dezembro 28, 2005

Aspectos e antecedentes de uma "escola químico-metalúrgica"da Companhia União Fabril, CUF, no Barreiro - século XX

[Nota para apresentação no "blog": O texto que se segue corresponde a uma comunicação apresentada sob o título acima na XIV Reunião da Rede de Intercâmbios para a História e a Epistemologia das Ciências Químicas e Biológicas (RIHECQB) - Secção de São Paulo, Brasil, que se realizou naquela cidade de 3 a 5 de Junho de 2004]

Giberto Gomes; Isabel Cruz˚; J. M. Leal da Silva
Grupo de Trabalho do Arquivo da CUF/QUIMIGAL ˚CICTSUL


Introdução: Em 1958, com a edição do álbum “50 Anos da CUF no Barreiro”, a CUF – sigla pela qual era geralmente conhecida em Portugal a Companhia União Fabril e o seu Grupo – comemorava o cinquentenário das suas fábricas na vila do Barreiro (actualmente cidade), situadas a Sul do estuário do Tejo, mesmo frente à capital.
De facto, em 1908, concretizando uma ambiciosa aquisição de terrenos que permitia o triplo desiderato de um acesso fluvial/marítimo, de uma comunicação ferroviária e de um espaço chão, e suficientemente adaptado à realização industrial, o carismático “Comercialista N.º 1” português, Alfredo da Silva (1871 – 1942) retirava a Lisboa o predomínio industrial daquela sociedade - antes do Barreiro, a produção da CUF fazia-se com as fábricas “União” e “Sol” situadas em Alcântara, a escassas duas centenas de metros uma da outra. Ao mesmo tempo conseguia, no novo local, implantar um estabelecimento fabril moderno, capaz de concorrer com grandes centros industriais europeus, e vocacionado a prosseguir uma ligação preferencial com a agricultura, actuando quer a montante, facultando-lhe os adubos ou fungicidas, para melhoramento geral das culturas, por exemplo, quer a juzante, processando-lhe os produtos da própria terra (oleaginosas).
Com base numa tecnologia importada – com o francês A. L. Stinville a coordenar o processo, tanto ao nível das técnicas, equipamentos, como também a nível do pessoal, seleccionando os primeiros elementos de chefia e de comando, inclusive – o estabelecimento fabril da CUF no Barreiro tornar-se-ia um complexo químico-industrial e um modelo de eficácia, predominantemente no domínio da produção da química mineral. Utilizava matérias - primas nacionais (pirites, como fonte de enxofre e de cobre, e sal), factor importante para um país que ciclicamente se procurava equilibrar através da substituição de importações, e fosforite importada do Norte de África. E, como vector - força essencial no seu desenvolvimento, procurava assegurar a economia global do complexo por uma extensa prática de integração fabril.
A aproximação dos anos 40, e sobretudo a modificação e racionalização da química industrial, com o desenvolvimento da filosofia dos processos e operações unitárias, que marcou o período imediatamente após a II Grande Guerra, e acompanhou as transformações sociais desse período, veio surpreender e afectar de forma determinante a CUF - Barreiro fortemente ligada à vigorosa imagem do “patrão”, Alfredo da Silva, uma característica que se perpetuou muito após o desaparecimento deste.
Assim sendo, as fábricas do Barreiro – a que faltavam ainda os benefícios da intensificação de processos por catálise e alta pressão, e que permaneceriam fatalmente arredadas até aos anos 70 – 80 de uma indústria orgânica significativa – viriam a sentir “os ventos da mudança” e a consubstanciar uma verdadeira escola em que a adaptação de processos atingiu realidades surpreendentes.

