelizmente sem qualquer averbamento posterior [19]. Durante meses, à falta de melhor, este seria — como hipótese — o “nosso Stinville”.
e) O segundo objectivo veio a mostrar-se decisivo, demolindo a hipótese anterior! A tentativa de conhecer, junto dos Archives de Paris se existiria alguma inscrição no registo comercial da Société des Industries Chimiques CUF teve uma resposta positiva [ADP,2004]. E, de facto, para além da indicação referente à data/ordem de inscrição, designação comercial, objecto social, sede social (14, Rue Chauveau Lagarde, Paris 8éme), capital social, tipo de sociedade (S.A.), marcas de fábrica e
observações (incluindo a indicação da posterior dissolução), mencionava — na coluna “identificação dos comerciantes” — dados importantes sobre a identidade de A. L. Stinville, identificando-o finalmente como AUGUSTE LUCIEN Stinville. Tínhamos, pela primeira vez e sem via conjectural, chegado a um nome completo do engenheiro francês.

5. A DATA E O LOCAL DO NASCIMENTO
a) No mesmo registo comercial da Société des Industries Chimiques CUF e na mesma coluna “identificação de comerciantes” indicava-se a data de 19 de Julho de 1864 e Paris como local e data de nascimento de Auguste Lucien Stinville, da mesma forma que se identificavam as datas e locais de nascimento de Alfredo da Silva (esta infelizmente errada quanto ao ano, indicando 1872) e D. Manuel de Mello. Seguidamente à indicação de Paris, parece haver – de forma dificilmente legível – um caracter isolado que, parecendo-nos um “f”, admitimos tratar-se fa indicação abreviada da nacionalidade ( f = francês, diferindo da indicação de nacionalidade portuguesa feita para os restantes fundadores).
b) Em 2004, a estudante barreirense Ana Salvador, aluna da Sorbonne, investigou, nos Archives de Paris, os actos de nascimento do período 1860-1872 para os 20 “arrondissements” parisienses, não detectando qualquer acto de nascimento referente a Auguste Lucien Stinville [SALVADOR,2004].
c) Assim, o desconhecimento exacto do “arrondissement” e o conhecimento das vicissitudes do registo civil parisiense anterior aos acontecimentos da Comuna (1871) [20], fizeram-nos recorrer ao Bureau des Mairies, indicado para estas situações, ao qual dirigimos uma consulta que ainda não teve resposta. Certo é que o erro na indicação na data do nascimento de Alfredo da Silva no registo comercial da SIC-CUF não é tranquilizador, pelo que estamos igualmente a procurar obter, onde possível, uma reprodução da escritura de constituição dessa sociedade.

6. O(S) DOMICÍLIO(S) DE A. L. STINVILLE
a) A “ronda” de consultas de 2002 informou-nos que A. L. Stinville figurava como «engenheiro-construtor» nas edições de 1920, 1925 e 1930 do Bottin du Commerce de Paris, em que mantinha o endereço 14, rue Chauveau-Lagarde, Paris [CCIP,2002]. Mas o seu nome não constava do caderno eleitoral parisiense (1920-1939), nem dos recenceamentos da população de 1926 e 1930 [ADP/CCIP,2002]. Assim, o 14 rue Chauveau Lagarde deverá ser considerado como o seu domicílio profissional em Paris, mas não a sua residência — tornando inviável uma identificação mais precisa por esta via [CCIP, 2002] [21].. Esta conclusão está confirmada pela fotocópia de um cartão de visita de « A. L. Stinville », de 1926, em que este endereço está indicado como “escritório” [«bureaux»], com o telefone « Central 87-96 ». Infelizmente, ao não nos dar mais que o apelido e as já conhecidas iniciais A. L., este cartão de visita pouco viria acrescentar a não ser o referido significado e a já referida prática de não esclarecer os nomes próprios [MBLB,2002] [22]. Outras buscas, como as então empreendidas pela Chambre de Commerce et Industrie de Paris nos seus arquivos, em que se inclui a lista de eleitores consulares de 1919 — a única que, nesse arquivo, se poderia referir ao período de provável actividade profissional de Stinville — nada produziram [CCIP, 2002].
b) As pesquisas conduzidas por Ana Salvador [SALVADOR,2004] nos Arquivos de Paris, cobriram as menções a A. L. Stinville no já referido anuário Bottin du Commerce e delimitaram, no tempo, essas menções (indicam-se os anos em que surgiram alterações, mantendo-se inalteradas as menções nos períodos intermédios) :
Ano do Bottin
Menção
Endereço
Telefone
Endereço Telegráfico:
--------
≤1906
Não vem mencionado no Bottin
---
---
--------
1907
STINVILLE, A.L. ingénieur
Square Pétrelle, Paris IX ème
287 96
--------
1908
Idem
Rue de Londres, 56 Paris VIII ème
287 96
Austinvlle - Paris
--------
1916-17
STINVILLE, A.L., ingénieur constructeur
14, rue Chauveau Lagarde Paris VIII ème
AL 87 96
AuSTINVILLE – Paris
--------
En 1931 :
STINVILLE, A.L., ingénieur constructeur
14, rue Chauveau Lagarde Paris VIII ème
Centr 87 96
AuSTINVILLE – Paris
--------
En 1933 :

STINVILLE, A.L., ingénieur constructeur
14, rue Chauveau Lagarde Paris VIII ème
Anjou 3696
AuSTINVILLE – Paris
--------
En 1934 :
STINVILLE, A.L., ingénieur constructeur
14, rue Chauveau Lagarde Paris VIII ème
Centrale 3696
AuSTINVILLE – Paris
--------
No Bottin 1935 já não vem mencionado [22A]
--------
Foi igualmente confirmada a ausência de A. L. Stinville nas listas eleitorais de Paris, de 1906 e 1908 [SALVADOR, 2004]. Uma interessante conclusão desta pesquisa é que, ao tempo do seu trabalho inicial para a CUF ainda não tinha o seu escritório no 14, rue Chauveau Lagarde, onde, anos depois, localizaria grande parte da sua vida profissional (pelo menos de 1916 a 1934) [23, 23A]
c) O facto de ainda desconhecermos qual a sua residência — e de, aparentemente, esta não se situar dentro de qualquer “arrondissement” de Paris e possivelmente na “banlieue” — dificulta-nos, certamente, a pesquisa de elementos com base na sua vida civil e política [23B].

7.Formação académica / profissional e experiÊncia industrial
a) A consulta generalizada que dirigimos a escolas e entidades — e que estamos dispostos a reiniciar noutros moldes, como referido no ponto 3 c) e seguintes deste texto — destinava-se exactamente ao conhecimento da formação académica / industrial de Stinville. Para além da já assinalada possibilidade dessa formação poder resultar da frequência de uma Faculdade de Ciências, prosseguida por uma actividade química na indústria, e da hipótese algo remota, mas não de excluir, de poder ter sido adquirida fora de França, a verdade é que, até ao momento, essa busca se revelou estéril — bem como estéril se revelou a procura de uma eventual participação de Stinville em associações ou sociedades profissionais ou científicas contactadas. Há aqui, certamente, um longo caminho ainda a percorrer.
b) Abordaremos, a devido tempo, o que existe sobre o estabelecimento da relação cliente / fornecedor entre Alfredo da Silva e A. L. Stinville. Avisado e conhecedor como era, Alfredo da Silva não teria designado o engenheiro construtor para as Fábricas do Barreiro sem que tivesse conhecimento de uma experiência industrial anterior suficientemente rica para determinar essa escolha. As actas do conselho de administração da Companhia União Fabril nada nos esclarecem quanto a esse precedente, salvo num pequeno pormenor: a deliberação final e definitiva sobre a produção de superfosfatos no Barreiro e a contratação de A. L. Stinville não é tomada antes de ter sido recebida uma carta de um Sr. Jorge Lefebvre, em resposta à que Alfredo da Silva lhe escreveu (acta de 6 de Junho de 1907; vide ANEXO). Quem era Jorge Lefebvre? E a sua carta, certamente abonatória, era-o do negócio ou do engenheiro-construtor?
c) Facto é que, pelos conhecimentos que fomos agrupando, Stinville demonstra uma “bagagem tecnológica” muito diversificada, de que destacamos os seguintes conhecimentos específicos [os 5 primeiros e o 7º usados nas fábricas do Barreiro, em instalações que ele próprio projectou ou que foram construídas de acordo com as suas especificações]::
· o processo de fabrico de ácido sulfúrico por câmaras de chumbo, com câmaras clássicas (“box chambers”);
· o fabrico de superfosfatos (“malaxage”) [23C]
· o fabrico de ácido clorídrico e de sulfato de sódio por reacção do ácido sulfúrico com sal;
· a “lessivage” [23C] i.e. lexiviação das cinzas de pirite, para recuperação do cobre;
· a produção de sulfato de cobre;
· o despoeiramento electrostático de gases (processos Cotrell e Cotrell-Möhler) (1918);
· a “frittage” [23C] i.e. sinterização de cinzas de pirite após cloruração, para lhes conferir valor siderúrgico (1925);
· a produção de alumínio (1925); e
· a redução de minérios de ferro em fornos rotativos da indústria cimenteira (processo BASSET), relativamente ao qual assume uma posição crítica (1937).
Acresce que, em estreira ligação com Alfredo da Silva e os seus colaboradores portugueses e franceses , estes destacados da fábrica de Alferrarede, Stinville estabelece, em 1907, os arranjos essenciais dos serviços e utilidades de um complexo fabril como o Barreiro. Directa ou indirectamente, acompanha a construção, o arranque das instalações industriais e providencia a delegação de engenheiros e de técnicos expatriados. Estas provas de uma capacidade de realisar e de uma organização estável demonstram que o “atelier” de Stinville estará por detrás de outros grandes projectos — longe certamente de se limitar ao cliente português, por importante que este tenha sido. A afirmação de que teria participado na instalação de electrofiltros em Hoboken [VASCONCELOS,1934] é disso confirmação, para já isolada. Resta-nos procurar outras realizações industriais em que o engenheiro-construtor Stinville tenha necessariamente estado ocupado durante a sua longa vida profissional [24].