1. A “identidade” e a “escola”: uma aproximação possível para o estudo da CUF - Barreiro
Falar de uma “escola” implica necessariamente considerar a dimensão de actividade humana, olhada nas suas múltiplas vertentes, desde a ética e a moral até à afectiva, passando por outras mais óbvias, como a social e a profissional.
Nye (1993) integra a “escola” no conjunto das três categorias – tradições; disciplinas; escolas – seleccionadas para o estudo da dinâmica do “conhecimento disciplinar” característico da Ciência.
Segundo Nye, estas categorias, ainda que possam ser posicionadas mediante o esquema cronológico simples de a “escola” criar a “disciplina”, que por sua vez gera a “tradição”, relacionam-se entre si de forma bem mais complexa, numa lógica que supera frequentemente a ordem linear temporal.
Assumindo essa “desordem” no processo dinâmico em estudo, a autora citada propõe então um esquema, não sociológico, muito mais afim de um modelo de construção de identidades históricas, desenvolvido a partir de elementos utilizados por etnólogos, antropólogos e historiadores para definição de colectividades ligadas à identidade étnica ou nacional.
Nesta aproximação teórica pela “identidade”, a “escola” é melhor entendida quando observada em analogia com uma família alargada, mais do que como um grupo nuclear local. Basicamente, o esquema é passível de aplicação a qualquer grupo altamente integrado, e tem a grande vantagem de permitir a integração dos conceitos separados de “escolas”, “disciplinas” e “tradições” numa matriz de análise única.
Para análise do conceito “identidade” visando a história de uma disciplina científica, Nye utiliza seis elementos, a saber: - genealogia e descendência familiar, incluindo a mitologia histórica de origens heróicas e episódios heróicos; - um núcleo bibliográfico para definição dos arquétipos linguístico e imagético; - práticas e rituais codificados e realizados; - uma territorialidade familiar incluindo instituições baseadas nos direitos e deveres dos cidadãos; - reconhecimento exterior; - valores partilhados e problemas por resolver.
Para prosseguimento deste trabalho, e clarificação dos objectivos que se propõe, torna-se necessário o esclarecimento de alguns pontos, tomando como ponto de partida o esquema proposto por Mary Joe Nye, e analisando-o para o caso da CUF - Barreiro: por um lado, uma empresa industrial (ou mesmo uma parte dessa empresa) não é uma disciplina científica; por outro, a análise de uma escola químico-metalúrgica da CUF - Barreiro, em particular, não substituirá a da CUF - Barreiro em si (tão pouco da CUF na sua globalidade), tal como a análise do conceito “escola” não esgotaria o estudo da disciplina científica. Não obstante estas diferenças de partida, porém, toma-se o modelo de análise por aproximação via “identidade” como ponto de partida para estudo da CUF no Barreiro, uma vez que também ela se pode considerar um grupo altamente integrado e organizado, tipologia para a qual (recorde-se) o modelo tem aplicação geral.
Desta forma, e independentemente dos elementos definidos para realizar a análise, a “escola químico-metalúrgica”, tomada como factor determinante para a construção da “identidade” da CUF-Barreiro, será considerada desde logo, como uma “família alargada”, e para ela se fará convergir a maior parte dos problemas por resolver, e dos valores considerados na sua resolução, que se considera serem igualmente o elemento chave para análise e definição da “identidade”, não só da CUF-Barreiro, mas também de toda a CUF.
E na medida em que a “escola” é uma categoria subsidiária a analisar, para o entendimento da construção da “identidade”, assumir-se-á, na medida do possível, neste trabalho, que à análise da “escola” pode ser chamado todo o conjunto dos elementos definidos para o estudo da “identidade”. Assumir-se-á, igualmente, a possibilidade de integração de aspectos que nunca antes foram relacionados entre si, e cita-se para já como exemplos, os termos “família CUF” ou “família Cufiana” tão familiar aos ouvidos de quem trabalhou nesta empresa; “universidade” ou “escola CUF” (referenciando a CUF-Barreiro, senão a própria CUF); a “comunidade do saber “ que partilhando e discutindo os problemas imperou no Barreiro em parte devido à obrigatoriedade de residência dos quadros superiores da CUF neste local (esta comunidade só foi amenizada pelos anos 60, com a inauguração da actualmente denominada Ponte 25 de Abril, a ligar as duas margens do rio Tejo na zona de Lisboa, e com a facilidade de transportes que daí adveio), para não falar das próprias famílias operárias, constituindo verdadeiros clãs: os chumbeiros, os carpinteiros, os pedreiros, entre outros campos especializados.
Refira-se igualmente outros aspectos, como os nomes das ruas do bairro operário das fábricas CUF no Barreiro, como a rua Liebig, Lavoisier, Berthelot, Lawes, Dalton; a omnipresença de Alfredo da Silva, o fundador, mesmo depois de desaparecido (sugerindo genealogias e mecanismos de mitologia histórica); o grupo desportivo, as creches ou as escolas (parte da territorialidade familiar a que Nye se refere); os liberais e os triunfos “fin-de-siécle”, os industrialistas e a modernidade (valores), o contexto do pós II Guerra Mundial e a expansão da empresa, os novos engenheiros IST, a sua posição como o maior complexo ibérico químico-metalúrgico, e das maiores empresas europeias no final da década de 60 (reconhecimento exterior); e por último os problemas do processamento das pirites, o arsénio, o chumbo e as questões ambientais, entre outros aspectos, que apontam por sua vez, para o elemento chave da aproximação teórica pela “identidade”.
Os tópicos que se apresentam na continuação desta exposição traduzem assim, esses mesmos princípios, e constituirão igualmente elementos de análise e contributos para o estudo histórico da “identidade” da CUF-Barreiro, e da própria CUF.