8. BIBLIOGRAFIA PUBLICADA
a) Ao que sabe/mos, a única obra que Stinville publicou foi impressa em Paris, em 1918. Trata-se de uma monografia de 42 páginas intitulada Procédés Cottrell. Précipitation électrique des particules en suspensions dans les fluides [Processos Cottrell: Precipitação eléctrica de partículas em suspensão em fluidos], em que, significativamente, A. L. Stinville (sempre A.L.!) figura como «editor científico» e não como «autor». Esta monografia está referenciada nos catálogos actuais de duas das mais representativas bibliotecas de Paris: a BNF e a Biblioteca Sainte Geneviéve [25] [TUDELA, 2002].
b) O exame desta brochura surpreende. Trata-se de um excelente documento de divulgação e de propaganda, com o “estado da arte” da precipitação electrostática de partículas em suspensão nos gases (processos Cottrell), com exposição do princípio e ilustração e documentação de numerosos exemplos de aplicações norte-americanas, essencialmente nos ramos cimenteiro, metalúrgico, siderúrgico, químico e de outras indústrias, embora com referências a exemplos japoneses e europeus (estes em menor extensão — o que se entende, pela referência quase exclusiva a unidades construídas na Europa antes da I Grande Guerra). As finalidades de protecção ambiental, de recuperação e de purificação em instalações industriais são devidamente demonstradas e sublinhadas. Mencionando o êxito dos desenvolvimentos e patentes do Prof. F. G. Cottrell e a constituição, por este, de três sociedades nos Estados Unidos, para a comercialização, desenvolvimento e aplicação da tecnologia [26] — Research Corporation, New York, Western Precipitation Co, Los Angeles e Philadelphia, e International Precipitation Co, Los Angeles — o texto ou assume um sujeito impessoal (“on mesure…”, “on a trouvé par exemple que…”) ou usa a primeira pessoa do plural (“nous avons obtenu, aux États Unis, l’autorisation de faire des essais…” , “nous allons, maintenant, examiner les résultats obtenus dans nos installations industrielles…”). Concluímos assim que, tendo Stinville por alguma forma obtido representação ou exclusivo em França das sociedades americanas Cottrell, esta monografia, provavelmente, não passará de uma tradução francesa de um excelente texto de divulgação de origem norte-americana ou de uma compilação de elementos e dados técnicos provenientes dos Estados Unidos e destinada a ser difundida pela indústria francesa. Daí a designação de “editor científico” e não de “autor” que Stinville terá escolhido para a apresentação da obra. Daí também a permanência de Stinville neste ramo em 1934, como um dos concessionários das patentes Cottrell-Möhler e a referência a realizações em Hoboken (Bélgica), como então mencionado pelo próprio Stinville [VASCONCELOS,1934] [26A].
c) Com base na referida monografia, de que recentemente obtivemos uma reprodução, consideramos útil esclarecer — junto das sociedades americanas e das instituições a que deram origem — qual a verdadeira natureza do texto e quais os contactos que, em arquivo, possam dispor sobre A. L. Stinville. É uma outra via que fica para explorar. [26B]

9. O conhecimento DE Alfredo da Silva e a colaboração com a CUF
a) Os antecedentes e pormenores do encontro de vontades entre o investidor português e o engenheiro construtor francês constituem certamente um tema muito interessante para investigação futura. Há muitas questões em aberto e os índices e hipóteses já levantados sobre este tópico [CRUZ, 2002-3 ; SILVA et al, 2003] não passam de um ligeiro intróito. Para uma lista preliminar de pontos-chaves a reter para um tratamento futuro, não deixaremos de referir o singular curriculum académico de Alfredo da Silva, com uma conteúdo técnico-científico que surpreende num Curso Superior de Comércio, bem como a sua clara noção do papel da indústria para acrescentar valor num País ainda agarrado a uma vocação essencialmente agrícola, as suas frequentes viagens e contactos na Europa Central, o seu excelente conhecimento da indústria química, dos mercados e das finanças europeias. Interessante é saber qual a posição de Stinville na permuta científica, tecnológica e cultural entre Portugal e a França no fim do sec XIX / início do sec. XX, como a nota de fim de texto nº 17 deixa também antever.
b) Já levantamos por diversas vezes esta questão e, até ao momento, os dados são escassos sobre o assunto. Pareceu-nos útil transcrever, como ANEXO, os fragmentos de actas do conselho de administração da Companhia União Fabril que, directa ou indirectamente, se referem a Stinville e/ou aos engenheiros, técnicos e operadores franceses por este delegados ou com sua intervenção escolhidos para as Fábricas do Barreiro. São, até ao momento, os elementos mais elucidativos de que dispomos embora — como já notamos — seja muito desigual, no tempo, o seu desenvolvimento, ao ponto de serem totalmente omissos quanto à cessação, em 1927, do cargo de Director Técnico das Fábricas do Barreiro, como designação, para tal cargo, do Eng. Eduardo Bravo Madaíl [CUF,1958].
c) Independentemente de tudo o resto, a consulta de Alfredo da Silva a Stinville sobre o “processo Basset” [que se pensava então montar nos Cimentos Tejo] e a detalhada resposta deste, em Novembro de 1937 [PEREIRA, 2002], demonstram a manutenção de uma relação de confiança e manifesta cordialidade.

10. MORTE: DATA E LOCAL
a) Robert MacKie e Gerrylynn Roberts, em comunicação já citada [MACKIE e ROBERTS, 2002], referem o interesse biográfico das notícias necrológicas, citando alguns exemplos. Destacaremos, de entre estes, o caso concreto de Percy Parrish, homem a quem o Barreiro também deve um contributo tecnológico a registar e que, ainda que temporalmente breve, se pensa ter sido prosseguido nos anos subsequentes por seu(s) sucessor(es) [27].
b) Para delimitar a “linha de partida” para a busca de uma notícia necrológica sobre A. L. Stinville, procuramos conhecer a última menção a este no Bottin du Commerce, como referido no ponto 6 b) da presente memória. Esperávamos fosse posterior à última notícia em nosso poder, que corresponde às já referidas cartas de Novembro de 1937 [PEREIRA, 2002]. Infelizmente não foi assim, pelo que uma “linha de partida” tem que ser localizada nesta última data e de considerar que o falecimento de A. L. Stinville tenha ocorrido numa data posterior ainda desconhecida mas depois (ou mesmo muito depois) de Novembro de 1937.
c) Só muito recentemente, e de forma meramente tentativa, iniciamos alguns contactos nesta linha de pesquisa. De facto, sem o conhecimento mais completo da identidade de A. L. Stinville, como recentemente obtido, seria praticamente impensável uma busca deste tipo.
Subsistem, porém certas limitações e receios:
· o desconhecimento da filiação de A. L. Stinville em qualquer associação profissional ou de outro tipo, afasta a possibilidade de menções como as exemplificadas pelos supra referidos autores britânicos;
· a possibilidade de A. L. Stinville ter residido (e falecido) fora de Paris, mesmo que na “banlieue”, dificulta sensivelmente qualquer busca;
· a eventualidade de ter falecido já durante a II Grande Guerra (1939-1945) pode constituir uma dificuldade adicional.

11. EVENTUAL EXISTÊNCIA DE UM FUNDO OU ACERVO DOCUMENTAL DE A. L. STINVILLE
Do anteriormente exposto, resulta natural a resposta a este quesito — que se mantém “pró memoria” na sistemática do presente texto e está ainda totalmente em aberto. Sugere-se, do lado português, o início do seu estabelecimento no Barreiro, no quadro das pesquisas sobre o destino dos arquivos históricos CUF-QUIMIGAL. Que esta memória possa servir para isso.

12. CONCLUINDO
Fez-se um resumo do que até ao momento se conseguiu, tendo partido do “quase nada”. Recebemos diversas e variadas colaborações e ajudas, que procuramos deixar registadas nas referências deste texto.
Quanto aos objectivos da presente memória, retomaremos uma frase da carta-resposta recebida do Clube d’ Histoire de la Chimie da Société Française de Chimie: “Este químico [Stinville] parece de facto apresentar um grande interesse e o aprofundamento do seu itinerário científico seria de grande utilidade”. [CHC/SFC,2002]

Barreiro / Lisboa, Outubro de 2004
(Revista em Setembro e Novembro de 2005)

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MEMÓRIA SOBRE A. L. STINVILLE - 2ª Parte

ANEXO I
STINVILLE NAS ACTAS DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA COMPANHIA UNIÃO FABRIL
Não deixa de ser interessante a colecção de referências directas e/ou indirectas a Stinville e a outras personalidades francesas nas actas do conselho de administração da Companhia União Fabril. São, de certa forma, testemunho da referida realidade e, embora com desenvolvimento e distribuição no tempo bastante iregulares (com excepção do que se refere ao período de realização do projecto inicial), permitem antever o essencial de uma colaboração prolongada. No fim de algumas das actas reportadas, faremos breves comentários.


- - - LIVRO 8 - - -

Acta nº 459 da Sessão do Conselhos de Administração e Fiscal, em 29 de Maio de 1907
[…]
Fabrica de Superphosphatos: O Gerente sr. Alfredo da Silva deu varias explicações e informações sobre a opportunidade immediata de se tomar uma deliberação definitiva sobre o assumpto. Discutiu-se largamente a situação do commercio dos superphosphatos e o sr. Alfredo da Silva expoz circunstanciadamente as difficuldades que têm havido nas negociações da entente para este anno. A união dos productoress estrangeiros faz pressão sobre os revendedores — qualidade que esta Companhia hoje tem — por forma a ser para aquelles o maior lucro e para estes o menor. Tudo isto concorre para que mais opportuno e urgente se torne a resolução dos Conselhos.
Os Conselhos tomaram conhecimento de uma carta do sr. Stinville apresentado o devis e condições para o trabalho. Resolveu-se chamar por telegramma, aquelle sr. aqui a Lisbôa para ter uma conferncia com o Gerente sr. Alfredo da Silva, responsabilizando-se a Companhia unicamente pelo pagamento das despezas de viagem.Em seguida resolveu-se convocar quando o sr. Alfredo da Silva entendesse, uma reunião especial dos dois Conselhos para definitivamente se deliberar sobre este tão importante assumpto.
[…]
[COMENTÁRIO: Esta acta é importante por duas razões: a) demonstra a ainda pendência ao nível dos Conselhos da decisão sobre o fabrico de superfosfatos; e b) é a primeira a referir o nome de Stinville, sem qualquer precedente ou indicação!]
Acta nº 460 da Sessão do Conselho de Administração, em 6 de Junho de 1907
[…]
Fallou-se sobre a questão da Fabrica do Barreiro e resolveu-se convocar para o dia 14 do corrente uma reunião especial dos Conselhos de Administração e Fiscal, afim de deliberarem sobre aquella mesma questão, visto já ter chegado a carta do sr. Jorge Lefebvre em resposta à que o sr. Alfredo da Silva lhe escreveu”
[…]
[COMENTÁRIO: Esta acta demonstra que a questão do fabrico de superfosfatos no Barreiro ainda permanece em aberto, ao nível do Conselho, e — insistimos — traz consigo uma nova questão a esclarecer: quem era Jorge Lefebvre e por que razão surge aqui? Aparentemente Jorge Lefebvre teria sido contactado por carta por Alfredo da Silva e a sua resposta é considerada importante para o seguimento do assunto. Abonatória do negócio ou abonatória de Stinville?]
Acta nº 461 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal, em 14 de Junho de 1907
Á uma hora da tarde reuniram em sessão mixta os vogaes dos Conselhos de Administração e Fiscal, signatarios d’esta acta. Depois de lida foi approvada a acta da ultima sessão. O administrador-Gerente sr. Alfredo da Silva, tomando a palavra, explicou largamente a necessidade e a opportunidade de se proceder no Barreiro à construcção da fabrica de Superphosphatos, informando ao mesmo tempo o que se passára com o sr. Stinville que estivéra em Lisbôa, como lhe fôra pedido, segundo deliberação anterior dos Conselhos. Os Conselhos discutiram largamente o assumpto e depois de devidamente ponderadas as razões que há favor do estabelecimento da alludida fabrica, resolveu-se por unanimidade que o Gerente sr. Alfredo da Silva ficásse com plenos poderes para concluir com o sr. Stinville ou com quem melhor entendesse, todas as negociações para o fornecimento de projecto e estudo para a nova fabrica e bem assim para fazer as compras de todo o material e machinismos necessarios, visto a decisão unanime dos Conselhos ser no sentido de se proceder à construção da fabrica, sem perda de tempo.
Sobre os recursos financeiros para levar a effeito uma tão grandiosa obra, cujo custo se eleva a uns 500 contos de réis, além do capital cirdulante que se pode orçar em 400 contos de réis, ficaram os Conselhos de mais tarde tratarem do caso, decidindo-se então o melhor meio para obter o capital, o que, segundo a opinião do sr. Alfredo da Silva, será mais facil quando se veja a fabrica ir para deante, e não quando, como actualmente, essa fabrica nem sequer se encontra em começo de construção, tando mais que nos primeiros seis mezes contados do inicio da construcção da fabrica, o desembolso de capital não deverá exceder a uns 200 contos, como ceclarou o sr. Alfredo da Silva, o que poderá ser assegurado quer pelos recursos ordinarios da Companhia, quer pelo auxilio pecuniario que as Casas dos Srs. Henry Burnay & Cª. e Martin Weinstein & Cª. e o sr. Alfredo da Silva, se promptificaram a dar dentro dos limites d’aquella verba.
A discussão de todo o assumpto, terminou, pois, pelo seguinte :
Que se realisásse desde já a construcção da fabrica de superphosphatos, no Barreiro;
Que se tratásse da obtenção dos recursos financeiros, depois dos trabalhos de construcção se acharem em curso bastante adeantado de construcção;
Que ficásse o sr. Alfredo da Silva com plenos poderes para converter em realidade as decisões dos Conselhos.
Os Conselhos votaram por unanimidade estas conclusões.
[…]
O sr. Alfredo da Silva declarou que partia na noite de hoje para o Porto, de onde seguirá directamente para Paris e Inglaterra, a tratar da entente de adubos-chimicos, e do assumpto da fabrica de Superphosphatos.
Como nada mais houvesse a tratar encerrou-se a reunião. Eram trez horas da tarde.
[COMENTÁRIO: Esta acta, que está transcrita praticamente na íntegra, é o acto essencial para o fabrico de adubos químicos no Barreiro e torna firme Stinville como sede da tecnologia escolhida para tal realização]


- - - LIVRO 9 - - -
Acta nº 467 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal, em 25 de Julho de 1907
[...]
Fabrica do Barreiro: O sr. Alfredo da Silva, fallando sobre este assumpto, deu largas explicações a respeito das negociações com o Caminho de Ferro do Estado acerca das descargas pela ponte em construcção, e referiu-se ao relatorio do engenheiro sr. Dartaut e o parecer da Gerência, com que o mesmo relatorio foi para Paris ao sr. Stinville, referentemente às descargas directas da fabrica sobre o rio, no caso de estar occupada a ponte do Caminho de Ferro e assim não poder ser utilizada.
[...]
Acta nº 470 da Sessão do Conselho de Administração em 14 de Agosto de 1907
[...]
O mesmo Gerente deu conhecimento ao Conselho da correspondência trocada com o sr. Stinville a propósito das novas installações no Barreiro.
O sr. Alfredo da Silva participou também que no proximo domingo ia para o Barreiro fazer a picotagem para se começarem os trabalhos para a construcção da fábrica de extracção chimica dos bagaços, visto que já recebera de Paris a marcação da cota de nível a que a mesma fabrica poderá ficar, e já ter tambem o plano definitivo da disposição das vias férreas, sem o que não podia marcar a posição da dita fabrica. Contava que na segunda-feira já se iniciassem as escavações para se seguiur rapidamente todos os trabalhos de construção visto que todas as machinas estão compradas, esperando-se a sua chegada brevemente.
[...]
[COMENTÁRIO: Este excerto de acta, bem como o anterior, demonstram o envolvimento do “atelier” de Paris na concepção geral do complexo industrial e no arranjo integrado dos respectivos “serviços”.
Acta nº 473 da Sessão do Conselho de Administração em 5 de Setembro de 1907
[...]
O Gerente sr. Alfredo da Silva informou que já se começáramos trabalhos de fundações para o Edifício da Fabrica de Extracção de Óleos, no Barreiro, estando empregando todos os esforços que tudo se fizesse com a máxima rapidez. O mesmo Gerente participou que muito em breve se via obrigado a partir para o estrangeiro afim de ir ter uma conferencia com o sr. Stinville sobre as construcções a effectuar no Barreiro. Os respectivos estudos já estão muito adeantado até ao ponto de se poder tratar já da acquisição das principaes machinas, e este é assumpto que não pode ser bem tratado só por correspondencia. O Conselho concordou com o exposto pelo Gerente, sendo de opinião que este deveria partir quanto antes para pessoalmente, como é necessário, tratar do assumpto.
[...]
Acta nº 475 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal em 5 de Setembro de 1907
Faz uso da palavra o Gerente Snr. Alfredo da Silva que relatou minuciosamente os seus trabalhos no estrangeiro de onde regressou há pouco, sobre acquisição de machinas, pyrites, etc.
[...]
Acta nº 489 da Sessão dos Conselho de Administração em 6 de Fevereiro de 1908
[...]
O Gerente sr. Alfredo da Silva informou que já chegàra o engenheiro de Paris que vinha installar o engenheiro que fica dirigindo os trabalhos de construcção no Barreiro que prosseguirão activamente.
[...]
[COMENTÁRIO: Stinville o instalador e Maire o instalado? A acta não esclarece]
Acta nº 496 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal em 26 de Março de 1908
[...]
Terminando [o mesmo Gerente] communicou que em breves dias partiria para o estrangeiro onde ia tratar de encommenda de material para as novas fabricas.
[...]
Acta nº 505 da Sessão dos Conselhos de Administração em 21 de Maio de 1908
[...]
O Gerente Sr. Alfredo da Silva communicou que o Engenheiro encarregado da direcção dos trabalhos no Barreiro, o sr. Maire, se acha doente pelo que já reclamou a sua substituição.
[...]
Acta nº 506 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal em 30 de Maio de 1908
[...]
Trabalhos do Barreiro: O Snr. Alfredo da Silva informou que já estava no Barreiro o novo engenheiro, que veio substituir o sr. Maire na direcção dos trabalhos.
[...]
[COMENTÁRIO: Trata-se de Pellet, por vezes também grafado como Pelet. Este é aliás protagonista de uma situação curiosa: além de se sentar à direita de Alfredo da Silva na famosa fotografia da “equipe de construção”, assume uma posição de “onde está o Wally?” em muitas das fotogafias do álbum da construção das fábricas, que se encontra no Barreiro [Quimiparque]. É só procurar!]
Acta nº 515 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal em 30 de Junho de 1908
[...]
Tomou-se conhecimento do estado dos trabalhos no Barreiro.
O Sr. Alfredo da Silva declarou que em breves dias partiria para Paris onde tinha de ir conferenciar com o sr. Stinville sobre a marcha das construções no Barreiro, aproveitando também a occasião para tratar no estrangeiro do negocio de adubos-chimicos para a presente epocha.
[...]
[Registo no Álbum CUF do Cinquentenário das Fábricas do Barreiro [CUF,1958], página 3, da posta em marcha da primeira unidade fabril nas Fábricas do Barreiro (extracção de óleo dos bagaços de azeitona), a 19 de Setembro de 1908]
Acta nº 528 das Sessões [sic] dos Conselhos de Administração e Fiscal em 29 de Outubro de 1908
[...]
Passando a referir-se ás installações no Barreiro informou que tinha havido novas complicações com os operários, tendo sido demittido mais pessoal estrangeiro e achando-se agora a ordem completamente restabelecida. No entanto chamara a Lisbôa o sr. Stinville que não pôde vir, nas fez-se substituir por um engenheiro da sua confiança com o qual o mesmo Gerente está tratando das medidas a adoptar para o chantier.
[...]
[COMENTÁRIO: De facto, as actas levam a crer que a primeira greve na CUF no Barreiro foi… de pessoal francês!]
Acta nº 543 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal em 25 de Fevereiro de 1909
[...]
Tomou-se conhecimento da marcha geral dos negócios da Companhia, e o sr. Alfredo da Silva tomando a palavra deu largas explicações sobre o andamento dos trabalhos no Barreiro dizendo que a laminagem de chumbo já estava trabalhando, tendo chegado os perários chumbadores e esperando-se brevemente a chegada de Monsieur Stinville para se fixar definitivamente a mise en route d’aquella fabrica.
[...]
Acta nº 545 da Sessão do Conselho de Administração em 11 de Março de 1909
[...]
O Sr. Alfredo da Silva communicou que já está em Lisbôa o engenheiro Monsieur Stinville e que segundo exame detalhado que fizérão nos trabalhos do Barreiro, contava que na segunda quinzena de maio podésse ser a mise en route da parte mechanica da Fabrica, começando-se a moer phosphatos, devendo começar a trabalhar no mez de junho a fabrica de acido.
[...]
Acta nº 561 da Sessão do Conselho de Administração em 15 de Julho de 1909
[...]
O Sr. Alfredo da Silva também participou que o sr. Stinville deveria chegar no dia 15 do próximo mez para assistir à mise-en-route da Fabrica no Barreiro, estando-se a fazer os preparativos necessários.
[...]
- - - LIVRO 10 - - -
Acta nº 563 da Sessão mixta dos Conselhos de Administração e Fiscal em 29 de Julho de 1909
[...]
…; passando a referir-se ao estado dos trabalhos das novas fabricas no Barreiro, communicou que o engenheiro sr. Stinville deveria chegar a Lisbôa no próximo mez, afim de tratar da mise en route d’aquellas fabricas, estando-se a proceder com toda a urgência aos acabamentos necessários.
[...]
Acta nº 572 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal em 30 de Setembro de 1909
[...]
O Gerente sr. Alfredo da Silva informou que já estavam em laboração as fabricas de acido e adubos-chimicos no Barreiro.
O mesmo Gerente participou que o sr. Pellet não ficara como director, fazendo-se a substituição por um engenheiro portuguez, segundo indicações do sr. Stinville, mas que no entanto não acreditava que esse engenheiro portuguez sem pratica de outra fabrica idêntica, podésse supprir essa falta de pratica só pelo seu esforço e boa vontade.
[...]
Acta nº 577 da Sessão do Conselho de Administração em 4 de Novembro de 1909
[...]
O Gerente snr. Alfredo da Silva communicou que fôra convidado a ir a Paris assistir a uma reunião por causa da compra de semente de mendobi. Assim, pois, partiria em breve para ali aproveitando esta occasião de ir ao estrangeiro para ver também se arranjáva pessoal habilitado para a fabrica de acido sulfurico e para a de tartaros, pois com relação àquella não havia meio de se fazer nada de capaz com o director portuguez, e quanto à de tártaros está parada por falta de pessoal technico.
[...]
Acta nº 581 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal em 2 de Dezembro de 1909
[...]
Depois de serem examinados o balancete e o mappa de vendas relativamente ao mez de outubro p.passado, tomou a palavra o Gerente sr. Alfredo da Silva que referindo-se a assumptos das novas fabricas no Barreiro, participou que os serviços prestados pelo engenheiro portuguez sr. Birne, não correspondiam ao necessario e assim fora demittido; que trouxera já do estrangeiro um novo engenheiro húngaro, Mr. Aurel Nemés - que é agora o novo director das fábricas do Barreiro; que quanto ao seu serviço tanto quanto se pode ajuizar pelo pouco tempo que o presta, está satisfeito.
Que ainda continuam no Barreiro os trabalhos de chantier indispensáveis para o complemento dos encanamentos de agua salgada e de outros detalhes das construções.
Continuando no uso da palavra o sr. Alfredo da Silva lembrou a grande conveniencia que havia de agora no fim do anno os corpos gerentes da Companhia realizarem uma visita às installações da Companhia para de visu verificarem o seu desenvolvimento.
Todos os membros dos conselhos se pronunciaram de accordo com a ideia aventada pelo Gerente Sr. Alfredo da Silva e ficou assente que a primeira visita fôsse ao Barreiro, no domingo 12 do corrente, sendo a partida ás 9 horas da manhã, do Caes das Columnas, em canôt-automobile.
Augmento da fabrica no Barreiro: Falou novamente o Gerente Snr. Alfredo da Silva que disse haver todo o interesse em se tratar do augmento da fabrica de adubo no Barreiro. [...]. Os Conselhos concordaram e ficou notado que se fizesse esse augmento da fabrica.
[...]
Acta nº 598 da Sessão dos Conselho de Administração e Fiscal em 31 de Março de 1910
[…]
Tomou-se conhecimento da marcha geral dos negocios da Companhia e o Gerente Sr. Alfredo da Silva informou os Conselhos do estado dos trabalhos no Barreiro. Também informou os Conselhos do que se passava relativamente à direcção technica da fabrica de productos chimicos e participou que estava tratando de arranjar um novo director, mas para não haver a infelicidade que tem havido com todos os anteriores, talvez a escolha se demorásse, a fim de que o escolhido seja tanto quanto possivel em condições de satisfazer mas antes haver alguma demora do que a toda a préssa vir um que depois tivesse também de ser substituído. O Sr. Alfredo da Silva mostrou toda a correspondência trocada já sobre o assumpto e apresentou o projecto de contracto a effectuar com o individuo que deverá, talvez, ser o novo director technico do Barreiro.
Os Conselhos concordaram com a orientação seguida no assumpto, pela Gerencia, fazendo votos por que o novo director satisfaça por completo.
[…]
Acta nº 601 da Sessão do Conselho de Administração em 7 de Abril de 1910
[…]
O Sr. Alfredo da Silva declarou como facto consumado a demissão do sr. Nemés de director technico da Fabrica de Productos Chimicos no Barreiro, visto ter havido prejuizos de certa gravidade nos fornos motivo por que viera do estrangeiro o montador Debroux, havendo já uma arvore partida. Diz mais o sr. Alfredo da Silva que precipitára a demissão do sr. Nemés porque tivera a petulância de procurar a gerencia para dizer que a arvore partira exactamente por terem feito com que arrefecêsse de repente, quando o motivo não era esse mas sim o de elle proprio ter deixado que se entupisse e, portanto, não tivéra a devida circulação de ar. Não obstante haver um contracto com o sr. Nemés, pode dar a certeza, diz o sr. Alfredo da Silva, que as coisas se arranjarão sem difficuldades para a Companhia e também sem que se tenha a pagar qualquer indemnização.
O mesmo Gerente participou que collocára interinamente em director da fabrica de productos chimicos no Barreiro o sr. Philbert, simplesmente por causa da disciplina pª o pessoal, pois a fabrica seria dirigida de facto por elle gerente auxiliado pelos srs. Victor Bello e Debroux, até à chegada do novo director estrangeiro que, segundo communicação do intermediário, parece ter já acceite as condições em que a Companhia o deseja tomar ao seu serviço no Barreiro, e que são já conhecidas do Conselho, esperando-se agora receber a confirmação por escripto.
Quanto ao pessoal que fôra arranjado pelo sr. Nemés, o Sr. Alfredo da Silva declara que esse pessoal fica como convem á Companhia, tanto que até á data actual tem cumprido os seus deveres.
[…]
Acta nº 602 da Sessão do Conselho de Administração em 14 de Abril de 1910
[…]
O Sr. Alfredo da Silva deu conhecimento da carta que se recebera de La-Palisse de Monsieur Castéra que é o novo director para o Barreiro, em que elle declara acceitar o contracto para a prestação de serviços á Companhia, contracto feito nos termos combinados e de que o Conselho já teve conhecimento; a razão da demora em se receber tal carta esteve unicamente no facto de haver sempre morosidade nas cartas de La-Palisse para Lisbôa.
[…]
Acta nº 603 da Sessão do Conselho de Administração em 21 de Abril de 1910
[…]
O Gerente Snr. Alfredo da Silva participou que já havia uma grande melhoria na marcha geral da Fabrica no Barreiro, estando-se a terminar a reparação dos fornos, empregando-se todos os esforços para que tudo esteja tanto quanto possivel em bôa ordem á chegada do novo director.
[...]
Acta nº 606 da Sessão do Conselho de Administração em 12 de Maio de 1910
[...]
O Gerente sr. Alfredo da Silva informou o Conselho, da marcha dos trabalhos no Barreiro e que só se consiguiria pôr a Fabrica em laboração plena, quando se corrigisse a obstrucção que há entre os fornos e as câmaras, obstrucção que na opinião d’elle Gerente, se remediava desarmando o - Glover - e armando-o depois com nova distribuição nas tijuleiras. Como, porém, esteja para chegar o sr. Stinville e o novo director da fabrica, entende que é melhor aguardar a vinda d’aquelles senhores para examinarem o assumpto e darem a sua opinião.
[...]
[COMENTÁRIOS: a) a explicação desta obstrução e das suas causas, relacionadas com a formação nas condutas de sulfato de sódio proveniente dos resíduos do nitrato de sódio usado para a produção de vapores nitrosos e colocado em marmitas no trajecto dos gases, e bem assim das medidas a tomar, quer de reparação, quer de prevenção, constam detalhadamente da acta nº 612, da sessão dos conselhos de administração e fiscal em 23 de Junho de 1910, que aqui não é transcrita; b) Praticamente com esta acta — e com a seguinte — termina a designada “dansa dos directores”, que se inicia com a recusa de Pellet quanto a continuar no Barreiro como director, uma vez acabada a construção, e vai terminar com a instalação de Castera, por quem, como se verá, Alfredo da Silva virá a demonstrar apreço. De notar que a influência de Stinville é evidente na designação de Birne, sugerida na escolha de Castera, mas não é referida na efémera designação do húngaro Némes – que até trouxe consigo pessoal técnico]
Acta nº 609 da Sessão do Conselho de Administração em 2 de Junho de 1910
[...]
O Gerente sr. Alfredo da Silva informou que estivera no Barreiro installando o novo director a quem fizera entrega dos serviços, aguardando o sr. Stinville no fim da semana.
[...]
[COMENTÁRIO: Nenhuma acta confirma esta vinda de Stinville e qual a sua permanência. Torna-se porém evidente, em actas imediatas, a progressiva regularização da marcha das instalações do Barreiro e o desvio do respectivo teor para o enunciado detalhado de intervenções de ordem comercial, aliás activíssimas. Assim, para além do já referido diagnóstico da causa e da reparação nas obstruções na conduta fornos/Glover, como consta detalhadamente da acta nº 612 da sessão dos conselhos de administração e fiscal em 23 de Junho de 1910, Alfredo da Silva informa, a propósito de uma análise do mercado de adubos, que “tudo isto não é senão a confirmação do que sempre affirmára: que a fabrica da Companhia no Barreiro, havia de ser um successo industrial” (acta nº 617 da sessão dos conselhos de administração e fiscal em 28 de Julho de 1910) e, logo na acta seguinte, que “a fabrica do Barreiro estava agora marchando muito satisfatoriamente e que prosseguem com a maior actividade os trabalhos de construção do alargamento da fabrica que muito útil teria sido estarem já concluídos para laboração na presente época” (acta nº 618 da sessão do conselho de administração em 4 de Agosto de 1910). Na reunião conjunta de 22 de Agosto de 1910 (acta nº 621), combina “uma visita dos dois Conselhos às fábricas do Barreiro, na próxima semana”.]
Acta nº 622 da Sessão do Conselho de Administração em 25 de Agosto de 1910
[...]
Tomou-se conhecimento da marcha geral dos negocios da Companhia e o Gerente sr. Alfredo da Silva informou que era grande a azafama no movimento de adubos no Barreiro, estando um tanto ou quanto preoccupado porque algumas pilhas do adubo fabricado pelo sr. Nemés, apresentam o artigo de fabrico imperfeito o que pode trazer difficuldades para as expedições”.
[...]
Acta nº 623 da Sessão do Conselho de Administração em 1 de Setembro de 1910
[…]
[...] e o Gerente sr. Alfredo da Silva communicou que tencionava partir para o estrangeiro no dia 7 do corrente, indo a Paris regularizar as difficuldades que houve com os apparelhos fornecidos pela casa A.Piat & Cª, e bem assim á Bélgica para tratar do referendo com a casa Floridienne, acerca da estivagem do contracto.
[…]
Acta nº 638 da Sessão extraordinária dos Conselhos de Administração e Fiscal em 12 de Dezembro de 1910
[…]
Usou da palavra o sr. Martin Weinstein que expoz circunstanciadamente e em todos os detalhes o que se passára para attingir a solução do conflicto com os operários da fabricas em Lisbôa e a terminação da greve nas fabricas do Barreiro.
[…]
Do que se passou no Barreiro entre esta commissão e os operários d’ali, deu em resultado regressar a dita commissão a Lisbôa sem conseguir que os seus camaradas retomassem o trabalho, obtendo-se, porém, que sob a direcção do sr. Casterá, director technico da Fabrica do Barreiro, o pessoal tivésse todas as cautellas para não haver o arrefecimento brusco dos fornos, o que traria a sua provável inutilização.[...] ... offereci-me para ir pessoalmente ao Barreiro. Effectivamente fui ali no domingo no vapôr da 10h50 da manhã, acompanhado de alguns empregados da Companhia. Fui recebido á porta das fábricas pelos directores technicos e operarios em greve. [...] Seguidamente recebi a commissão dos grevistas que declarou que os seus camaradas retomariam o trabalho na segunda-feira, e que iam augmentar immediatamente o calor aos fornos. [...]
[COMENTÁRIO: Esta acta é parte essencial do vasto conjunto que relata os movimentos grevistas de 1910-1911 e que se transcreve na parte unicamente relativa à presença e intervenção da direcção técnica do Barreiro, consubstanciada em Castera.]