2. Condições para o desenvolvimento de uma “escola químico-metalúrgica” da CUF no Barreiro (1945 em diante)

2.1. As fábricas da CUF no Barreiro no final da II Grande Guerra
Falar sobre as fábricas da Companhia União Fabril no Barreiro em meados da década de 40 do século XX implica considerar um importante processo de transição que conduziu a empresa, em geral, e a CUF - Barreiro em particular, a um nível de desenvolvimento para o qual a complexidade já não era apanágio apenas da lógica da produção, deixada pelo seu fundador, Alfredo da Silva, e que permitia considerar o conjunto de fábricas, estruturas e serviços como partes integrantes e interdependentes de um verdadeiro complexo.
De facto, no início dos anos 40 a actividade do complexo do Barreiro estava já perfeitamente estruturada. Salvo raras excepções, as instalações fabris existentes inscreviam-se quase totalmente na lógica da produção química dominada pela matriz fisiocrática, que combinava a diversificação dos produtos com a integração vertical, sempre atenta à recuperação de sub-produtos e às necessidades do mercado, em especial o nacional. Do complexo químico-metalúrgico faziam parte nessa altura:
. instalações - de produção de ácido sulfúrico; de superfosfatos; de sulfato de cobre; de sulfato de sódio e ácido clorídrico; de sulfato ferroso; de carvão animal; de oxigénio; de sulfureto de carbono; de ustulação clorurante e de sinterização de cinzas de pirite (fritagem); de recuperação de cobre por lixiviação ácida das cinzas seguida de cementação; de obtenção piro-metalúrgica do cobre (metalurgia do cobre); de recuperação e laminagem do chumbo (metalurgia do chumbo); de recuperação e obtenção dos metais preciosos (metalurgia do ouro e da prata); de sublimação do enxofre; de cristalização de sulfato e carbonato de sódio; de extracção de óleo de bagaço de azeitona; de extracção e refinação de óleos de amendoim e de sésamo; de refinação de azeite; de produção de sabão; de fiação de juta e de sisal; de tecelagem e sacaria de juta; de fabrico de carpetes;
. instalações de moagem e trituração; silos (para fosforites e pirites); armazéns (de oleaginosas, óleos e massas residuais, de superfosfatos, de juta e sisal, de nitrato de sódio e de sulfato de amónio, dois produtos que então a CUF ainda importava);
. oficinas – de reparação de velas; encerados e cordas; dos electricistas; dos pintores; dos chumbeiros; de branqueamento e tinturaria, e de creosotagem;
. casas das bombas; depósitos e tanques; carpintarias; serrações; tanoaria; a infraestrutura de transporte ferroviário; vias aéreas com caçambas para a movimentação de sólidos na área dos adubos; caldeiras e centrais eléctricas, uma das quais com grupos “diesel”.
Da mesma forma figuravam os sistemas de controle analítico de produção e direcção técnica. No complexo existiam ainda os escritórios, casa do director e messe dos engenheiros, e também central telefónica, posto alfandegário, posto da GNR, portaria, quartel dos bombeiros privativos, duches e despensa, o bairro operário, a escola e a creche.
[1]