- - - LIVRO 11 - - -

Acta nº 664 da Sessão do Conselho de Administração em 18 de Maio de 1911
[...]
[...] e o Gerente sr. Alfredo da Silva informou que tinha de ir ao estrangeiro para assistir à Assembleia das Carris de Ferro, e que aproveitaria a occasiáo para tratar de alguns negócios da União Fabril, com o sr. Stinville.
[...]
Acta nº 665 da Sessão do Conselho de Administração em 6 de Junho de 1911
[...]
[...] e o Gerente sr. Alfredo da Silva, deu conta dos trabalhos de que se occupára em Paris, informando que conseguira que o sr. Herod venha occupar o logar de director technico das Fabricas do Barreiro, durante a ausência do sr. Castera que vae ao estrangeiro em goso de licença.
[...]
Acta nº 682 da Sessão dos Conselhos de Administração e Fiscal em 30 de Setembro de 1911
[...]
O sr. Martin Weinstein disse que visitára as installações do Barreiro, ficando-lhe dessa visita, a melhor das impressões, tanto pelo desenvolvimento das fábricas como pela bôa ordem que apresentam.
[...]
[COMENTÁRIO: Esta informação positiva traduz implicitamente uma apreciação favorável à gestão local, do mesmo modo que uma referência de Alfredo da Silva na Acta nº 675 da sessão do Conselho de Administração de 10 de Agosto já o notara ao participar que “ a Fabrica do Barreiro estava marchando com toda a regularidade, devendo ser este mez de grande producção”. Singularmente, na continuação desta Acta de 10 de Agosto, Alfredo da Silva descreve os efeitos negativos do tempo quente no rendimento das fábricas de ácido sulfúrico por câmaras, mencionando ter mandado baixar a carga de pirite aos fornos - o que traduz uma interessante “intromissão técnica” e revela o à vontade do Director Gerente no âmbito da condução corrente de unidades fabris. Ainda se poderá indirectamente referir ao pessoal dirigente a questão posta na Acta nº 686 da reunião conjunta de 26 de Outubro de 1911 nos seguintes termos: “O sr. John pediu várias explicações sobre o pessoal perguntando se a Gerencia estava satisfeita com elle ao que obteve resposta affirmativa.”]


- - - LIVRO 12 - - -
Acta nº 767 da Sessão do Conselho de Administração em 8 de Maio de 1913
[...]
[...] o Gerente sr. Alfredo da Silva communicou que acompanhado do sr. Stinville tem procedido a uma minuciosa visita de inspecção á Fábrica do Barreiro.
[...]
Acta nº 782 da Sessão do Conselho de Administração em 16 de Março de 1914
[...]
Sulphato de Cobre: o Sr. Alfredo da Silva explicou pormenorizadamente o atrazo que tem havido na “mise en route” de essa industria; que parte de essas demoras eram naturaes e inherentes a qualquer “mise en route” e que outra parte se devia ao que no programa estabelecido pelo Sr.Stinville havia pontos vagos, como a forma da grenalhagem de cobre, e outros não completamente estudados, como a lavagem do cemento de cobre para obter sulphato directamente do cemento produzido na nossa fábrica sem passá-lo ao forno.
As pequenas cuvas propostas por Paris para essa lavagem não deram resultado. Fizeram-se grandes tanques, e o resultado foi mais favorável.
Conhece-se pois pelas experiências feitas, que há uma parte do ferro difficilmente solúvel pelo acido, e que tratamos de tirar magneticamente procurando construir lavadouros mecânicos que nos assegurem uma lavagem ao acido mas [mais?] effectiva que a lavagem feita nas cuvas mesmo grandes, com agitação manual.
Não tendo sido bem succedidas as primeiras experiências de lavagem chimica obtivemos crystaes que pela interposição de oxydo de cobre tiveram que ser redissolvidos, ficando portanto a producção da fabrica sensivelmente reduzida, visto que as cuvas tinham de ser occupadas por duas operações para uma operação que devia se fazer numa só.
Também com o forno houve difficuldades, não na operação da fusão, que se faz perfeitamente, mas na grenalhagem de maneira que tivemos que têr recurso ao emprego d’um disco de grande velocidade regado com agua, o que, claro está, importou egualmente uma pequena installação mecanica.
Na refinação do cemento feita no forno ha sérios embaraços devidos ao enorme desenvolvimento de acido arsenioso, corpo este altamente toxico e de resultados que podem ser fulminantes. Isso obriga egualmente á installação de’um apparelho especial para a eliminação dos fumos arsenicaes.
O Sr. Administrador Gerente que o expuz mostrou que o problema estava sendo atacado em todas as direcções e que o mesmo senhor tinha estado em correspondencia com o Sr. Stinville sobre essa questão, que era mesmo possivel que um desses proximos dias ia ausentar-se para tratar desse problema em todos os seus detalhes assim como de outros negócios que a Companhia tem pendentes em Paris.
Participa mais o Sr. Alfredo da Silva que, menos cêdo que elle havia desejado, visto que a venda do sulphato de cobre começava a fazer-se já neste mez, contava ter a nossa fabrica em producção cheia ou quase para fim d’este mez ou para princípios do mez de Abril. Isso, porém, não exclue que certos detalhes de affinação terão que se completar mesmo pela laboração adeante, taes como a precipitação do ferro nas aguas mães pelo ar comprimido, etc. tudo isso detalhes parecendo pouco importantes que se tornam facilmente esquecidos, mas que no momento da “mise en route” dão bastante trabalho e despezas.
O Administrador-Gerente informou tambem que encommendou mais um forno Carlier [Charlier?] porque será necessario ter um em marcha para a affinação das cascaras que vamos comprar ás minas e que serão mais impuras que a que a nossa Companhia produz (há cascaras que teem de 20% a 30% de ferro). Nessas cascaras não há portanto que pensar em fazer a eliminação do ferro pelo processo chimico mas unicamente se pod/e recorrer à fusão no forno. Tudo isto que acaba de ser exposto não impede que a nossa fabrica produzisse já sulphato de cobre de magnifica qualidade, como provam as amostras presentes. Tem de se accrescentar que as quantidades vendidas até agora foram entregues todas. [...]
[…]
[COMENTÁRIO. O texto sobre sulfato de cobre na acta supra, texto esse que se transcreveu na sua quase totalidade, constitui um outro exemplo singular da capacidade técnica de Alfredo da Silva, que detalhadamente refere os aperfeiçoamentos que foi necessário introduzir na instalação de produção de sulfato de cobre, indústria no Barreiro inovadora, mantendo mesmo alguma posição crítica ao tratamento dado por Stinville a este projecto.]
Acta nº 789 da Sessão do Conselho de Administração em 7 de Setembro de 1914
[...]
Ausência de pessoal technico: O Sr. Administrador-Gerente participou ao Conselho que o chefe dos fornos Boissard tinha sido chamado para o effectivo do exercito francês e que o Director technico que teimou em se apresentar em França apesar de no Consulado lhe têrem dito que não precisava ir, estava agora em França e impossibilitado de sahir de lá, devendo ser incorporado por estes dias. Informou mais que o contramestre da fábrica de ácidos Poulmarch tinha adoecido com rheumatico.
Nestes termos, falta-nos bastante pessoal technico, o que não facilita a laboração, sobretudo na actual época d’expedição; teve portanto o Administrador-Gerente que tomar as medidas para remediar em quanto possivel a essas faltas. O director technico d’ Alferrarede foi adjunto do Sr. Sabatié para fiscalisar as expedições de adubos. - Fechou-se o laboratório de Lisbôa e o chimico francez Sadorge foi transferido para o Barreiro afim de o Sr. Sabatié ficar mais alliviado dos serviços de laboratório visto que o chimico actual do Barreiro não dá por enquanto inteira satisfacção. - e logo que o mesmo estiver mais desembaraçado no seu serviço, o chimico de Lisbôa collaborará na fiscalização technica da fabrica de acidos.
Claro está que desta forma perde-se o “contrôle” do laboratório de Lisbôa, o que não é sem inconvenientes; mas a Gerencia era forçada de attender ao mais necessario.
[...]
[COMENTÁRIO: A influência da I Grande Guerra tem o seu primeiro reflexo na Acta nº 788, referente à reunião do Conselho de Administração de 3 de Agosto de 1914. Os seus efeitos vão fazer-se sentir de forma drástica.]
Acta nº 790 da Sessão do Conselho de Administração em 31 de Outubro de 1914
[...]
Na fábrica do Barreiro continua a laboração normalmente; voltou o director Sr. Castéra de França.
[...]


- - - LIVRO 13 - - -
Acta nº 845 da Sessão do Conselho de Administração em 19 de Novembro de 1918 [8 dias após o armistício!]
[…]
O Administrador-Gerente dá explicações sobre a marcha geral dos negócios da Companhia e das tentativas que elle faz para obter do Governo francez a desmobilização do Sr. Castera antigo director da fábrica do Barreiro, cuja presença seria muito a desejar n’este momento.
[…]
[COMENTÁRIO: Ou seja, escassos 8 dias após o armistício de 11 de Novembro de 1918, já Alfredo da Silva promove o regresso de Castera]
Acta nº 847 da Sessão do Conselho de Administração em 21 de Janeiro de 1919
[…]
O mesmo Snr. [Alfredo da Silva] informa o Conselho que teve êxito nas suas “démarches”para conseguir do Governo Francez a volta do Snr. Castera para a nossa fabrica do Barreiro.
[…]
Acta nº 925 da Sessão do Conselho de Administração de 18 de Maio de 1925
[…]
Resolveu-se fazer-se uma instalação de fritagem, d’acordo com o estudo feito pelo nosso Administrador-Gerente e pelo Engenheiro Consultor da Companhia, Snr. Stinville, como complemento da de cloruração para o tratamento dos resíduos de pyrites de que há cerca de 200.000 toneladas no Barreiro e assim valorisando-os facilitar a sua venda no estrangeiro.
[…]
[COMENTÁRIO: Esta é, ao que sabemos, a última menção a Stinville nos livros de actas do Conselho de Administração da CUF. Interessante é o designativo do seu cargo. Note-se que esta reunião decorreu ainda na ausência de Alfredo da Silva, “exilado” no estrangeiro, sob a direcção de D. Manuel de Mello]