2.2. A abertura da empresa aos quadros
Um mar de coisas e um formigueiro de gente que, não obstante, se regulava por um sistema aparentemente simples, eminentemente “prático” na condução das fábricas, estruturado na base das “Secções”
[2] e apoiado num escasso número de responsáveis. Mas esta situação vai alterar-se a partir do final da II Grande Guerra: em 1945, contavam-se 10 chefes de serviço e em 1956 já eram 200, entre engenheiros e agentes técnicos[3]. Laboriosos obreiros do processo de transição, que leva mais de uma década, D. Manuel de Mello (1895 – 1966) [4] e o engenheiro Eduardo Madaíl respectivamente, o presidente e administrador-gerente da Companhia e o secretário da mesma (depois nomeado seu vice-presidente, em Julho de 1948)[5], são dois grandes projectores da CUF do século XX, “abrindo-a” por assim dizer, às pessoas, às novas tecnologias, ao desenvolvimento e à investigação, ao novo tempo que se parece anunciar com o fim da II Grande Guerra.
Como exemplo do que se acaba de afirmar, analise-se o início da 2.ª metade do século XX, em termos de admissão no complexo para quadros superiores: em 1949, o pessoal de chefia nas fábricas da CUF no Barreiro era 3,25% do total dos seus trabalhadores, isto é, 260 pessoas. Dez anos depois, o número subiu para 407 pessoas, valor correspondente a 4,32% do total. Neste período houve várias vagas de admissões, a de 1950/1951, a de 1954/1955 e a de 1956/1957. O pessoal superior (a designação englobava os agentes técnico-administrativos, os agentes técnicos de engenharia, assistentes de investigação, comercialistas, engenheiros, físicos, químicos, médicos e técnicos têxteis) admitido nessas vagas foi de 11, 54 e 70, respectivamente. No total, de 1950 a 1959, foram admitidas 173 pessoas para quadros superiores da empresa no Barreiro.
[6]
É aliás, a II Grande Guerra que a nível da indústria mundial marca definitivamente os contornos de um outro período, e assim se fala da transição das concepções de natureza industrial e social do “antes” e do “pós-guerra”.
[7] Neste novo conceito, a componente empírica vai sendo reduzida e, procurando-se entender os processos, fazem-se modificações de algum vulto nas instalações industriais. O engenheiro Madaíl, que desde cedo percepciona esta mudança,[8] inteira-se nas revistas internacionais da especialidade, sobre as inovações industriais praticadas, e adopta um regime de consultadoria externa para sectores chave da CUF química: os ácidos e os adubos com P. Parrish, e para os óleos, a Mantherstam. Percy Parrish, um especialista de renome em fábricas de ácido sulfúrico que não só fará modificações nas fábricas de Câmaras como, embora falecido em 1947, deixará a sua intervenção técnica ligada à concepção da primeira unidade de produção de ácido sulfúrico por contacto em Portugal, o designado “Contacto 1” (1950), estando por isso directamente ligado à fase inicial de introdução da tecnologia de catálise no fabrico do ácido sulfúrico no Barreiro, e no país.
Mas, ao contrário da direcção/consultadoria “Stinvilliana”, este outro regime de aquisição de tecnologia já vai ter de contar com um “cluster” humano “no terreno”, técnicos portugueses, engenheiros muitos deles, da “magra” dezena de admitidos entre 1943 e 1947 (compare-se com a situação anteriormente apresentada, de 1950 a 1959), que vão saber acompanhar de perto, e de forma crítica, as novas propostas avançadas, e preparar o complexo para a expansão de toda a estrutura.
As grandes transformações tecnológicas entretanto ocorridas durante e após a Grande Guerra, que se situaram nas áreas da catálise, e da tecnologia de altas pressões para a produção do amoníaco, e a sua introdução - amortecida, mas ainda assim realizada - em Portugal, bem como outros aspectos de diversificação de actividades e de processos que tiveram lugar posteriormente, trouxeram consigo o recrutamento de uma grande massa de técnicos jovens, fenómeno extensível a todos os ramos de actividade da CUF, do qual já se deu exemplo. Estes técnicos colocados nas chefias que, para além do mais, souberam manter uma ligação à escola, utilizar a experimentação como metodologia de trabalho e assegurar os processos de controle, modificaram a ordem das coisas no Barreiro. Com as suas práticas e posturas, o funcionamento do complexo conduziria a uma endogeneização de conhecimentos, e a uma atitude positiva quanto ao processo de adaptação de tecnologias, porta aberta ao desenvolvimento de tecnologias próprias. E, em última análise, a partir desta altura, os regimes de consultadoria tiveram, necessariamente de sofrer alterações, pois os técnicos da CUF «por volta de 1952, começaram a sair, para ver no estrangeiro as fábricas que funcionavam»
[9] e a iniciar o processo que os poderia um dia levar a ser capaz de vender, porque tinham aprendido a saber comprar (SILVA, 1983, p.13).