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REFERÊNCIAS / ACERVO DOCUMENTAL
[AAECPE, 2002] E-mail da Association des Anciens Elèves de C.P.E. Lyon (fusion de l’E.S.C.I.L.et l’I.C.P.I.) – Lyon, de 10 de Julho de 2002;
[ADMARNE, 2003] Archives Départamentales de la Marne, do Conseil-Général de la Marne, Châlons-en-Champagne, cartas de 8 e 25 de Agosto de 2003;
[ADP,2004] Archives de Paris – resposta ao nosso pedido de informações por ofício do Serviço de Relações com o Público datado de 25 de Março de 2004. Informando a descoberta do registo e o custo da respectiva fotocópia (€ 0,80), só possível de pagamento postal ou cheque à ordem do Tesouro Francês!. Devemos à estudante barreirense na Sorbonne, Ana Cristina Salvador — vd. [SALVADOR,2004] — o levantamento local do referido registo, poupando muita burocracia e dificuldade de concretização;
[ADP/CCIP,2002] Informações fornecidas pelos Archives départementales de Paris à Chambre de Commerce et d’Industrie de Paris e transmitidas em carta daquela Câmara, de 19 de Agosto de 2002;
[AMARAL,1993] Isabel Pereira Amaral, A Presença da Companhia União Fabril no Contexto Industrial Português – de 1865 a 1977, trabalho submetido à Secção de História e Filosofia das Ciências, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, policopiado, Lisboa, 1993, pag. 69;
[BEZIAUD,2004] local
http://pdg.beziaud.org/parisgenweb/archi.htm , consultado em Outubro de 2004;
[CABRITA,1999] Augusto Cabrita : Na Outra Margem – O Barreiro Anos 40-60 , album com fotografias de Augusto Cabrita, Ed. CUF, Lisboa, 1999 [foi também editado em inglês sob o título Across the River – Barreiro1940’s – 1960’s];
[CCIP,2002] Informações fornecidas pela Chambre de Commerce et d’Industrie de Paris, por carta refª. OC-ADB-2002-205 re, de 19 de Agosto de 2002;
[CHC/SFC, 2002] Carta do Club d’Histoire de la Chimie, da Société Française de Chimie, de 15 de Outubro de 2002 ;
[CNISF,2003] Carta do Conseil National des Ingénieurs et Scientifiques de France, de 24 de Junho de 2003;
[CRUZ, 2002-3] Isabel Cruz, diversas comunicações pessoais e notas escritas ainda não publicadas sobre a história das ciências e técnicas em Portugal, nomeadamente nas Fábricas do Barreiro, e o papel dos seus agentes activos; A Química, a Indústria Química e o Seu Ensino em Portugal (1887 - 1907): o Caso de Alfredo da Silva, comunicação apresentada na 4th International Conference on History of Chemistry, “Communications on Chemistry in Europe across borders and across generations” Budapeste, 3 - 7 September 2003; co-autoria, com o Dr. Gilberto Gomes, nos textos referidos em [SILVA et al,2003]; ver também
http://www.triplov.com/isabel_cruz/alfredo/index.htm;
[CUF,1958] Album 50 Anos de CUF no Barreiro , ed. CUF, Lisboa, 1956;
[ENSCM,2002] Carta refª DIR/JS/LC nº 02-467da Ecole Nationale Supérieure de Chimie de Montpellier, de 24 de Julho de 2002;
[ENSIACET, 2002] Carta refª. PG/vl/119-2002 da Ecole Nationale Supérieure des Ingénieurs en Arts Chimiques et Technologiques (E.N.S.I.A.C.E.T.) (integrando as E.N.S.C.T. e l’E.N.S.I.G.C.) – Toulouse, 17 de Julho de 2002;
[ENSPM, 2002] Carta refª JLK/Cl.Q-nº 4390, de 9 de Julho de 2002, da Ecole Nationale Supérieure du Pétrole et des Moteurs (E.N.S.P.M.) – Rueil Malmaison ;
[ENSSPICAM,2002] Carta da Ecole Nationale Supérieure de Synthèse, de Procédés et d’Ingénierie Chimiques d’Aix – Marseille (E.N.S.S.P.I.C.A.M.) – Marseille, de 18 de Julho de 2002;
[ESCOM,2002] E-mail da École Supérieure de Chimie Organique et Minérale (E.S.C.O.M.) – Cergy Pontoise, de 10 de Julho de 2002;
[ESPCI,2002] E-mail da École Supérieure de Physique et de Chimie Industrielle de la Ville de Paris (E.S.P.C.I.) – Paris (75231), de 2 de Setembro de 2002;
[FARIA, 2004] Miguel Figueira de Faria, Alfredo da Silva – Biografia, José de Mello / Bertrand Editora, Lisboa, 2004;
[FERNANDES, 2003] Filipe Fernandes, Fortunas e Negócios ; Empresários Portugueses do Século XX, Ed. « Oficina do Livro », Lisboa, 2003 (com inclusão do texto [VILLALOBOS,2003]);
[LAFARGE,2003] Carta de Lafarge Immobilier, Paris, 1 de Agosto de 2003;
[MICHEL, 2001] Philippe Michel, genealogista, comunicação por E-mail de 28 de Agosto de 2001 e correspondência electrónica conexa;
[MACKIE e ROBERTS, 2002] Robert Mackie and Gerrylynn Roberts, da The Open University, « Career Patterns in the British Chemical Profession during the Twentieth Century », comunicação apresentada na 5ª Sessão do XIII Congresso de História Económica, Buenos Aires, Julho 2002;
[MBLB, 2002] Informações fornecidas pela Mairie de Balaruc-les-Bains, por carta de 19 de Setembro de 2002; 2002.
[MIGUEL,1971] António Dias Miguel, Biografia de Alfredo da Silva, biografia não publicada, Lisboa, 1971. Esta biografia, preparada para a celebração do centenário do nascimento de Alfredo da Silva, estava ainda no prelo quando dos acontecimentos políticos de Abril de 1974, pelo que não foi publicada — correndo em cópias não-autorizadas;
[PEREIRA,2002] João Martins Pereira, comunicação pessoal sobre elementos recolhidos no Arquivo Ferreira Dias: cartas de 29 de Julho, 30 de Julho, 28 de Dezembro e 31 de Dezembro de 1927 e de 2 de Fevereiro de 1928; transcrições pelo Ministério da Economia / Gabinete do Ministro das cartas remetidas por Stinville a Alfredo da Silva, de 9 e 17 de Novembro de 1937];
[PFISTER,2003] Eulália Pfister, do Consulado Geral de Portugal em Estrasburgo, comunicação pessoal.
[PPPARIS,2003] Ofício do Administrador Civil do Service de Archives et Musée da Préfecture de Police de Paris, de 9 de Julho de 2003;
[ROLLO,2000] Maria Fernanda Rollo, Le « grand industriel » Alfredo da Silva (1871-1942), in Arquivos do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, Volume XXXIX, Biographies, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa – Paris, 2000 (em francês);
[SAAEEP, 2002] Carta da Société Amicale des Anciens Élèves de l’Ecole Polytechnique (AX) – Paris (75005), de 16 de Julho de 2002;
[SALVADOR,2004] Ana Salvador, Pesquisas efectuadas nos Archives de Paris em 2004 sobre registos de nascimento de Auguste Lucien Stinville nos inventários (microfilmados) dos “arrondissements” parisienses entre 1860 e 1872 e sobre menções no Bottin du Commerce e outros registos, comunicação pessoal, Outubro de 2004;
[SILVA et al, 2003] J. M. Leal da Silva, Gilberto Gomes et Isabel Cruz, A plataforma Industrial Química do Barreiro/Lavradio, artigo no álbum coordenado por José M. Brandão de Brito, Manuel Heitor e Maria Fernanda Rollo Engenho e Obra : Uma Abordagem à História da Engenharia em Portugal no Século XX , Editições Dom Quixote, Lisboa, 2003 ; idem, Sobre o Complexo Industrial da CUF no Barreiro, in 14. Processos Químicos, Volume 3º — Grndes Temas, de Momentos de Inovação e Engenharia em Portugal no Sec.XX, Edições Dom Quixote, Lisboa, 2004/2005.; .
[TREWINNARDT, 2002] Carolina Trewinnardt, comunicação pessoal e cópia de telegrama “SILVA CHEZ Stinville” de 1920 (1921?);
[TUDELA, 2002] Ana Paula Tudela, comunicação pessoal, seguida de pesquisa nos “locais” das Bibliotecas BNF e Sainte Geneviève, Paris;
[VASCONCELOS,1934] Manuel de Vasconcelos, Uma Missão na Holanda e na Suíça, in Indústria Portuguesa, Lisboa, Outubro de 1934, página 58;
[VIEIRA,2003] Joaquim Vieira (dir.) [com Júlia Leitão de Barros et Ana F. Silva Horta] Fotobiografias Século XX – Alfredo da Silva, Círculo dos Leitores, Lisboa, 2003;
[VILLALOBOS,2000] Luís Villalobos, Alfredo da Silva — O maior industrial português, separata nº 3 da Série « Empresários do Sec. XX» da revista Fortunas & Negócios », Lisboa, 2000 (texte retomado em 2003 para edição em libvro, vd. [FERNANDES, 2003])