2.3. Estrutura, hierarquia e desenvolvimento no complexo químico-metalúrgico da CUF, no início da 2.ª metade do século XX
Importa aqui passar para outro nível de análise, ou seja, do plano humano para o estrutural e de organização. O novo pessoal técnico da CUF, em boa parte oriundo dos Institutos de Lisboa, o Instituto Superior Técnico (IST) e o Instituto Industrial (IIL), mas não só, já que – embora mais tardiamente – se iriam também recrutar quadros à Faculdade de Engenharia do Porto (FEUP), veio integrar a estrutura que entretanto se organizava em “Zonas” (1950) – Zona Ácidos; Zona Adubos; Zona Cobre (mais tarde, Zona Metais Não Ferrosos); Zona Norte (mais tarde, Zona Química Orgânica); Zona Metalomecânica e Zona Têxtil, conforme a lógica das produções - e constituir o “corpo” crescentemente especializado dos Chefes de Zona e Adjuntos. E, não obstante a importância das suas inovadoras características, o facto é que a sua “performance” dependeu inevitavelmente da capacidade de integração e acomodação desta estrutura, que tinha por função principal assegurar o bom funcionamento do complexo, a partir da dicotomia dos Serviços Fabris (“Serviços de Produção”, para as Zonas Metalomecânica e Têxtil) e dos Serviços Técnicos em cada Zona.
No final da década de 50, cada uma destas seis zonas criadas agrupava, no Barreiro, um conjunto de instalações tecnicamente afins, a saber:
. Zona Ácidos: fábricas de ácido sulfúrico, incluindo moagem de pirite, ácido clorídrico, sulfato de sódio e anexos;
. Zona Adubos: moagens de fosfatos e anexos, fábricas de superfosfato simples, superfosfato duplo, ácido fosfórico, adubos mistos, granulação, adubos químico-orgânicos, fosfato dicálcico, e indústrias anexas;
. Zona Metais Não Ferrosos: tratamento de resíduos de pirite, metalurgia do cobre, oxidação do cobre, fábricas de sulfato de cobre, silicato de sódio, metalurgia do ouro e prata, e indústrias anexas;
. Zona Química Orgânica: fábricas de: extracção por solventes, negro animal, óleo de mendobi, desidratação de óleo de rícino, saboaria, glicerina, sulfureto de carbono, xantatos alcalinos, refinação de enxofre, anidrido sulfuroso líquido;
. Zona Metalo-mecânica: fundição de ferro e aço, construções mecânicas, construções metálicas, construções navais;
. Zona Têxtil: fiação e tecelagem de juta, fiação de lã, tinturaria, tapetes de especialidades, lonas, cordoaria, velas e encerados.

Como funcionavam os engenheiros e agentes técnicos de engenharia nesta estrutura? Os Chefes de Zona eram os responsáveis por todos os aspectos da produção e do desenvolvimento, mas não pela programação da produção e dos seus custos. Dos Chefes de Zona – que tinham o número de adjuntos «julgado necessário para o bom funcionamento dos serviços» (cf. SENA, 1958, p.140) - dependiam, por um lado, os Serviços Fabris, e por outro, os Serviços Técnicos, que incluíam os denominados Centros de Estudo. Este sistema bipartido que dependia do Chefe da Zona permitia um funcionamento essencialmente pragmático, ligado aos fabricos e ao seu conhecimento e aperfeiçoamento. Para além dos Chefes de Zona, existiam também os Chefes de Fábrica, situados no nível hierárquico a seguir. A estes competia manter as unidades em funcionamento, cumprindo um programa de quantidades, custos, qualidade, segurança, ambiente, estado geral das instalações e gerir o respectivo pessoal.
E, de entre os adjuntos do Chefe de Zona, importa destacar a figura do Especialista, definida por SILVA et al.., 2005, p.253: «um engenheiro a quem cabia uma área geral de exercício de engenharia e uma área delimitada de conhecimentos, dentro dos fabricos da Zona. Tinha, antes do mais, de conhecer as fábricas, de estar a par com os mais recentes desenvolvimentos da sua área, de ser criativo, de saber fazer reconhecer-se como tal. Dava um apoio continuado aos problemas de produção e de vendas, à formação de segundas-linhas, recebia estagiários, fazia comunicações (...) Podia caber-lhe relatar, na reunião mensal, o que havia de novo na literatura química ou nos conhecimentos recebidos de outras fontes sobre a sua “especialidade”. Mas a literatura não era seu exclusivo: circulava por todos os quadros da Zona, produção ou estudos, “line” ou “staff”».
Verdadeiro “pivot” no desenvolvimento, o Especialista tinha diálogo cativo com o Chefe de Fábrica, nas propostas que apresentava para introdução de uma inovação ou realização de experiências de pequena monta, um sistema operativo que envolvia também a arbitragem do Chefe de Zona. Podia até liderar processos de grande alteração, de revisão vultosa, de inovação mais complexa ou importante, de estudo de maior interesse, numa equipa que agregava todos os restantes elementos designados para a obra, cuja aprovação preliminar era negociada pelo Chefe da Zona ao nível da Divisão, sendo definido o seu objectivo, custo, planeamento, desenvolvimento técnico, etc.
Importa ainda referir a formação das chefias intermédias (encarregados, chefes de turno) e operadores especializados. Para além da formação interna, em centros de aprendizagem, e do apoio prestado ao ensino técnico e comercial do Barreiro, inclusive facilitando a presença dos quadros técnicos da empresa como docentes, a estrutura de formação interna das Zonas ou dos Departamentos para aqueles grupos de empregados incluía verdadeiros cursos, organizados e ministrados pelos quadros e completados por rigorosos estágios na actividade. Estas acções de formação eram frequentemente completadas por cursos de “refrescamento”, em que se apresentavam novas tecnologias ou se preparava o pessoal para o desempenho em novas unidades.
Afirma ainda SILVA et al., 2005, p.254: «Mantinha este sistema, de uma forma geral, um permanente conhecimento sobre o campo de actividades industriais exercido ao nível da Zona. Pode-se, no entanto, apontar-lhe como defeito o produzir uma visão relativamente limitada em termos de desenvolvimento tecnológico. Valorizando a realidade fabril, havia pouca “libertação” da realidade fabril».
É pois já nesta formatação que se consolida o que se tornou conhecido (dentro e fora da empresa) por “Escola CUF”, e que aqui se retrata na sua vertente químico-metalúrgica. Em 1958, 80% da actividade industrial da empresa estava concentrada nas suas fábricas no Barreiro e, com os seus 10.000 trabalhadores, o complexo químico-industrial da CUF era então considerado o maior aglomerado fabril da Península Ibérica, e um dos maiores da Europa.