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NOTAS NO FIM DO TEXTO
[1] Esta versão é a 5ª publicada ( a primeira em Português) com os resultados das pesquisas obtidos até 22 de Outubro de 2004. A contrário das anteriores, designadas como simples “Memorandos”, o presente texto — que contém diversos elementos até agora dispersos — foi por isso “promovido” a “Memória”.
[Para prosseguir entretanto os trabalhos, produzimos versões mais reduzidas deste texto, em Francês, Português e Inglês, a que chamamos também simplesmente “Balanços”].
O presente texto foi revisto em Setembro e Novembro de 2005. As notas adicionadas ao texto original têm um sufixo literal. Além destas, há pequenas correcções ou adições nos próprios textos das anotações originais.
[2] Nas notas que se seguem deparou-se-nos a natural dificuldade de, relativamente às entidades referenciadas, adoptarmos ou não as denominações traduzidas em Português. [O problema recíproco também se pôs, em menor extensão, na elaboração da versão em Francês]. Depois de uma primeira experiência pouco confortável, preferimos não o fazer – mantendo as denominações na sua língua original.
[3] Verifica-se actualmente um claro interesse biográfico pela personalidade e papel de Alfredo da Silva como um verdadeiro “tycoon” da indústria portuguesa. Uma recente biografia [FARIA,2004] veio trazer novidade e abrir múltiplas vias para investigações subsequentes. No ano anterior, uma fotobiografia [VIEIRA, 2003] trouxe também abundante informação, preenchendo um panorama em que um trabalho anterior acidentalmente não publicado [MIGUEL,1971] mas que circulava subrepticiamente como reproduções não-autorizadas, e diversos artigos, separatas, como p.ex. [VILLALOBOS, 2000] e [FERNANDES, 2003] e folhetos comemorativos, eram até então únicas fontes. Uma biografia de ALFREDO DA SILVA, em francês, consta das referências desta “memória” como [ROLLO, 2000].
[4] Em Portugal, no início do século XX, havia já produção de ácido sulfúrico e de adubos fosfatados, embora com dimensão e estratégia assaz diferentes das que Alfredo da Silva pretendia imprimir no Barreiro. Uma unidade da CUF — a Fábrica União, no Largo das Fontainhas, em Alcântara (Lisboa) — participava dessa produção anterior e via-se limitada na necessidade da sua expansão, factor que igualmente pesava na busca de outra localização industrial.
[5] É curioso verificar como Alfredo da Silva que era pessoa viajada, culta, conhecedora da indústria e da tecnologia, reconhecidamente exigente e que várias vezes se refere com algum entusiasmo à indústria química alemã, acaba por escolher tecnologia francesa, para a sua grande realização industrial. Um ANEXO a esta Memória contém as referências expressas a Stinville nas actas do Conselho de Administração da Companhia União Fabril. A primeira data de 29 de Maio de 1907 e refere já a proposta do engenheiro-construtor francês para a realização do projecto Curiosamente, também, a decisão de realização da obra só vai ser tomada depois da chamada a Lisboa por telegrama (com apenas viagens pagas!) e após a recepção de uma carta (abonatória?) de um (ainda) desconhecido protagonista, Jorge Lefebvre. A última referência expressa a Stinville nas referidas actas é de 18 de Maio de 1925 e reporta-se ao projecto de uma instalação de fritagem de cinzas cloruradas de pirite.
[6] Na nossa opinião, exclui-se a tecnologia de extracção química de óleo de bagaço de azeitona, representada na primeira unidade que entrou em funcionamento no Barreiro e a que Alfredo da Silva teve acesso anterior, potencializado pela tecnologia que adquiriu com a Fábrica de Azeites de Alferrarede, de J. Michelon & J. Combemalle – que incluía uma unidade de extracção química por sulfureto de carbono.
[7] Os dados referidos constam da entrada daquela sociedade no registo comercial, mantido nos Archives de Paris e que — como será adiante referido — permitiram”romper o tabu” das iniciais A. L., além de outras indicações potencialmente úteis [ADP,2004]. Pena é que o registo esteja escrito de forma pouco clara, levantando algumas dúvidas, nomeadamente entre as datas 1921 e 1925, incluindo um erro na data de nascimento de Alfredo da Silva (ali indicada como 30-6-72 !) e deixando outras indicações pouco claras. Apesar disso é sem dúvida uma via com potencial, que presentemente exploramos. As referências a esta sociedade noutra biografia [FARIA, 2004] estabelecem definitivamente 1925 como ano de constituição A presença da Sociedade Geral na composição do capital social de 7 milhões de Francos entende-se pelo facto de, nesse período, esta sociedade funcionar como efectiva “holding” do Grupo.
[8] Na última acta do Conselho de Administração da CUF que explicitamente se refere a Stinville, de 18 de Maio de 1925, este é apenas mencionado como “Engenheiro Consultor da Companhia”.
[9] Tratava-se do Eng. José Ferreira Dias (1900-1966) que, como profissional de engenharia, autor da “Linha de Rumo” [sobre medidas para a industrialização do País] e governante, viria a ter um papel relevante na indústria portuguesa.
[10] Na 3ª versão do “Memorando sobre A.L. Stinville” que , em Junho de 2002, editamos em francês para prosseguir consultas, mostramos uma segunda fotografia legendada como «Alfredo da Silva (à direita) e A. L. Stinville (à esquerda) em visita às Fábricas do Barreiro(≥1919 ?)». As dúvidas existentes quanto ao identificado nessa fotografia, recolhida numa dissertação universitária de 1993 [AMARAL,1993], nomeadamente pelo seu confronto com a que aqui se reproduz e que, proveniente de fonte CUF, se tem por fideligna, foram entretanto confirmadas [VIEIRA,2003] : tratava-se não de Stinville mas do então Embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Coronel Birch, em visita às Fábricas do Barreiro em 1918.
[10A] Depois do movimento revolucionário de 25 de Abril de 1974, a CUF e duas outras sociedades químicas e adubeiras (Amoníaco Português = AP e Nitratos de Portugal = NP) foram nacionalizadas em 1975 e extintas em 1976, após fusão constitutiva de uma única empresa pública, a QUIMIGAL (Química de Portugal). A nacionalização do “Grupo CUF”, em que a CUF era uma das sociedades relevantes, não foi efectuada em conjunto, do que resultou uma prática destruição da lógica interna e uma perda da coordenação estratégica unificada desse Grupo. Nessa evolução, a CUF trouxe à QUIMIGAL algumas das sociedades com sua participação ou sob o seu controle, mas não todas, pois que algumas sociedades de participação CUF (p.ex. as actividades mineiras) foram postas sob controle de outras empresas públicas, sem mais alguma intervenção na gestão da CUF/QUIMIGAL. No entanto, desde a nacionalização das três mencionadas sociedades (CUF, AP e NP) até à privatização da QUIMIGAL (1997), várias outras sociedades vieram a ser criadas sob o controle da QUIMIGAL para a gestão de negócios específicos, num sistema próximo de um “spin-off” controlado de actividades. QUIMIPARQUE, uma sociedade destinada a gerir as plataformas industriais do Barreiro e de Estarreja (esta no Centro/Norte do País, correspondente às instalações industriais que eram do AP) foi uma dessas novas sociedades criadas a partir da QUIMIGAL. As antigas e novas sociedades dependentes da QUIMIGAL tiveram três destinos até à privatização da própria QUIMIGAL: ou foram vendidas separadamente, saindo do domínio da QUIMIGAL para domínio privado; ou foram destacadas da QUIMIGAL antes da privatização desta, ficando como sociedades sob controle do Estado (caso aliás da QUIMIPARQUE); ou ficaram ligadas à QUIMIGAL e foram privatizadas juntamente com esta. O concurso público para a privatização da QUIMIGAL foi ganho por interesses privados com significativa posição do “Grupo José de Mello” = GJM, representando um dos ramos da Família Mello, accionistas maioritários da CUF pré-nacionalização e descendentes directos de Alfredo da Silva.
Após a privatização, a “holding” do GJM para a indústria química, englobando a QUIMIGAL finalmente adquirida a 100%, passou a chamar-se CUF-SGPS. Assim a CUF (ou CUF-SARL) e a CUF-SGPS são sociedades não simultâneas no tempo, historicamente ligadas mas em sucessão que não é nem directa nem universalmente coincidente; a QUIMIGAL é hoje uma sociedade sob controle total da CUF-SGPS; a QUIMIPARQUE é hoje uma sociedade anónima mas unicamente participada pelo Estado Português e que gere os espaços industriais do Barreiro e de Estarreja, onde estão instaladas muitas sociedades industriais do actual “Grupo CUF-SGPS”. [Esta nota, que não estava presente no original desta memória, foi introduzida em Setembro de 2005]
[11] Deploramos, muito especialmente, o “laminador de chumbo de 1907-1908”, que funcionou durante décadas e que a administração da Quimigal tinha deliberado preservar… mas que, infelizmente, também se perdeu!
[12] Coube à Dra. Isabel Cruz o mérito dessa constatação, expressa num “e-mail” que infelizmente se perdeu.
[13] Conclusão que nos viria a ser reafirmada mais tarde, noutra perspectiva: Stinville — ainda que com certas prevalências geográficas — não representava o nome de qualquer comuna ou povoação francesa que pudesse motivar uma adopção com base num local de origem [ENSCM,2002]. Diferente, o caso de “Stainville”. [Uma outra relação de natureza geográfica, sugerida pelo endereço telegráfico de A. L. Stinbville,que era “Austinville” viria a ser afastada depois. Não se tratava de qualquer “Austin” americano, do Minnesota ou do Texas, mas simplesmente da expressão resultante da justaposição de palavras na expressão “au Stinville”.
[14] Entre estes salientaremos os simpáticos apoios dos genealogistas Phillipe Michel [MICHEL,2001] e Dominique Soler. As primeiras consultas sobre Stinville foram por nós colocada, com um texto ortográfica e sintacticamente deplorável, no “France Genealogy Forum” em Julho e Setembro de 2001 (consultas nºs 10593 e 11285, respectivamente).
[15] Versões 1, 2, 3 e 4, de 20 de Janeiro de 2000, 24 de Agosto de 2001, de 18 de Junho de 2002 e 2 de Junho de 2003, respectivamente. [Como já referido, a versão 5, em redução deste texto, foi editada em Português, Francês e Inglês a 30 de Outubro de 2004 , com uma revisão assinalada como versão 6 em Agosto/Setembro de 2005]
[16] As escolas que não deram qualquer resposta foram as seguintes École Nationale Supérieure de Chimie et de Physique (ENSCP) de Bordeaux, École Nationale Supérieure d’ Ingénieurs de Caen, Département de Chimie Industrielle à l’Université Technologique de Compiégne, École Nationale Supérieure de Chimie (ENSC) de Clermont-Ferrand, École Nationale Supérieure de Chimie (ENSC) de Lille, Institut Textile et Chimique de Lyon, ENSC de Mulhouse, École Nationale Supérieure des Industries Chimiques de Nancy, ECP – École Centrale de Paris, ENSC de Paris, École Nationale Supérieure en Génie des Technologies Industrielles (ENSGTI) de Pau, École Supérieure de Chimie de Rennes, Institut National des Sciences Appliquées (INSA) de Rouen, École Européenne de Polymères et Matériaux de Strasbourg.
[17] Com esta interessante informação: « Só conhecemos o nome de Robert[o] Duarte SILVA (1837-1889), que foi professor de Química Mineral e de Análise Química na nossa escola [1882-1887], e depois professor de Análise Química na École Centrale des Arts et Manufactures (com sede actual em Châtenay-Malabry)». Temos aqui um outro exemplo da permuta tecno-científica franco-portuguesa no fim do sec. XIX e início do sec. XX. Existem ainda outros casos.
[17A] Porque a versão em Francês do texto desta Memória só ficou concluída neste momento (Novembro de 2005) nenhuma outra informação pode estar entretanto disponível para envio a esse Clube, salvo o texto preparado para a 5ª Conferência Internacional de História da Química, que teve lugar em Estoril e Lisboa em Setembro de 2005. Estas mesmo, porque redigidas em Inglês de acordo com as normas da Conferência, também não foram até agora enviadas.
[17B] Desde a conclusão do original desta Memória, em Português, estabelecempos ainda outros “contactos genéricos”, de acordo com sugestões recebidas. Citaremos os “Archives de la Catholicité” (pesquisa que não prosseguimos por se não adaptar aos termos e datas dos acontecimentos), “Service dês Cimétiéres de la Mairie de Paris” (excelente recepção do pedido, mas com resultado negativo), “Service Historique de l’Armée de Terre” (pesquisa que não prosseguimos por se não adaptar aos termos e datas dos acontecimentos) e “CIG-Petite Couronne” (resultado negativo). Foram também efectuados contactos mais dirigidos com a “The Ioen University”, em Inglaterra, o Arquivo Municipal do Barreiro e os Arquivos dos Departamentos da Petrite-Couronne, ou seja dos departamentos limítrofes de Paris.