BIBLIOGRAFIA

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DERRY, T. K.; WILLIAMS, Trevor I. (1990) – Historia de la Tecnologia; Desde 1750 hasta 1900 (II). Madrid, Siglo Veintiuno de España Editores;
HOMBURG, Ernst; TRAVIS, Anthony S., SCHRÖTER, Harm G. –ed. – (1998) – The Chemical Industry in Europe, 1850 – 1914: Industrial Growth, Pollution, and Professionalization. Dordrecht, Kluwer Academic Publishers;
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[1] Elementos retirados de ARQUIVOS DA CUF/QUIMIGAL – Surveyor’s detailed report, The Northern Assurance Co. Ltd, 22nd. October 1937.

[2] A Secção Técnica ou a Secção “Estrangeiro” eram disso exemplos.

[3] Informação dada pelo Eng.º António Pessoa Monteiro a Isabel Cruz, em entrevista realizada em 19 de Janeiro de 1996.

[4] Filho do 2.º conde do Cartaxo, D. Jorge José de Mello (bacharel em Direito e um dos directores da Companhia Real Promotora da Agricultura Portuguesa, uma companhia fundada em 1884 com parte da “nata” científica e dos negócios lisboeta, com interesses na produção em química de base, nomeadamente adubos, e que explorava a Fábrica de produtos químicos da Póvoa de Santa Iria), Manuel Augusto José de Mello era genro de Alfredo da Silva. D. Manuel de Mello fez o Curso Superior de Comércio do Instituto Comercial de Zurique (Suiça), e entrou para o Conselho de Administração da Companhia União Fabril em 1919.

[5] ARQUIVOS DA CUF/QUIMIGAL – Companhia União Fabril, SARL; QUIMIGAL, EP; QUIMIGAL, SA: Órgãos Sociais (1865 – 1997). Grupo de Trabalho do Arquivo da CUF/QUIMIGAL, Dezembro 2002.

[6] ARQUIVOS DA CUF/QUIMIGAL. Serviços de Pessoal – Companhia União Fabril, Fábricas do Barreiro: Estatística do Movimento de Pessoal, de 1950 -1959.

[7] A historiografia da Indústria assinala a 1.ª metade do século XX como o período de transição (e em particular o período entre guerras como uma etapa condicionante do processo) para um sistema novo que já está “em vigor” na 2.ª metade da mesma centúria. Veja-se por exemplo WILLIAMS, T., 1987, p. 12.

[8] Mudança que reconhece existir igualmente ao nível da profissão de engenheiro químico, o que se pode facilmente depreender das suas palavras: «o título de engenheiro tem hoje um significado profundamente diferente do que tinha antes da Grande Guerra. Nesse tempo era, sobretudo, ao adjectivo que se dava realce e o engenheiro químico, antes de mais nada, era um químico que se ocupava de problemas de produção; a esse género de técnicos se dá hoje com mais propriedade o nome de químico industrial.
A evolução das condições económicas durante e, sobretudo, depois da Guerra Mundial obrigou a indústria a procurar outra espécie de técnicos, os engenheiros químicos com predomínio do substantivo, isto é, engenheiros que se ocupassem de problemas de química industrial; a engenharia química passou então a constituir um dos ramos da engenharia» (cf. MADAÍL, 1938, p.1).

[9] Eng.º António Pessoa Monteiro, em entrevista dada a Isabel Cruz, em 19 de Janeiro de 1996.
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