[17C] Não conseguimos fazer compreender que uma resposta negativa (como p.ex. “A. L. Stinville não figura nos nossos registos”) ´é por nós considerada como uma contribuição de facto muito positiva e válida para uma pesquisa como a que efectuámos – e, em contrapartida, como uma ausência de qualquer resposta representa uma situação verdadeiramente improdutiva que conduz, no fundo, a uma indefinição nefasta.
[18] Encontramos, de facto, um André Louis Stinville, nascido em Paris aos 20 de Julho de 1909 [MICHEL,2001]… o que torna totalmente impossível que estivéssemos a tratar da mesma pessoa!
[19] Não escondemos a perplexidade que nos causou o aparecimento de três nomes próprios, numa ordenação que não conduzia directamente às iniciais A. L. e por essa ordem. Fomos amavelmente esclarecidos [PFISTER, 2003] que isso era/é possível, em França, adoptando o “baptizando”, mais tarde, os nomes que pretendesse e pela ordem que melhor lhe aprouveesse. Assim sendo, um Stinville, Louis, Clément, Abraham na pia baptismal poderia bem ser A. L. Stinville na vida profissional, como abreviatura de “Abraham Louis”. E até aventamos a hipótese de querer (mantendo o A.) e de não querer (mantendo-o como A.) dar presença explícita ao Abraham, em tempos ainda agitados pelas paixões do “affaire” Dreyfus, objectivo que seria obtido pela utilização das iniciais A. L.. É verdade, no entanto, que há notícia de exemplos assinaláveis na utilização conjunta destes dois nomes próprios: mencionaremos, entre outros os dois conhecidos relojoeiros suíços Abraham Louis Perrelet (1729-1826) e Abraham Louis Bréguet (1747-1823).
[20] Uma grande parte dos registos de estado civil parisienses anteriores aos acontecimentos da Comuna de Paris (Maio 1871) foram destruídos pelos incêndios dos Arquivos do Hôtel de Ville e do Palácio da Justiça, durante essas violentas comoções sociais — só tendo sido parcialmente reconstituídos (cerca de um terço…) por uma comissão nomeada para o efeito em 1872 e que funcionou até 1897. Sobre o assunto [BEZIAUD,2004].
[21] Pelo que a direcção «SILVA CHEZ Stinville 14 RUE CHAUVEAU LAGARDE PARIS » numa comunicação telegráfica enviada de Lisboa para Alfredo da Silva, então em Paris, aos 18 de Maio de 1920 (ou 1921?) [TREWINNARDT, 2002], significaria apenas um endereço escolhido, sem necessariamente representar a residência de Stinville, onde Alfredo da Silva poderia estar hospedado.
[22] Este cartão de visita faz parte do conjunto de informações relevantes que devemos à Câmara Municipal de Balaruc-les-Bains [MBLB,2002] e que nos permitiram iniciar e progredir na pista SIC-CUF, abrindo uma linha de investigação que se tem mostrado muito útil. Através deste valioso contributo, viemos a saber que nos Arquivos da Câmara de Comércio e Indústria da cidade de Séte, incluídos nos Arquivos Departamentais do Hérault (A.D.34), se encontra não só o cartão de visita de Stinville, já mencionado, mas também a cópia de uma carta dirigida por aquela sociedade aos Ponts et Chaussés de Montpellier aos 17 de Julho de 1926, exprimindo « le désir de voir effectuer sous la Direction des Ingénieurs du Service Maritime les enrochements, dragage, remblaiement de sa concession sur l’Etang de Thau […] étant [la Société] disposé[e] à faire tout le nécessaire permettant le prompt établissement de l’Usine projetée ». Além disto, soubemos que o registo predial (cadastro) da Comuna de Balaruc-les-Bains regista a venda à Société des Industries Chimiques C.U.F. à Paris, 14e Rue Chauveau Lagarde[1], em 1927, de um terreno de aproximadamente 16 hectares, no lugar denominado “Vauras” e sendo vendedor Arthur KLEHE. Não se tendo concretizado o interesse esperado do jazigo de bauxite que abasteceria a unidade, a SIC-CUF é dada como dissolvida em 1933 [ADP,2004] . Em 1934, em liquidação, o referido terreno em Balaruc-les-Bains é revendido à Sociedade Geral e, em 1954, esta sociedade portuguesa, por sua vez, cede o terreno à S.A. des Chaux et Ciments de Lafarge et du Teil, com sede em Paris [MBLB,2002]. Um contacto com Lafarge Immobilier [LAFARGE,2003] veio a revelar-se infrutífero, por não terem detectado essa transacção nos seus arquivos, admitindo no entanto uma alienação superveniente por não terem já qualquer propriedade em Balaruc-les-Bains. Permanece aberta a possibilidade de fazer a exploração da via notarial, para eventual acesso às escrituras relativas ao trato sucessivo deste imóvel e à identificação dos outorgantes.
[22A] A notícia mais tardia que temos da presença de Stinville no 14, rue Chauveau Lagarde refer-se *a visita do inspector-chefe de higiene industrial português, já referido na nota 11 deste texto [VASCONCELOS,1934]
[23] E onde se situaria, inclusive, a sede da Société des Industries Chimiques CUF durante a efémera vida desta sociedade [1925-1933) [ADP,2004]
[23A] Como ainda hoje sucede, o nº 14 da rua Chauveau Lagarde poderia acolher vários locatários. No período de presença aí do escritório de A. L. Stinville, nele esteve igualmente alojado (de 1921 a 1923) o Banco de Comércio da Sibéria, transferido de Petrogrado [hoje novamente S.Petersburgo, depois de tr sido Leninegrado nos entretantos]. Como referência desse facto o item 120AQ984 do Dossier 7 da Banque Française pour le Commerce et l’Industrie, filial da Banque Nationale de Crédit, vd. Documentação / inventário deste ultimo banco nos Arquivos Nacionais franceses (actif en septembre 2005)
http://www.archivesnationales.culture.gouv.fr/camt/fr/inventairesaq/120aq-21.html
[23B] Esta hipótese é suportada pela ausência de qualquer inscrição civilística de A. L. Stinville no nº 14 da rua Chauveau Lagarde.
[23C] Exemplos estes de palavras que, entre outras, ficaram a fazer parte do vocabulário industrial comum de origem francesa no Barreiro
[24] A lacuna histórica de uma indústria de síntese orgânica em Portugal — característica a considerar como um temporalmente prolongado calcanhar de Aquiles das fábricas do Barreiro [SILVA et al, 2003] e da própria indústria química portuguesa — não nos permite conhecer, com base na realização do Barreiro, se a extensão de conhecimentos de Stinville abrangeria também este particular. Ignoramos mesmo se interveio, ou não, no fabrico de sulfureto de carbono no Barreiro — cujas únicas “aproximações” à Química Orgânica resultam de ser um solvente e um intermediário químico possível. É no entanto evidente que os seus conhecimentos deram suficiente resposta às necessidades e especificações do cliente CUF e da indústria química portuguesa, no exacto momento em que foram solicitados.
[25] Cotas: na BNF : Cota e Fundos ; 4-V PIECE-6819, Tolbiac - rez-de-jardin / magasin ; na Biblioteca Sainte Geneviève : BR 12 764. Impressa em Paris, na “Imprimerie de Vaugirard — Directeur: H. L. Motti — 12, 13 – Impasse Ronsin, e realizado depósito legal. Não indicando qualquer outro editor, esta brochura foi certamente impressa a expensas do “editor científico” ou das sociedades que representava em França.
{26] Sobre a história das sociedades originais Cottrell vd, entre outras fontes,
http://ebiz.diamondpower.com/DP/DPsubHTML/WPHIST.HTM ; sobre a singular (e fascinante) personalidade do Prof. Frederick Gardner Cottrell (1877-1948) vd. http://www.rescorp.org/cottrell.htm.
[26A] É curioso que, sendo Stinville desde 1918 um especialista e mesmo um divulgador dos processos Cotrell de despoeiramento electrostático de gases, como demonstra por esta publicação e mais tarde como refere na visita de Vasconcelos [VASCONCELOS,1934], nunca ele tenha dotado com instalações dessas (designadas correntemente como electrofiltros) as fábricas de ácido sulfúrico do Barreiro, instalando os electrofiltros entre as baterias de fornos “Stinville 7,5” (isto é queimando 7,5 toneladas pirite / dia / forno) e a torre de Glover de cada fábrica de ácido sulfúrico por câmaras (e elas chegaram a 8). De facto, os electrofiltros ELEX montados mais tarde nessas localizações (no fim ou imediatamente após a II Guerra i.e. 39-45), após revisões ou reconstruções das fábricas, são já posteriores á sua intervenção e certamente ligadas à acção como consultor de Percy PARRISH (de 1943? a 1947) que também introduziu outras modificações técnicas significativas nas fábricas de ácido (turbodispersores Gaillard-Parrish, divisão das últimas câmaras, etc.) e que está muito provavelmente na origem dos projectos para a primeira instalação de ácido sulfúrico por contacto no Barreiro (que arrancou em 1950). En«m nosso entender, uma exok«licação provável é bastante simples: as fábricas pelo processo de câmaras de chumbo, tal como originalmente projectadas e construídas, poduziam ácido sulfúrico em condições reputadas suficientes para a produção de adubos, seja sob o ponto de vista de especificação, seja sob o ponto de voista económico. A montagem de electrofiltros Cotrell iria exigir um investimento e aumentaria os custos de funcionamento e de manutenção contra um benefício técnico que ent~ºao era considerado pouco compensador (mesmo entrando em linha de conta com as perdas de produção determinadas pelas violentas lavagens que os Glovers de tempos a tempos exigiam, quando demasiadamente entupidos pelas poeiras arrastadas). Então, por que razão montá-los? Seria apenas em resultado de exigências posteriores de um ácido de melhor qualidade, exigências esas determinadas por uma crescente (mas atrasada) sofisticação da adormecida indústria química portuguesa e certamente no próprio Barreiro, que seriam consideradas todas as medidas para tal necessárias (p.ex. montagem de electrofiltros, de sistemas de desarsenificação, de concentradores para o ácido, etc.). E será ainda mais tarde, para dar resposta a acrescidas exigências de qualidade, que impunham uma drástica redução do teor em ferro no ácido sulfúrico destinado à nascente indústria de fibras artificiais (viscose), que se chega à realização das primeiras fábricas por contscto representadas no Barreiro pelo designado “Contacto 1” (1950). Apesar disso, as ”fábricas de câmaras” seriam ainda reconstruídas e reparadas (e até uma construída) após o arranque dessa primeira unidade de contacto, para continuarem a produzir ácido destinado à indústria dos adubos fosfatados, o que bem demonstra a polémica então aberta (e que ainda “fervia” no Barreiro nos últimos anos da década de 50) sobre a econimia comparada desses dois processos alternativos.
[26B] Etabelecemos contacto por carta com os sucessores das sociedades Cotrell nos Estados Unidos (sem resposta) e com Elex, S.A., na Suíça (que nos informou não ter já os arquivos correspondentes às encomendas emitidas pela CUF para os electrofiltros a montar nas fábricas de ácido sulfúrico por câmaras). Uma via de investigação ainda a prosseguir.
[27] A notícia necrológica de Percy Parrish, como transcrita na comunicação mencionada, é a seguinte:
“PERCY PARRISH faleceu a 30 de Maio de 1947, com 63 anos.
Recebeu a sua formação científica nas Dewsbury Technical School, na Huddersfield Technical College e na University of Leeds. Em 1900 tornou-se Químico da empresa J. Brown & Co. Ltd, de Dewsbury e, em 1914, foi nomeado Director Geral e Químico das instalações da Eaglescliffe Chemical Company, no “county” de Durham. No ano seguinte ingressaria na South Metropolitan Gas Company, como director das instalações de amoníaco e ácido em East Greenwich, cargo que manteria até à sua morte. Foi autor de The Design and Working of Ammonia Stills [Projecto e Operação de Destiladores de Amoníaco], Sulphuric Acid Reaction Chambers [Ácido Sulfúrico por Câmaras], Sulphuric Acid Concentration [Concentração de Ácido Sulfúrico] e [em co-autoria] Artificial Fertilisers, their Chemistry, Manufacture and Application [Adubos Químicos: Química, Fabrico e Aplicação], para além de numerosos artigos publicados em revistas técnicas. Foi inventor de vários processos, sobre os quais manteve direitos de patente. Foi eleito Membro do Instituto em 1918 e Associado em 1931. Memórias do Instituto de Química [Proceedings of the Institute of Chemistry ], 1947, p. 190)


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O original deste texto (em Português) faz o ponto da situação das pesquisas realizadas quanto a A. L. Stinville até 22 de Outubro de 2004.
Foram feitas revisões em Setembro e Novembro de 2005 com actualizações restritas, essencialmente motivadas pela apresentação (“poster” feito e comunicação para os “proceedings”) da 5ª Conferência Internacional da Hist’oria da Química, que se reuniu em Lisboa / Estoril no mês de Setembro de 2005.
A tradução em Francês do texto foi elaborada em Novembro e Dezembro de 2005 para ser confrontada com os novos dados relativos a A. L. Stinville e que se consideram decisivos para estabelecer o seu almejado perfil técnico.


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